Escrevo, logo tenho que receber!


*Por Josiane Dalmagro


 Imagine o que é o trabalhador ter que se preocupar se vai ou não receber pelo trabalho que ele já realizou, no final de cada mês, todos os meses, durante mais de um ano.

Bom, se para alguns isso parece distante e impensável, creia, para muitos jornalistas de Cuiabá, é uma realidade mais que próxima. Uma realidade praticada por alguns, grandes, veículos de comunicação, como o Jornal Folha do Estado e Diário de Cuiabá.

Agora, pense aqui comigo, como se não bastasse toda a pressão de um jornal diário, o fechamentos de pautas, o furo de notícia, a manchete, os especiais de final de semana, os plantões, as horas extras (não recebidas, é claro), o jornalista tem ainda que pensar de que maneira ele vai pagar as contas naquele mês, qual será o malabarismo necessário, quais contas serão priorizadas e como pagá-las.

Passa do nível da humilhação e desrespeito para, quase, a linha do trabalho análogo escravo, pois, até onde eu entendo, trabalhar e não receber é isso, não é?

Pois bem, na tentativa de restabelecer o mínimo necessário para a sobrevivência desses trabalhadores, o Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso, junto com os repórteres da Folha do Estado, iniciaram, ainda em novembro de 2011, a primeira greve, depois de quase três meses de salários atrasados.

A medida funcionou naquele momento, pois a referida empresa se assustou com a atitude dos trabalhadores que, há muito estavam “inertes” aquela situação, aceitando calados o tipo de postura aplicada pela empresa.

Logo após o início da greve, dois salários apareceram nas contas de cada um dos funcionários, sendo considerado um verdadeiro milagre da multiplicação.

Na ocasião muitos colegas de profissão se solidarizaram e publicaram em seus veículos o corrido, dando força e braços para a greve, o que também ajudou bastante, pois, mais do que a preocupação com os leitores, ao meu ver, a empresa se preocupa (ou preocupava) com a imagem do jornal.

Promessas de mudança foram feitas e todos ficaram motivados para continuar realizando seu trabalho, mas o caso é que, como esperado por muitos, foram promessas vãs, calcadas no único interesse de resolver a greve e colocar a força de trabalho para funcionar.

No começo desse ano a situação já estava precária novamente e, mais uma vez, os repórteres decidiram, parar os trabalhos. Assim como na primeira greve, não houve adesão dos editores que, justificaram a não participação por conta de algo que eles chamam de “cargo de confiança”. Eu nunca entendi bem, afinal, até onde eu sei, esse tipo de cargo não cabe para empresas privadas, certo?

Essa sim, posso dizer, foi uma greve histórica. Todos os repórteres ficaram parados durante 14 dias. Poxa vida, quase metade de mês! E sabe do que mais, o jornal saiu todos os dias. Reduzido, cheio de release, feito nas cochas (com todo respeito aos editores que se mataram nesse período para por o jornal na rua), mas saiu.

Resultado: a greve, mesmo que longa, perdeu a força e os empresários responsáveis pelo jornal passaram a ignorar a situação. Os veículos não deram muita atenção e não publicaram quase nada e quando eles acharam por bem, pagaram e todo mundo voltou.

Muitos repórteres pediram demissão e, ainda assim, a situação voltou à esfera de greve esse mês.

A diferença é que dessa vez, a promessa era de que todos parassem, inclusive os editores e, eles o fizeram. O prazo seria a última quinta-feira (12), pois, mais uma vez, os salários estavam – e continuam - atrasados há dois meses.

Vergonha. Essa é a palavra que me vem primeiro quando penso nisso tudo. Depois sinto tristeza e desilusão, seguido de pena de quem ainda não teve coragem ou chance de sair do referido jornal, diante de tudo isso.

*Josiane Dalmagro é jornalista em Cuiabá.

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