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29 de ago de 2010

O triste fim de um centenário


Por Por Ricardo Morato


A migração do JB para a internet reacende a discussão sobre o atual modelo de negócios do impresso

A decisão, anunciada recentemente por Nelson Tanure, proprietário do JB, é mais um lamentável capítulo que entra para a história do jornalismo impresso. A partir de 10 de setembro, quem quiser continuar lendo o Jornal do Brasil terá de se contentar apenas com sua versão digital. Há quem diga que Tanure é um "exterminador de jornais", tal é o seu talento de dar fim aos veículos que administra, como a Gazeta Mercantil, que fechou com um rombo de R$ 200 milhões em processos trabalhistas.

Fundado em 1891, o JB é um dos mais antigos do país. Primeiro a revolucionar a forma de fazer e de ler jornal. O projeto gráfico assinado pelo vanguardista Amílcar de Castro tirou das colunas os fios que aprisionavam a leitura, deixavam o visual pesado, duro. O jornal inspirou uma galeria de importantes jornalistas, fotógrafos, diagramadores. Trabalhar no JB era sinônimo de orgulho e de um grande aprendizado.

Os graves problemas administrativos e financeiros, com dívidas estimadas em R$ 100 milhões, somados à queda na venda de exemplares, levaram o JB à ruína. Os erros foram muitos, mas há consenso de que, tanto a gestão anterior de Nascimento Brito, quanto a de Nelson Tanure, levaram o JB à morte. "O JB entrou em coma ainda com Nascimento Brito, na direção administrativa como representante de sua mulher, Leda, proprietária da empresa e co-responsável pela decadência do jornal", remonta Jânio de Freitas, ex-redator, diagramador e editor-geral do Jornal do Brasil, atualmente colunista da Folha de S.Paulo.

Freitas relata, ainda, que, nos anos 90, durante o governo Collor, foi armado um negócio pelas mãos de Paulo Cezar Faria que pretendia ser a salvação da empresa (era a entrega da exploração e impressão dos catálogos telefônicos, para a qual foi comprada a gráfica AGGS, que detivera essa concessão por muito tempo). A notícia de uma articulação em torno dos catálogos, publicada na Folha, travou e, por fim, a queda de Collor e PC Farias sepultou o negócio em definitivo. Com Nelson Tanure, o jornal entrou logo em coma profundo", sentencia.

Ricardo Noblat, colunista do jornal O Globo e ex-chefe da sucursal do JB em Brasília, afirma que o fim do periódico era totalmente previsível. "Nenhum jornal morre de uma hora para outra. Infelizmente não foi nenhuma surpresa, a situação era muito difícil e mais do que cantada".

"Acho que o melhor epitáfio para o JB é: 'Deixou a vida para entrar na História', como Getúlio Vargas. Sim, porque o JB não morreu de morte natural, mas de suicídio - lento e aguardado, melancólico, deixando órfãs várias gerações", resume Zuenir Ventura, colunista do jornal O Globo e ex-editor do Jornal do Brasil.

Péssima gestão
Para Augusto Nunes, colunista da revista Veja e ex-chefe da sucursal do JB, em São Paulo, a arrogância e os gastos excessivos ajudaram a levar o Jornal do Brasil à derrocada. "Quando você não admite que foi ultrapassado pela concorrência, essa é a morte. O JB tratava O Globo como bastardo e, quando percebeu que estava em segundo lugar, dançou", avalia. O famoso episódio da mudança da sede do Jornal do Brasil para o prédio da Avenida Brasil, na capital fluminense, não foi um caso isolado de má administração dos recursos. "Em 1986, assumi a sucursal de São Paulo. Os problemas financeiros já eram conhecidos. Entretanto, não admitiam que não havia dinheiro para renovar o aluguel de meio andar na avenida Paulista. Qual foi a solução? Alugar um andar inteiro, claro, na avenida Paulista", ilustra Augusto Nunes.

