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18 de abr de 2011

15ª ENTREVISTA DA SÉRIE: "Jornalistas de Mato Grosso, o que pensam?"

‘Percepção da realidade é que norteia o jornalista’, garante Márcia Raquel
“A maternidade dá outro sentido à vida”. Afirmando isso, a jornalista Márcia Raquel de Oliveira, 34 anos, casada, mãe da Lorena, 1, defende que “é a percepção da realidade que norteia o jornalista”. Ela nasceu em Capitão Leônidas Marques, região Oeste do Paraná, em meio a uma família da classe baixa e numerosa. Isso também a influencia na prática do jornalismo, é o que diz. Chegou em Cuiabá em abril de 1997, depois de passar no vestibular para Comunicação Social da UFMT. “Meu pai já morava aqui”, explica. É pós-graduada em Relações Internacionais e História e Integração Regional. Não gosta de ver palhaçada na imprensa, mas adora circo e cultura popular. Por muitos anos sendo repórter de política, sua principal escola de jornalismo, e sendo hoje assessora de imprensa na mesma área, segundo ela, se o político rouba, a sociedade é que paga o pato.

Por Keka Werneck

A maternidade muda a mulher?
Sem dúvida. A maternidade dá outro sentido para a nossa vida. Tudo muda: nossas razões, nossas prioridades, nossas convicções, nossas emoções, nossas preocupações, até os nossos medos mudam. Penso que a maternidade faz brotar dentro de uma mulher o verdadeiro sentido da vida, de se perceber e de perceber os outros como humanos, com suas fragilidades e com suas forças. Nos ensina o que é o amor incondicional. Nos torna mais emotiva, mas ao mesmo tempo mais forte e com mais disposição (apesar do cansaço) para enfrentar as dificuldades que o dia a dia nos impõe. Mudando a mulher, muda também a jornalista? Com certeza. A pessoa é única. Acredito que é a percepção da realidade do jornalista que norteia o seu trabalho. Se muda o meu modo de perceber a realidade, isso vai refletir também na minha percepção para o jornalismo. Você passa a perceber fatos que antes passavam despercebidos, a valorizar fatos que antes não valorizava e vice-versa. Você vem de uma classe baixa (média?), sulista. O que isso interfere nas suas pautas? Sim, vim de uma classe baixa sulista e de uma família numerosa (tenho sete irmãs e um irmão). A minha origem, a minha educação, a minha convivência familiar e as dificuldades pelas quais passei, sempre nortearam a minha vida. Aprendi a fazer jornalismo na faculdade partindo da base que recebi. Então é contraditório para mim um jornalismo que não leve em consideração os reflexos que uma decisão política, por exemplo, terá na periferia da cidade. É contraditório um jornalismo em que a população pobre não consiga se enxergar além das desgraças que dominam os noticiários policiais. Acredito que o jornalismo só tem sentido quando serve para o desenvolvimento de uma sociedade justa, igualitária e com responsabilidade social. Há honestidade no jornalismo? De que forma o jornalista pode ser honesto com o leitor, estando em qual posição estiver? Se eu acreditasse que não há honestidade no jornalismo eu já teria desistido da profissão. Ainda não desisti. Tenho a honestidade como um princípio da profissão, pois defendo uma imprensa livre, verdadeira e responsável. Partindo do princípio de que ao escolher o lead de uma matéria você já se posiciona a respeito do foco que dará à notícia, não acredito na propagada imparcialidade jornalística. Mas acredito que ao oferecer ao leitor todas as versões ou lados (que nunca são só dois) o jornalista consegue trabalhar com honestidade. Mas, além disso, defendo uma imprensa honesta, que mostre a sua cara e para quem trabalha. Não vejo problemas em termos veículos de comunicação que defendam posicionamentos políticos sejam de direita, de esquerda ou de centro. Mas a linha editorial é que deve ficar claro para os leitores. Há problemas éticos no jornalismo? Se há, poderia apontar algum? Há problemas éticos no mundo. Aliás, o mundo todo deveria passar por uma reforma ética. Por que o jornalismo ficaria acima dos mortais? Mas no caso específico, considerando Código de Ética dos Jornalistas aprovado em Congresso e defendido Federação Nacional de Jornalismo (Fenaj), cito apenas um exemplo: “Aceitar ou oferecer trabalho remunerado em desacordo com o piso salarial, a carga horária legal ou tabela fixada por sua entidade de classe, nem contribuir ativa ou passivamente para a precarização das condições de trabalho”, isso é o que há de mais comum em nosso Estado, infelizmente (Art. 7º, I). Ou seja, os problemas éticos são muitos e se agravam a cada dia pelo fato de não existir uma punição rigorosa para quem viola o código. O máximo que pode ocorrer, além de ter uma denúncia protocolada no Ministério Público, é ser impedido definitivamente de se filiar ao Sindicato e a Fenaj. Esse é um dos pontos que merecem a atenção na discussão a respeito da criação de um Conselho Nacional de Jornalismo. Quem tem a vida exposta de forma irresponsável em uma rede de TV ou em um grande jornal, por exemplo, dificilmente conseguirá desfazer os estragos que isso provoca, não só na sua vida, mas de toda a sua família. Então, para mim ética tem a ver com responsabilidade. Ao ler uma matéria, você já chegou a pensar: "Ahh, isso é uma palhaçada!" ? Quando? Cita um caso. Já. Várias vezes. A forma como foi exposta a “notícia” sobre a intenção de se discutir um Conselho Estadual de Jornalismo em Mato Grosso merece inclusive um estudo de caso, tamanha a desinformação provocada. Você gosta de circo? Se sim, de quais números? Gosto muito. Só não gosto de números com animais e com motos (gaiolas). Aliás, sou totalmente contra a utilização de animais em circo. Você dá valor à cultura artística popular? Muito. A expressão de uma gente se faz através da cultura popular. Se você quer conhecer uma cidade ou um povo, procure conhecer a cultura popular. Com que idade devemos começar a falar sobre sexo? Por que? Quais pautas sobre esse assunto poderiam ser pensadas? O sexo deve deixar de ser tabu. Não creio que temos muito como definir uma idade específica para falar sobre isso. Na era da informação as crianças tem acesso a esse assunto muito cedo, então devemos trabalhar isso tão logo formos questionados pelos nossos filhos. Você é a favor da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo? Sim. Mas não como uma reserva de mercado. Defendo a obrigatoriedade do diploma específico por entender que uma educação de qualidade, que tenha como foco a responsabilidade social e ética que a profissão exige, pode fazer a diferença na disponibilização da informação e na construção de uma sociedade mais justa. Não basta saber escrever para ser jornalista. E para emitir uma opinião não é preciso ser jornalista. Ou seja, exigência de diploma específico não tem nada a ver com liberdade de expressão. Tem a ver com responsabilidade no fazer jornalismo. Quais as profissões fundamentais para a sociedade? Toda e qualquer profissão tem sua importância, depende das suas necessidades específicas. Então todas devem ser tratadas com igual respeito. Se estou doente, um médico é fundamental para mim no momento. Mas se vou construir minha casa, um pedreiro passa a ser fundamental também. Temos que fechar os vidros do carro, quando alguém se aproxima? Não deveríamos ter de fechar. Mas em muitas situações o temor faz com que fechemos. E nessa hora, perdemos a capacidade de distinguir quem é bandido e quem está precisando de ajuda. Infelizmente. Complete a frase: Se um político rouba... A sociedade (que o colocou lá e o manteve) paga o “pato”.

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