ARTIGO: Uma sociedade que cria monstros

Marta Helena Cocco*

São três horas da manhã e eu perdi o sono, apesar de o meu filho estar dormindo no quarto ao lado. Neste momento, aqui em Cuiabá, uma amiga e ex-colega de trabalho, Cleide Oliveira, provavelmente também esteja dormindo com o filho por perto, ele que conseguiu sobreviver a um espancamento bárbaro na cidade de Lucas do Rio Verde.

Neste momento, em Diamantino, uma ex-colega de faculdade não deve estar dormindo e, se estiver, é provável que seja sob efeito de medicamentos. O filho dela não resistiu a tiros desferidos na saída de uma boate e morreu.

Sobre o primeiro caso, eu soube depois de um mês do ocorrido. Minha amiga havia enviado e-mails aos conhecidos, mas eu apaguei sem ler, temendo ser vírus, por causa do título da mensagem. Ela deve ter pensado que eu, como boa parte da imprensa, consideramos o caso irrelevante, pois a violência está tão comum e banal que, noticiá-la, em meio a casos mais graves, não seria necessário. 

Heitor é estudante de Medicina e foi, a convite de um amigo do interior, para uma dessas feiras agropecuárias em que, em meio a negócios lucrativos, centenas de pessoas desfilam de botas e chapéus, copiando o modelo caubói dos EUA. 

Heitor é estudioso, concentrado (típico de um estudante que consegue aprovação em Medicina numa universidade federal) e não gosta de festas desse tipo, mas foi aconselhado pela mãe: vá se distrair um pouco, você estuda demais. 

Lá na feira, um jovem esbarrou nele que reagiu dizendo: "Presta atenção, cara!". Pronto, foi tudo o que o outro precisava para juntar sua gangue de filhinhos de papai e espancar o estudante violentamente. O motivo? Ninguém sabe.

Por que Heitor era de fora? Por que tem a pele morena? A polícia não deu ênfase ao caso, ninguém foi preso e a imprensa nem se abalou. O estudante, sangrando, foi até a rodoviária com um saco de gelo na cabeça,  certamente embasado em conhecimentos da Medicina. 

Chegou a Cuiabá e ligou para o pai que o levou ao hospital. Fratura no crânio. Muitos pontos e pinos na cabeça e uma imensa cicatriz. Eu vi o estudante, vi as radiografias e ouvi o relato da mãe que passou muitas noites sem dormir.

Luis Fernando, de Diamantino, eu conheci criança. Soube por meus sobrinhos, da idade dele, que Luis também era estudante da UFMT, de Educação Física, e que era um menino educado e "gente boa". 

Houve uma briga numa boate, que meus sobrinhos e outros filhos de amigos e conhecidos de Diamantino também frequentam.

Luis Fernando teria tentado apartar a briga, pois um dos envolvidos era amigo dele. Os seguranças do local expulsaram o jovem causador da confusão por causa de uma paquera, segundo infomações. Ele foi embora com o irmão que (em depoimento dado à polícia) não gostou da expulsão e foi buscar um revólver. 

Na saída da boate, o rapaz desferiu tiros que acertaram o amigo de Luis Fernando, Maiko, da cidade de Nobres (morreu imediatamente) e o próprio Luis, que foi levado ao hospital de Diamantino, depois transferido para Cuiabá e não resistiu (morreu um dia depois).

Esses dois casos são emblemáticos para mim, pois envolvem pessoas conhecidas. Mas há inúmeros casos semelhantes a esses todos os dias, em todos os lugares. Onde estão os culpados?

Os de Lucas do Rio Verde nem foram identificados, provavelmente por serem ricos. Os de Diamantino são pobres e estão na cadeia, que pode ser chamada de pós-graduação para bandidos. Serão julgados, provavelmente presos e, um dia, soltos.

Perdi o sono porque também sou mãe. E porque neste momento penso que também somos culpados e que precisamos avaliar não só a consequência, mas o que está gerando esse tipo de comportamento generalizado nos jovens. 

