Cinejor debate produção de reportagens e jornalismo “de verdade”


Correria, deadline, tumulto, pressão... nada do que costuma ocorrer no dia a dia de uma redação jornalística fez parte das produções apresentadas no segundo Cinejor, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor/MT), no dia 24 de novembro. Ao contrário, os curtas produzidos pelo jornalista Rodrigo Vargas e pelo repórter fotográfico José Medeiros, “Nativa: movimento feminino nas aldeias” e “A Cruz do Padre João”, são verdadeiros exemplos de como a elaboração de reportagens é coisa cada vez mais distantes do jornalismo diário.

Esse foi o tema do último encontro, que rendeu excelentes reflexões. Em “Nativa”, os produtores trazem aos espectadores uma visão bem próxima da discussão feminina dentro das aldeias indígenas. Cem mulheres, de 16 etnias, mostram que a postura da mulher indígena está bem longe de ser submissa, como algumas pessoas imaginam. “Se você vai a uma aldeia, você pode ter uma impressão errada, de que as índias são quietas, caladas, submissas, mas é o contrário”, comenta Rodrigo Vargas.

“Me surpreendeu ver que os índios e as índias vivem em pé de igualdade e ver que elas têm uma postura tão clara de que a mulher deve respeitar o homem, assim como o homem deve respeitar a mulher”, comentou a tesoureira do Sindjor, Priscila Mendes, e ressaltou que as mulheres “brancas”, por vezes, se submetem a questões de desrespeito. Isto é, a cultura indígena se apresenta mais avançada nesse sentido do que a não indígena, enquanto muitos ainda teimem em promover a ideia de que os povos indígenas são, de alguma maneira, “atrasados”.

Com apenas 200 reais custeados pela empresa em que trabalhavam na época, mas uma vontade de ver e mostrar diferentes realidades impossível de ser calculada, os profissionais partiram, em 2006, a convite da Convenção das Igrejas Batistas Independentes (CIBI), para o evento que reuniu as participantes do movimento feminino nas aldeias. E a produção de um vídeo de qualidade, que aborda um tema tão interessante a baixo custo foi uma das questões levantadas na discussão. Por que as empresas jornalísticas não investem mais em trabalhos desse tipo? Quantos outros bons trabalhos poderiam ser realizados se houvesse incentivo?

Mas o que motiva essa vontade nos jornalistas? “Quando você vê uma notícia dizendo que Colniza é a cidade mais violenta do país, você vai lá ver, e dá uma puta matéria”, explicou José Medeiros, quando questionado de seus motivos. Empolgado, o repórter contou diversas curiosidades das viagens que fez com o colega em busca de boas reportagens, como o caso do “último mato-grossense”, que mora na última casa antes da fronteira com o Pará, no município de Apiacás. “Último se você estiver vindo do sul, mas se você vier do norte eu sou o primeiro”, brinca Rodrigo, reproduzindo a fala do entrevistado, que o alertou sobre a importância das diferentes perspectivas que rodeiam as situações.

Para ele, as experiências pessoais, o contato com o outro e o conhecimento a partir destas vivências é que são o mais interessante dessas jornadas.

O vídeo, gravado com uma câmera amadora e editado em casa, foi exibido no Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, nos Festivais de Cinema de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e de Vitória, no Espírito Santo, e também foi selecionado para ser exibido em um festival francês.

O segundo curta, “A cruz do padre João”, mostra a Romaria dos Mártires da Caminhada, realizada a cada cinco anos, em homenagem às vítimas da luta pela terra em Ribeirão Cascalheira, região do Araguaia, mortos em outubro de 1976. Entre eles, o padre João Bosco, assassinado por um policial. Trinta anos depois do fato que revolucionou a cidade, os moradores relembram que o município pode ter sofrido com a repressão, que “acabou Ribeirão Cascalheira, mas não acabou com o povo”, como diz Raimundo Soares, um dos entrevistados no curta.

Nos emocionantes depoimentos daqueles que vivenciaram a história, a dor de quem perdeu amigos e parentes lutando por algo que deveria ser direito de todos: um simples pedaço de terra. Ao mesmo tempo, o orgulho por ter pertencido a um forte movimento popular, que teve a coragem de enfrentar um poder que estava ali estabelecido. O vídeo produzido por Rodrigo Vargas, desta vez com uma verba de R$ 1600,00, gastos com o aluguel da câmera e editado pelo próprio jornalista, em casa, evidencia que esse sentimento, de trinta anos antes, resiste até na população local hoje.

Em 2007, “A cruz do padre João” foi o premiado como o melhor curta metragem no 14º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá.

“Eu fico pensando... esses vídeos são regionais, mas será que os colegas conhecem? Essa é a nossa história! Eu não nasci aqui, mas moro e trabalho. Essa é a minha história também”, questionou a presidente em exercício do Sindjor, Keka Werneck.

Chamou a atenção também a riqueza de detalhes de informações passadas pelos entrevistados no vídeo, a naturalidade e desenvoltura, o que levou o jornalista Robson Fraga, que trabalha com tele jornalismo, a levantar a questão da escolha das fontes.

“Eu acho que tem que ter feeling”, respondeu José Medeiros. Além disso, para ele, quando se faz trabalhos desse tipo, o profissional acaba aprendendo a conquistar, aos poucos, a confiança e a simpatia dos entrevistados.

Na verdade, a qualidade de texto, de imagem, de fotografia, sensibilidade para o fazer jornalístico em geral foi o grande foco do debate. Mas será que os jornalistas devem trabalhar como “voluntários” para conseguir fazer um trabalho de qualidade? O ideal é que questões como essa nunca se esgotem nos debates da categoria...

Os curtas exibidos no Cinejor estão disponíveis na internet. Para assistir “Nativa: movimento feminino nas aldeias”, clique aqui. Para ver “A cruz do padre João”, clique aqui.

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