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13 de out de 2010

A que ponto chegamos!


Por Janã Pinheiro

Passei o primeiro turno das eleições para presidente da República recebendo e-mails ridículos a respeito dos candidatos (principalmente a candidata do PT), ouvi comentários sem o menor cabimento, escutei dezenas de pessoas falando um monte de asneiras, e fiquei quieta, exercendo o meu sagrado direito de não me manifestar, apesar de ter minhas convicções, afinal de contas não bater-boca não significa ser alienado.
Mas chega uma hora que não dá. Para mim a gota d´água aconteceu hoje de manhã (domingo, 10/10/2010), quando ainda deitada meu filho de 5 anos soltou a seguinte frase, para mim e meu marido: “vocês sabiam que se uma mulher estiver grávida e não quiser o bebê a Dilma bate na barriga dela até matar o bebê”. Hã?
Eu e meu marido nos olhamos atônitos para ter a certeza de que estávamos escutando aquilo. Por alguns segundos ficamos mudos, perplexos, sem acreditar que aquele comentário era real. Tentando articular as idéias consegui perguntar a ele de onde havia tirado aquela informação. Ele respondeu: “Foi minha amiga da escola (fulana de tal)”.
A resposta caiu como uma bomba na minha cabeça. Meu Deus – pensei - até onde a maldade humana é capaz de chegar? Se tem uma criança falando isso para outra criança é porque no meio tem um adulto (leia-se os pais) ensinando isso para os filhos. A que ponto chegamos! Não importa se você vota em A, B, C, D ou qualquer outra coisa, mas não podemos deixar uma discussão como essa chegar a esse nível. Não podemos usar nossas crianças, o que é pior, nossos filhos para disseminar esse tipo de insensatez.
É muita baixaria, muita mentira, distorção de informação e de valores. Se o Brasil é considerado inúmeras vezes um país atrasado é porque é formado por uma grande “massa” de pessoas que não tem opinião própria, apenas reproduzem o que escutam, sem raciocinar, sem analisar, sem ver os prós e contras.
O Brasil vai continuar um país atrasado intelectualmente enquanto assuntos polêmicos como o aborto for discutido assim, de maneira oportunista, sem a menor responsabilidade. Resolveram colocar o tema em voga, ou melhor, colocar lenha na fogueira, para ganhar ou tirar votos de pessoas mal informadas, que não sabem nem sequer o que estão falando. Só tem duas opções: ou você é contra o aborto, e é visto como um “defensor” da vida, quase um “santo” ou é a favor, e é taxado como um monstro, um assassino, um matador de criancinhas. Quanto simplismo!
O aborto no Brasil vai muito além de uma questão ética e moral, é um assunto grave e que merecia e deveria ser tratado com seriedade, não desta forma superficial e eleitoreira. É por isso que as coisas não evoluem nesse país. Quero ver qual candidato que passado o período eleitoral vai ter um pingo de sensatez (e vergonha na cara) e colocar o assunto em pauta novamente para ser de fato debatido pela sociedade, de forma séria e responsável, muito além dos falsos discursos religiosos. O tema mais uma vez será depositado na gaveta para ser retirado e usado novamente por um monte de oportunistas de plantão, que só pensam de fato em ficar no poder e que não estão nem um pouco preocupados com as milhares de mulheres que morrem nesse país vítimas de aborto clandestino.
Eu sou mãe, apaixonaaaaaaaada pelo filho que tenho - acho que ter um filho é a plenitude do ser humano - e jamais faria um aborto, mas também não sou tapada o suficiente para achar que um tema dessa natureza deva ser tratado assim, de uma maneira tão mesquinha.
Não importa se as pessoas são contra ou a favor do aborto, o fato é que no Brasil ele existe. Dados da Biblioteca Virtual do Ministério da Saúde mostram um estudo feito pela UNB e UFRJ denominado “20 Anos de Pesquisa sobre o Aborto no Brasil (2008). O estudo aponta que apenas em 2005 aconteceram no Brasil 1.054.242 abortos induzidos. Isso é mentira? Não, é realidade. Enquanto os hipócritas fazem discursos vazios e acalorados contra o aborto, milhares de mulheres na calada da noite matam bebês em clínicas clandestinas de fundo de quintal e nas “chiques” também, sim, porque aborto não é coisa só de pobre não, ele é uma realidade em todas as camadas sociais, em todas as religiões, porque tem milhões de pessoas que prega uma coisa e faz outra. Na clandestinidade todos se igualam, todos se nivelam por baixo, todos cometem crime, apesar de fazerem cara de “santos”.
O que tanto o PT de Dilma Rousseff, quanto o PSDB de José Serra defendem – sim porque ambos já defenderam essa tese – é a descriminalização do aborto, ou seja, que as mulheres que por alguma razão tomaram essa decisão não sejam discriminadas, condenadas, punidas, apedrejadas, queimadas na fogueira da inquisição, mas sim recebam amparo médico e psicológico para que não morram ou enlouqueçam, punidas pelo peso da consciência. Dilma em 1997 fez uma declaração a favor da descriminalização do aborto e o PSDB também, o que nada tem a ver com a legalização, que é deixar de ser crime. O problema é que a maioria das pessoas não sabe a diferença entre uma coisa e outra, apenas repete o que escuta, como um bichinho adestrado que não raciocina, apenas segue os comandos do dono, do adestrador.
Resolvi quebrar meu sagrado direito de ficar quieta porque cansei de tanta mentira, hipocrisia, falsidade e acima de tudo, falta de respeito. Nesse país existe gente que pensa, raciocina que não é burra, não faz parte da massa de manobra, não é “Maria-vai-com-as-outras”, tem o mínimo de informação e sabe diferenciar o joio do trigo.
Vote em quem você quiser, mas não abra mão de ser uma pessoa esclarecida e acima de tudo, pense bem que tipo de formação você deseja passar para seu ou seus filhos. Eles são o resultado do mundo que teremos no amanhã. Bom segundo turno a todos.

Janã Pinheiro é mãe (acima de tudo), brasileira, trabalhadora e jornalista (nos momentos em que não estou fazendo a melhor coisa do mundo: ficar com meu filho, que ainda, felizmente, não entende toda essa podridão!)

Um comentário:

Thaís Bastos Guirra disse...

É simplesmente lamentável. Parabéns Janã, suas palavras são plausiveis.