ARTIGO: Adotada sim, com muito orgulho

Por Alcione dos Anjos*

Para escrever preciso de inspiração. Isso é fato. Tentei escrever sobre um tema que acho bacana, mas sem muito envolvimento, não saiu, tentei outro assunto, nada. Já tinha praticamente desistido, quando assisti ao filme “Um verão para toda vida” (December boys), que conta a história de quatro adolescentes órfãos, todos nascidos em dezembro, que crescem em um convento católico na Austrália nos anos 60. Eles percebem que as crianças menores são adotadas com maior frequência, e, com isso, que após cada aniversário o sonho de ganhar uma família fica mais distante. Durante um verão, são enviados de férias para uma região litorânea e lá conhecem um jovem casal que não consegue ter filhos. Em uma competição para se tornar o melhor candidato à adoção, os meninos testam a amizade com até pequenas traições.

Em seguida, assistindo aleatoriamente à TV, vi o programa Quebra-Cabeças, apresentado por Chris Nicklas em um canal fechado. E o tema que me chamou à atenção? Adoção. Bem esse é um assunto presente em minha vida. O que para muitas pessoas é um assunto tabu, para mim é um orgulho. Sou adotada.

Confesso que nem sempre foi assim, tentava esconder minha história, tinha vergonha, ou sei lá o que, mas com o tempo a maturidade chega, e, com ela, o que era considerado um drama, hoje é apenas mais um episódio. Depois de algum tempo, e algumas lágrimas, resolvi sair do papel de vítima. Não é fácil, mas é possível. Afinal sou uma garota de sorte.

E vou explicar o porquê. No Cadastro Nacional de Adoção há 22.390 pais potenciais. Desse total 78,75% só aceitam crianças entre 0 e 3 anos, 16,67% querem crianças de 4 a 7 anos e 1,58% aceitam crianças de 8 a 11 anos de idade. Uma projeção do cadastro aponta que no Brasil 80 mil crianças e adolescentes vivem em instituições de apoio ou abrigos. Dessas crianças, 6,12% tem 0 a 3 anos, 14,71% de 4 a 7 anos, 27,91% de 8 a 11 e 51,61% mais de 12 anos.

Apesar do grande número de crianças institucionalizadas, somente 3.277 estão aptas a serem adotadas (aquelas que já passaram pelo processo de destituição do poder familiar). Do total, 236 têm até três anos de idade, 504 de 4 a 7 anos, outras 956 estão com idade entre 8 e 11 anos e a grande maioria (1.581) fica na faixa etária de 12 a 17. Os maiores de 17 não entram nas estatísticas do cadastro. Todos esses números só para dizer: quem pensa em adotar geralmente quer um bebê, mas quem está apto já não é tão bebê assim.
Fui adotada aos sete anos, o que é considerada uma adoção tardia. Na época nem sabia a oportunidade que estava tendo, só tinha certeza de que não queria ficar no orfanato. Na nova casa ganhei dois irmãos e uma irmã. Racionalmente foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Nessa casa tive a oportunidade de conviver em família, estudar, me divertir, brigar, chorar tudo que uma criança faz. Mas, no fundo não consegui me livrar de um sentimento: o medo da rejeição, algo que tento trabalhar até hoje.

As discussões que presencio sobre adoção sempre esbarram no dilema de que os adotados podem “dar trabalho”. E eu penso: Puxa vida, se uma criança que não passou por nenhuma separação traumática “dá trabalho”, por que uma fragilizada não daria? Filho não é perfeito, seja ele biológico ou adotado. Quem adota também não é. Somos humanos e o mais importante é aprender a aceitar essas imperfeições, respeitar as diferenças, formar laços de família, construir a relação mãe e filho e/ou pai e filho seja com “filhos da barriga”, seja com “filhos do coração”.

Hoje, casada, converso com o meu marido sobre adotar uma pessoinha, mas antes temos que nos preparar. Somos conscientes de que criança não é um produto disponível na prateleira, na qual podemos escolher sexo, cor de pele e olhos, e se não “der certo” poderemos voltar à loja para devolver o produto defeituoso. Aliás, essa preparação deve ser feita para a chegada de todos os filhos.

*Alcione dos Anjos é jornalista em Cuiabá e diretora secretária do Sindjor-MT

Comentários

Anônimo disse…
Obrigada por nos ensinar com sua experiência. Parabéns pelo artigo, parabéns pela vida!
Alcione, muito bom esse artigo. Importante para a gente refletir. E está lindo também. Parabéns! Beijoss

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