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30 de jun de 2011

ENTREVISTA: "Eu sou os professores do Brasil", diz Amanda Gurgel


A professora de Língua Portuguesa Amanda Gurgel tem 29 anos, estatura baixa e um discurso político intenso e envolvente. Ela, que ficou conhecida nacionalmente via internet, esteve ontem (29 de junho), em Cuiabá, para dialogar com 12 atuais movimentos grevistas articulados em Mato Grosso. Amanda usou a tribuna durante uma audiência pública sobre Educação em Natal (RN), onde mora e leciona na rede estadual e municipal. O vídeo da fala dela foi postado no You Tube e correu o Brasil (Veja aqui).

Virou fenômeno de acessos. Para aproveitar o momento, ela, que é formada em Letras pela universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e especialista em Educação de Jovens e Adultos, tem viajado o país denunciando o caos no ensino brasileiro. A palestra da professora Amanda sucedeu um debate importante sobre qualificação docente realizado de manhã no Centro Cultural da UFMT. Ela também participou de uma manifestação em favor do serviço público, à tarde, na praça Ulisses Guimarães, onde estão acampados professores da rede estadual de Mato Grosso, em greve desde o dia 6 de junho, apesar da justiça ter julgado a ilegalidade do movimento que cobra um piso de R$ 1.312. Leia a entrevista.


Por Keka Werneck, da Assessoria de Imprensa do Centro Burnier Fé Justiça


Quem é Amanda Gurgel?
Na verdade eu sou os professores do Brasil e os professores do Brasil sou eu. Eu e eles continuamos falando a mesma coisa, denunciando o mesmo caos no ensino. O Governo do Rio Grande do Norte continua truculento e autoritário, estamos em greve há 60 dias lá.

A fama alterou sua rotina?
Minha rotina mudou somente porque estou levando esse debate por todo o país e tenho visto a truculência em todos os lugares, como aqui, onde a justiça julgou ilegal a greve dos professores e aplicou multa de R$ 50 mil por dia, além do corte de ponto. A gente vê que a justiça não é nada justa. E não age em nosso favor, para implementar a lei do piso, por exemplo.

O que você sente quando ouve um parlamentar dizer que educação é prioridade?
Esse é um discurso repugnante. Se querem fazer algo pela educação, o momento é agora. 10% do PIB já! Nesse ponto, não temos como encontrar meio termo: ou educação é prioridade ou não é.

Por que os professores do Brasil são tão mal remunerados?
Isso faz parte do projeto neo-liberal, que é global, de sucatear o ensino público, para impedir que os filhos da classe trabalhadora tenham uma escola realmente de qualidade, consciente. E isso começa pela precarização do trabalho docente, que é hoje uma atividade tão precarizada quanto qualquer outra.

As greves têm resultado em conquistas para o ensino e para os docentes?
Sim, todas as nossas conquistas financeiras foram através de graves. E sim elas são migalhas. O próprio piso nacional reivindicado é migalha. Queremos lutar pelo salário mínimo do Dieese (R$ 2.092). Mas nosso ganho político, como nossas greves, é histórico e talvez irreversível. Temos mobilizações em vários locais do país, esse sentimento é nacional.

O que tanto atraiu em sua fala a ponto de provocar o fenômeno midiático Amanda Gurgel?
Minha fala reflete um sentimento. As mídias apenas divulgaram isso. Esse sentimento não é só meu. Os professores e a sociedade se sentem angustiados com a situação da educação de modo geral.

Há alguma forma de mudarmos o cenário?
Da parte do governo não. Da nossa parte sim. Temos muitos problemas nas escolas: salas superlotadas, salários baixos, jornadas extenuantes, e os professores não têm tempo nem para refletir sobre isso, são meros reprodutores do status quo, assimilam o discurso de que com boa vontade podem mudar essa situação. Não podem! Assumem um sentimento de maternidade, um vínculo com o aluno e perdem a capacidade de lutar por melhores condições de trabalho, o que será bom para todos, para os docentes e para os alunos.

Você tem aproveitado a fama para socializar esse discurso?
Sim. Meu único objetivo é esse. Tenho feito viagens e ido a todos os programas de televisão que me convidam e em nenhum momento meu objetivo tem sido outro que não seja debater a educação. Estou fazendo, da forma que posso, o contraponto ao governo federal que coloca todo o seu aparato midiático para defender suas propostas, que não interessam à categoria.

Qual o seu lema central?
10% do PIB já!

O que o Plano Nacional da Educação tem de tão ruim?
Vamos dizer não a esse PNE! O ProUni [Programa Universidade para Todos, em que o governo subsidia ensino superior em escolas privadas] por exemplo não passa de um projeto de desvio de dinheiro público para a iniciativa privada. O Pronatec [Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, em que o governo subsidia ensino superior em escolas técnicas privadas] vai na mesma lógica. As metas no papel são lindíssimas. Nós também queremos erradicar a exclusão, mas como vamos fazer isso sem investir? Sem pagar os professores?

O que você achou dessa decisão da Justiça em Mato Grosso que julgou a ilegalidade da greve dos professores?
Estou muito orgulhosa dos meus colegas daqui que resolveram manter a greve apesar dessa ofensiva. Nós não temos a tradição de enfrentar o Poder Judiciário e é importante que as pessoas estejam avançando nessa consciência.

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