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18 de set de 2011

ARTIGO: Adolescentes infratores têm que morrer?

Por Keka Werneck*

O relatório divulgado pelo Fórum de Direitos Humanos e da Terra Mato Grosso sobre as condições físicas e psicológicas no Pomeri e o homicídio registrado dentro da unidade fez com que a única casa de reeducação para adolescentes infratores de Mato grosso ganhasse a mídia semana passada. 

O relatório aponta o abandono, o descaso e a humilhação imposta pelo Estado a esses jovens, enquanto outros podem usufruir das delícias desse estágio da vida: festas, colégio, namoro, passeios, brindes à vida. 

Em cenário inverso, na madrugada do dia 6 de setembro, um interno, de apenas 15 anos, matou o outro e isso é extremamente agressivo, triste e degradante para a biografia desse moço e da nossa cidade, afinal qual é a cidade que dorme em paz enquanto meninos se esfaqueiam por aí. 

Das matérias publicadas, para além dos fatos, que por si só são bárbaros, o que choca mesmo são os comentários cruéis, definindo o perfil conservador da nossa sociedade. 

Pergunta: adolescentes infratores têm que morrer? 

Para comentar em sites nem todos dão o nome verdadeiro e muitos se escondem em pseudônimos. Tais comentários quase sempre atacam militantes dos Direitos Humanos, como se fossem gente à toa a andar atrás de bandido, e mandam adolescentes infratores para o inferno! 

Jão Coró, o que é possivelmente um desses pseudônimos, comentou no dia 6 de setembro em matéria sobre a morte no Pomeri, no site Olhar Direto, que: “Aí vem os babacas do direitos humanos falar q lá tem CRIANÇAS q estão sendo torturadas. Direitos humanos só pra defender vagabundos, canalhas para defender famílias humilhadas por eles NADA”. 

O outro citou o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), para rechaçar os “doutos membros dos Direitos Humanos”. Para Ezequiel (não deu o sobrenome), que postou comentário no site Olhar Direito, no dia 1 de setembro, “tratar os adolescentes como sendo a vitima é no minimo insensato e nefasto”. Segundo ele, o ministro diz que “direitos humanos é a noção de que todos, sem exceção, têm direito a uma igual consideração”. 

Opa! Há algo de contraditório aí. Se for assim mesmo que o ministro disse, os adolescentes do Pomeri desconhecem direitos, já que muitos foram negados a eles, desde que nasceram. Consideração também é algo fora da realidade da maioria absoluta deles. Uma pesquisa na vida pregressa de cada um e a gente vai se deparar – com certeza! - nas periferias de Cuiabá, em casas empobrecidas. E é fato que esses meninos cresceram sem as mínimas condições de vida ou tendo acesso a serviços precarizados na educação (escola ruim) e saúde, isso sem falar em lazer e cultura. 

Comentando a mesma matéria, Dirceu (também não deu sobrenome) ironiza. “Não me façam rir Direitos Humanos”. E Marcio (nada de sobrenome) pergunta com sarcasmo: "coitadinhos...soltam todos". 

Em outro site, o Midia News, comenta Jamil sem sobrenome e sem dó: “Tem é que levar pau mesmo para não sentir vontade de voltar para la. É menor mas é bandido. Bandido é no cacete mesmo”. E Ojeda Elson, no mesmo Midia News, pergunta: “ta com dó leva para a sua casa e cuida não deixando que a população sofra com a ação desses anjinhos”. 

Esses comentários são importantes porque eles dão o tom da opinião pública. Fica nítido que o sistema de punição reflete exatamente o que a sociedade quer: deixar mofar e se por acaso eles se matarem melhor ainda. 

Outras pessoas comentaram as mesmas notícias, de outro ponto de vista, preocupadas de fato com a reeducação desses jovens. Mas a maioria julga e condena, sem piedade. 

Quando foi que ficamos tão cruéis?

*Keka Werneck é jornalista em Cuiabá

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