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9 de mai de 2012

Escolhas



Por Márcia Raquel*



Há 15 anos eu chegava em Mato Grosso. Algumas malas, umas duas ou três caixas grandes, o peito apertado e o coração aflito me acompanhavam.  Na rodoviária de Várzea Grande (que por sinal continua igualzinha) meu falecido pai me esperava, acho que ele nem acreditava no que estava acontecendo. Meu irmão caçula, que tanto insistira para eu antecipar minha viagem, também estava lá. Era o começo de uma nova vida.

Uma vida que eu nem imaginava como seria. Às vezes, em épocas de mudança, a gente fantasia algumas coisas do tipo: como seria viver em uma casa nova, iniciar um trabalho novo, poder comprar o carro preferido sem se preocupar com o valor... Mas daquela vez eu nem conseguia pensar no que me esperava. Talvez fosse reflexo da reação dos meus amigos ao saber da minha mudança: “Cuiabá?! Nossa, o que você vai fazer lá?” Diante de tal espanto eu só tinha uma resposta: “Ué, vou estudar. Passei na Federal e não posso perder essa chance né”.

Os primeiros meses foram bem difíceis. Não é fácil para uma paranaense recém-chegada andar de ônibus em Cuiabá, ainda mais em tempos de Garça Branca e companhia. Mas, como bem cantou Renato Russo: “Sou um animal sentimental me apego facilmente ao que desperta o meu desejo...”.  Lembro que a minha primeira providência foi tirar carteira de habilitação. Eu não tinha carro, mas meu pai era taxista e quem sabe, bem conversadinho, ele não me liberava o carro em alguns momentos de folga né? Mas isso era também uma forma de ocupar a cabeça, pois as aulas só começariam em agosto.  

Lembro que todo final de semana passava um bom tempo no orelhão matando a saudade da família que deixei no Paraná e contando as mais novas experiências.  É bem verdade que voltava pra casa chorando de saudades, mas, eu tinha escolhido esse caminho, e acreditava nele. Já a comunicação com os amigos era via Correios mesmo. Não podia me dar ao luxo de gastar tanto dinheiro com telefone.  Mas a moção ao receber uma carta era tão grande que eu ficava horas com ela na mão, lendo e relendo para ter a certeza que não tinha pulado nenhuma frase. Tempo bom!

E agosto chegou. Que maravilha, que emoção! Eu nem acreditava que ia estudar numa Universidade Federal! Um turbilhão de coisas acontecendo, tudo ao mesmo tempo. Quanta gente nova, quanta diversidade, assuntos que eu nunca tinha se quer pensado antes. Meu Deus! Que cabeça pequena era a minha! Foi em meio a esse turbilhão que eu arrumei o meu primeiro trabalho em Cuiabá. Maravilha! Para quem trabalhou desde os 13 anos, pedir dinheiro para o pai, que já não tinha muito, não era nada fácil também.

Aí começou uma das melhores épocas da minha vida em Cuiabá. Conhecer gente de todo o Brasil foi a primeira coisa que me encantou na UFMT.  Fiz muitos amigos. Amigos de verdade, com os quais convivo até hoje e são também minha família aqui. Na faculdade aprendi que a gente deve respeitar a cultura de todos os povos. Na convivência com esses amigos entendi como respeitar e aprender com essa diversidade.

A vida acadêmica, a militância, as primeiras experiências no jornalismo, as viagens..., foram muitos momentos mágicos. Transformadores. A partir dessa vivência, descobri o que eu queria para minha vida. Coisa que eu estava longe de saber quando escolhi cursar jornalismo. A ânsia de entrar no mercado de trabalho me levou para Nova Mutum. Lá fiquei por um ano. Um período riquíssimo em experiência profissional e conhecimento dessa imensidão que se chama Mato Grosso.

Mas sabia que lá não era o meu lugar. Queria mais. Sempre quis.  Voltei pra Cuiabá e com a ajuda dos amigos (sempre eles) consegui meu primeiro emprego na chamada grande imprensa. Fui parar logo na editoria de política. E lá fiquei.  E veja como as coisas são, somente agora, depois de quase 11 anos de formada, estou fazendo o que pensava fazer quando saí da faculdade: escrever sobre cultura.  Mas, aprendi que não tem como fugir da Política. Ela está onipresente em todas as editorias, assim como em toda a nossa vida.

O tempo passou, perdi meu pai, meu irmão (companheiro de todas as horas) voltou pro Sul. E eu fiquei. Confesso que hoje sei muito mais sobre Mato Grosso do que sobre o meu Paraná.  Sou cuiabana de coração e tenho uma filha nascida em terras cuiabanas. Aqui vivi momentos mágicos e gratificantes. Tenho as melhores lembranças do meu pai. Tenho amigos/irmãos. Tenho um carinho imenso por esse povo, muitas vezes tão maltratado por políticos e administradores descompromissados.  

Não posso negar que esse calor me maltrata. E que muitas vezes tenho vontade de voltar. É verdade. Mas, depois de 15 anos, se alguém ainda tiver coragem de me perguntar o que eu vim fazer em Cuiabá, a resposta está na ponta da língua: Eu vim viver em Cuiabá!

*Marcia Raquel é Jornalista em Cuiabá. 

Um comentário:

João Negrão disse...

Márcia, seu texto me emocionou muito. Fico vendo nossas trajetórias de vida, muito parecidas no geral, com as pitadas que a vida de cada um tem e seus desdobramentos.
Com 19 anos de Cuiabá e 28 de Mato Grosso, nunca imaginava que um dia deixaria tudo para trás para, irremediavelmente, nunca mais voltar.
Este é meu estado de espírito, mas venho me descobrindo cigano e, quem sabe, nas voltas que ainda pretendo dar no meu mundo, volte por aí para te dar um grande abraço.
Um abraço forte e fraterno como o que estou com vontade agora depois de chorar com o breve relato de parte de sua trajetória.
Muitas outras partes ainda virão e, percebendo a sua inquietude, serão elas ainda mais emocionantes.
Grande beijoão!