O “Alvorada”, jornal da Prelazia do Araguaia, é tema de livro

Foi lançado ontem o livro “Práticas midiáticas e cidadania no Araguaia – O jornal Alvorada”, da professora Marluce de Oliveira Machado Scaloppe, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), no II Encontro Nordeste de História da Mídia, em Teresina, capital do Piauí.
O livro é resultado da dissertação de mestrado que Marluce Scaloppe, do Departamento de Comunicação, defendeu no Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da UFMT em 2009. O trabalho teve o objetivo de relatar parte da trajetória do jornal “Alvorada”, motivado por duas questões - o papel exercido em São Félix do Araguaia nos “anos de chumbo” e o que foi informado aos moradores daquela área durante a época de repressão. O interesse pelo estudo, conta a autora, foi despertado por uma declaração feita a ela por Dom Pedro Casaldáliga: “O mais antigo jornal alternativo no Brasil ainda em circulação”.
A pesquisa analisou 40 anos de história do jornal e abrange três momentos. O primeiro vai de 1970 até 1984, no qual a circulação do jornal era quase mensal. No segundo momento a análise abrangeu a época de 1985 a 1994, e a circulação se deu em períodos bimestrais, pois começou a ser impresso em gráfica e houve aumento dos custos. A última parte da pesquisa inicia no ano de 1995, época em que o jornal começou a circular em formato tablóide.
O livro foi produzido com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat) e editado pela KCM.



O “Alvorada”
O jornal “Alvorada” é um órgão de divulgação da Prelazia de São Félix do Araguaia, lançado imediatamente após a sua fundação, em 1970, e está até hoje em circulação. A primeira página é ilustrada pelo padre e artista plástico espanhol Maximino Cerezzo, também autor dos Murais da Libertação. Esses murais ilustram as igrejas da Prelazia.
Desde o inicio, o jornal não tratou apenas de assuntos relacionados à Igreja, mas procurava também conscientizar a população. Os temas giravam em torno da política, Igreja, terra e questões sociais, indígenas, econômicas, entre outras.
O objetivo de fazer um jornal que tratasse de assuntos da comunidade era utilizar a comunicação como forma de aproximação de setores defensores de valores como justiça.
No inicio, o jornal não tinha número de páginas definido e assembleias eram realizadas para ter cada vez mais a participação das pessoas na discussão dos assuntos que se tornariam pauta. Esse contexto se deu na época em que a Igreja estava passando pela fase da Teologia da Libertação, que iniciou em 1968, e causava preocupação no Vaticano por ter ideias de mobilização através dos meios de comunicação.
A Prelazia foi criada em São Félix do Araguaia logo no seu surgimento, que aconteceu pelo movimento da Marcha para o Oeste, que levou à migração de pessoas do Sul do País para a região. Para chegar até lá era necessário utilizar o rio Araguaia, pois não havia outras alternativas. Tanto que, na época em que Prelazia se instalou, nenhuma estrutura básica existia na cidade, sem contar os conflitos de terra e o trabalho escravo.
As matérias do jornal, então, serviam como serviço social e o “Alvorada” teve até destaque nacional por defender a população mais carente. Além do reconhecimento que a região ganhou com isso, veio também a repressão do governo do período da ditadura e da própria Igreja, relata o livro.
De acordo com a autora, o livro evidenciou a importância da comunicação como elemento na relação social e como cenário onde os cidadãos discutem e decidem assuntos de interesse coletivo.
A autora

Nascida em Alto Araguaia (MT), Marluce de Oliveira Machado Scaloppe graduou-se em Comunicação Social - Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1986). É mestre em História pela Universidade Federal de Mato Grosso, docente do Departamento de Comunicação, atuando principalmente nos temas jornalismo televisivo, comunicação alternativa e história da imprensa. Na pesquisa que resultou em seu livro, ela manipulou e analisou 1261 páginas de 122 edições do jornal, do período de 1970 a 1984.

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