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29 de out de 2010

Simplificação


Artigo

Por *Kleber Lima

O ser humano tem o terrível hábito de simplificar as coisas. Normalmente de forma maniqueísta, onde o que aprovo é o “bem” e o que reprovo é o “mal”. Primeiro, porque é mais fácil entender, não exige um pensar mais complexo. Segundo, porque é mais fácil ocultar certos interesses. Mas, na verdade, o que faz o homem evoluir é a complexização, a abstração, a problematização. Coisa chata de compreender, imagina de falar, quanto mais escrever.
Tem a ver com o processo de construção do conhecimento. Parte-se de uma HIPÓTESE (a dúvida, o ponto de partida), cria-se TESE (a resposta racionalizada, o fato conferível e testável), confronta-a com a ANTÍTESE (a negação da tese, contratitando-a, testando sua validade) para finalmente chegar-se à SÍNTESE (a verdade assimilável e compreensível).
Isso gera outro processo de formação do consenso social, onde a síntese se realiza: parte-se do senso comum para construir o consenso que, por sua vez, gera o bom senso. O processo também é afetado pelo dissenso.
Antonio Gramsci diferencia senso comum de bom senso. Para ele, senso comum seria algo como a adesão acrítica e passiva a verdade postas, enquanto o bom senso pressupõe um pensar mais conseqüente, livre, ativo.
Tive que usar esse enorme ‘nariz de cera’ para abordar um assunto que caiu como bomba ontem em Mato Grosso, quando na verdade é um traque: o pré-projeto de lei elaborado pelo deputado Mauro Savi, presidente da Assembléia Legislativa, sobre a instituição do Conselho Estadual de Comunicação no Estado.
O anteprojeto (ou pré-projeto) não foi apresentado à Assembléia Legislativa. Lá, somente projetos podem ser apresentados e tramitar. O esboço foi encaminhado ao Sindicato dos Jornalistas para debate com a categoria e com a sociedade. Esses são os fatos. E positivos, pelo que entendo, porque jogarão luz sobre tema de alto interesse social.
Curiosamente, no entanto, as manchetes de ontem são de que o deputado quer censurar a imprensa ao ‘apresentar o projeto’. Vários jornalistas, empresários de comunicação, advogados, curiosos, palpiteiros, leitores anônimos de sites e jornais, deputados e até o governador empreenderam-se num grande debate ‘contra’ e ‘a favor’ do Conselho Estadual de Comunicação. Mas, ressalte-se: não existe o projeto, nada foi apresentado na Assembléia Legislativa.
“Ah, mas o Ceará aprovou um projeto desses, e agora a militância sindical corporativa mudou de tática e quer mudar a lei federal a partir de leis estaduais, já que o conselho federal de jornalismo não passou no Congresso”, dizem os novos defensores da liberdade de imprensa. Que puxa! Qual sindicato não é corporativo?!?
Esse é um dos exemplos mais retumbantes da simplificação. Primeiro, os que julgam os conselhos como sinônimos de censura à imprensa o fazem ignorando o debate real e necessário para o tema do controle social da imprensa, da ética jornalística, da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista, por preguiça de pensar; ou, de outra forma, escondendo interesses econômicos e políticos inconfessáveis. Segundo, inventam uma conspiração quando, na verdade, tudo o que há é uma oportunidade de se fazer no âmbito do Estado um debate inevitável ao país e à própria democracia - mãe da
Temas complexos como liberdade de imprensa em oposição aos conselhos de comunicação ou a aplicabilidade da lei da ficha limpa em oposição ao princípio constitucional à presunção da inocência não podem ser tratados pela simplificação do senso comum. No mínimo exigem um esforço e o bom senso, ou, quando nada, devem ser racionalizados, complexizados, abstraídos, por tratar-se de assuntos relevantes demais, complexos demais, para nos portarmos apenas como chefes de torcida do ‘contra’ ou do ‘a favor’. Primeiro, precisamos entender do que, de fato, se trata.
Sobretudo, não é honesto tomar iniciativas que buscam apenas produzir o debate, como ocorre agora no caso de Mauro Savi - e como ocorreu na campanha deste ano no Estado em relação a Carlos Abicalil na sua assinatura num expediente pela discussão do tema do aborto -, como se fossem posições tomadas concreta e objetivamente. Essa própria distorção dos fatos por setores da imprensa já nos força a admitir: temos problemas e precisamos aperfeiçoar nossa democracia e, por conseqüência, nossa liberdade de imprensa, e isso não tem nada a ver com censura, arbitrariedade ou autoritarismo.

* Kleber Lima é jornalista e consultor de marketing em Mato Grosso. e-mail: kleberlima@terra.com.br.

Fonte: jornal Diário de Cuiabá

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