Por que somos também culpados? Por que aderimos, sem refletir, a um modelo de sociedade em que o valor supremo é o dinheiro e o consumo. Cada vez mais. Nossas escolas, por exemplo, estão fracassando porque um professor, tão desvalorizado, nem sempre consegue inspirar seus alunos a buscarem sucesso nos estudos e a produzirem um conhecimento em que o aspecto econômico da profissão seja apenas um, dentre outros. 

E porque, entre outras coisas graves, muitos dos políticos que elegemos (e que se candidatam porque têm dinheiro e são populares, com raras exceções) não estão interessados em mudar o rumo das coisas na educação.

Alguns poderão dizer: está faltando Deus. Sim, está faltando Deus, mas um Deus que inspire as pessoas a desenvolverem sua espiritualidade e a se conectar com o divino que não está lá no alto, mas dentro de cada um, inclusive dentro do próximo. 

Não um Deus pregado em igrejas e templos em que alguns padres e pastores estão, na aparência, reproduzindo um discurso baseado em dogmas e, no fundo, alimentando instituições milionárias cada vez mais poderosas e com uma influência política enorme. 

Outros poderão dizer: está faltando disciplina. Sim, mas não uma disciplina baseada no "eu mando e você obedece e ponto final". Uma disciplina baseada em argumentos de bom senso em que as regras estabelecidas sejam fruto do debate, da experiência dos mais vividos, da consciência sobre a real produção dessas regras e, principalmente, da finalidade delas. 

Há quem diga que com criança não funciona assim. Discordo. Crianças que aprendem a dialogar desde cedo, aprendem a argumentar e a exigir explicações plausíveis. Crianças educadas à base de surras e espancamento, provavelmente desenvolverão algum tipo de reação violenta diante de circunstâncias hostis, ou em momentos da chamada "cabeça quente".

Eu diria que o está faltando na vida das pessoas é a Arte e uma educação para a sensibilidade, para o cuidado com as coisas divinas como a natureza, inclusive a humana. Está faltando nas pessoas valorizar mais a felicidade, a justiça, a honra à palavra empenhada e menos o dinheiro e o status social. 

Os jovens são impulsivos e agem sem pensar. Uns agridem e matam porque a vida, para eles, não é nada. Matei, e daí? Outros, também jovens e impulsivos, mas incapazes de atos de violência contra o próximo, estão vulneráveis, correndo riscos e, provavelmente, sentindo-se inseguros diante do futuro.

Outro dia, a presidente Dilma apresentou um projeto para o barateamento do livro, na tentativa de melhorar a educação neste país. 

Sinto muito, presidente, mas o problema não está no preço do livro, embora seja muito bom que ele seja barateado. Está na cultura. Enquanto as pessoas considerarem mais importante comprar um par de botas e um chapéu para desfilar numa feira ou um celular da hora para impressionar, em vez de um livro para ampliar seu conhecimento; enquanto "ter" for mais importante do que "ser" num contexto em que as diferenças econômicas se acentuam, nenhum programa dará certo e a violência aumentará. 

O mundo está doente. Por isso perco o sono, mesmo sob a sensação de uma relativa segurança e mesmo com a certeza de que meu filho está dormindo no quarto ao lado.

Perco o sono, porque penso na dor das ex-colegas, penso na dor coletiva e penso que a doença é coletiva. Cleide viveu um inferno, mas o filho, hoje, passa bem e voltou a estudar. Lorena e Evandro, dentro de algumas horas, em Diamantino, terão de enterrar o filho primogênito.

Enquanto isso, daqui a pouco, o sol vai aparecer e será mais um dia e esta sociedade continuará a fabricar monstros que não valorizam a vida. 

Não sei o que dizer ao pai e à mãe do Luis Fernando, aos amigos, aos jovens, às autoridades, à imprensa. Mas sei o que eu jamais diria: "conformem-se, Deus quis assim".

Esse discurso talvez seja do diabo e as pessoas o reproduzam inocentemente, na tentativa de consolo. Mas para mim não serve. Não por causa da morte em si, pois é o destino de todos nós e talvez seja algo muito melhor do que possamos imaginar. 

Mas, por causa da vida, justamente essa que estamos vivendo.

*Marta Helena Cocco é escritora e professora de Literatura da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat).

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