Debate relembra 6 meses do assassinato de Toni Bernardo


O racismo no Brasil tem entre suas características o fato de ser baseado na aparência física, e de ser “cordial”, ou seja, mascarado, o que torna mais justificáveis atos como a morte do estudante africano Toni Bernardes da Silva, 27, morto por asfixia depois de ter a traquéia fraturada pelos policiais militares Higor Marcell Mendes Montenegro e Wesley Fagundes Pereira, ambos de 24 anos, e pelo consultor de telefonia Sérgio Marcelo Silva da Costa, 27. O fato ocorreu no bar Rola Papos, no bairro Boa Esperança, em Cuiabá, no dia 22 de setembro do ano passado.



Segundo os acusados, ele teria pedido dinheiro à esposa de Sérgio e depois de ouvir uma negativa, a teria segurado pelo braço, o que motivou o início da agressão.

Relembrar seis meses desta data e protestar contra a postura que alguns membros da Justiça mato-grossense têm assumido no caso é o objetivo do debate “Racismo e violência policial, duas faces da mesma moeda”, que acontece nesta quinta (22), às 19 h, no auditório do ICHS, na UFMT. A entrada é aberta à comunidade.

Na programação, será exibido um vídeo sobre o episódio da morte de Toni, com depoimentos de amigos, estudantes, professores e imagens das manifestações que reuniram a comunidade acadêmica e os movimentos sociais contra a violência ocorrida. O vídeo foi filmado pelo radialista e professor Cláudio Dias, do movimento Resistência Popular.

Esclarecimentos sobre o andamento do processo jurídico serão dados pelo membro do movimento negro e professor Waldir Bertúlio, do GT Etnias, gênero e classe da ANDES-SN/ADUFMAT Seção Sindical, uma das parceiras do evento.

Outro parceiro é a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-MT) do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso, que levará para a discussão a visão de uma africana sobre a cobertura da mídia sobre o caso, a estudante Diela Tamba, da UFMT, amiga de Toni. A mesa contará com a participação da jornalista Neusa Baptista, membro da Cojira-MT.

Bertúlio lembra que o Brasil possui uma estrutura social que legitima o racismo de acordo com o poder econômico e político de quem o pratica. A influência do poder econômico e político motiva as decisões desfavoráveis à população negra, que é detentora de menor poder, diz ele, para quem a decisão da juíza da 8ª Vara Criminal de Cuiabá, Maria Rosi de Meira Borba - que foi favorável à denúncia do Ministério Público Estadual (MPE) e reconheceu o crime como lesão corporal seguida de morte – revela a influência deste poder sobre a Justiça. Graças a esta decisão, os réus passaram a responder por lesão corporal seguida de morte e não homicídio qualificado, o que os tornou aptos a pagarem fiança e serem soltos.

Ele lembra que no ano passado, a juíza da 3ª Vara Criminal, Marcemila Melo Reis, não concordou com a denúncia da promotora de Justiça Fânia Amorim, que classificava o crime como lesão corporal seguida de morte, e o qualificou com o homicídio, baseando-se, inclusive, em depoimentos da professora Janaína Monteiro, testemunha ocular do caso. “A promotora, que é quem tem que defender o cidadão, propõe crime sem intenção de matar, contrariando os autos. É uma atitude suspeita pois não precisa ser advogado para em função das provas cabais que houve intenção de matar”, reclama ele.

O professor observa que existem interesses externos operando neste caso, onde a Justiça está sendo instrumento do racismo. “Foi dada soltura aos presos, sem questionar a promotoria, o que é muito suspeito, para mim é má fé”. Segundo ele, estudantes e a professora Janaina estão sendo ameaçados.

A luta dos movimentos sociais no momento é de que o caso seja revisto e que vá a júri popular.

O debate é organizado pelo Movimento de Resistência Popular e conta com a parceria do Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso, da Comissão de Direitos Humanos da OAB, da Cojira-Sindjor-MT e da ADUFMAT, do Movimento Rumo ao Socialismo, do Centro Acadêmico de Ciências Sociais.

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