"O Nelson Tanure é um necrófilo. Pega jornais moribundos, porque são baratos, e vai lutando contra uma situação agonizante. Ele não gosta de jornalismo", dispara Alberto Dines, editor e apresentador do programa Observatório da Imprensa e ex-editor-chefe do Jornal do Brasil.

O fim de fato do JB apenas consumou o que de direito já ocorrera, bem antes de Nelson Tanure adquirir o glorioso diário. Trabalhei naquela casa em duas ocasiões, inicialmente em 1987/88, depois em 2001/2004. A sentença de morte estava selada naquela primeira temporada. A família Brito foi a grande responsável por parte da glória e por toda a tragédia, sem dúvida. Tanure foi incapaz de reverter o processo agônico, mas jogou ali uma quantidade de dinheiro quase irracional para manter o JB ativo. Também cometeu muitos erros, mas o paciente não tinha mais cura quando o abraçou, na virada do milênio. Uma pena para todos nós, brasileiros, e especialmente para os jornalistas de minha geração e da geração que nos antecedeu. Foi o maior jornal que este país já teve!", lamenta o jornalista Ricardo Boechat, Isenção e cobertura diferenciada "O Jornal do Brasil sempre foi o jornal dos meus sonhos. Quando eu trabalhava como jornalista em Minas, o JB era a Meca para todo jornalista que queria uma renovação. Tantos profissionais importantes passaram por aquela redação, que não dá nem para lembrar de todos sem fazer alguma injustiça. Todos eles me impressionaram muito e foram importantes para a minha carreira. Eles já eram meus ídolos quando cheguei do interior para começar a trabalhar lá", conta Fernando Gabeira, deputado federal pelo Rio de Janeiro e ex-redator do JB. As boas lembranças do Jornal do Brasil são compartilhadas por Ricardo Noblat. "Meu primeiro emprego foi no JB, em 1967, na sucursal de Recife", revela.

Nos anos de chumbo, os célebres jornalistas do JB sofreram duros golpes e ameaças. A maioria não se esquivou, muito pelo contrário: resistiu bravamente e continuou produzindo um conteúdo isento e de excelente qualidade jornalística. As grandes reportagens e a cobertura diferenciada tornaram o Jornal do Brasil, naquela época, uma bandeira institucional. A postura combativa rendeu ao jornal um imenso respeito e admiração de toda a massa crítica contrária à barbárie militar.

"O JB sofreu muito com a ditadura militar. A redação chegou a ser invadida por uma tropa de choque da Marinha. Foi possível resistir pelo espírito de dignidade que presidia a redação e, de um modo geral, a empresa toda", explica Marcos de Castro, ex-redator do JB e Prêmio Esso de Reportagem Esportiva, em 1962, com a série "Futebol, do Sonho à Realidade".
Mauro Santayana, colunista político do jornal, reforça que nenhum outro jornal brasileiro teve tanta importância na vida política do país, nos seus primeiros tempos e nos últimos 60 anos. "Ele é a prova viva de que os jornais se fazem com talento e consciência ética".

A polêmica da plataforma
No momento, prevalece o debate sobre a migração de plataforma. De um lado, há quem aponte que essa estratégia é suicida e que não é possível um veículo sobreviver abandonando seu habitat original. "O JB não vai sobreviver na web. O Tanure quer apenas manter o título, que vale ouro, para a empresa não falir. Um empresário de talento conseguiria fazer uma boa versão on-line, o que não é o caso dele", sentencia Alberto Dines.

A ala mais otimista aposta que é perfeitamente viável sobreviver no ambiente digital apenas, já que os custos da operação são relativamente menores. "Os jornais impressos tendem a dar lugar aos jornais online. A internet é um canal de distribuição muito mais barato, rápido, eficiente e ecologicamente correto do que o impresso. Mas esse será um longo processo", observa o jornalista Lourival Sant'Anna, repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo e autor do livro O Destino do Jornal (Editora Record, 2008). "Para a atual geração de leitores de jornal, a tela é ofuscante e incômoda. Para a próxima, o papel é opaco e desestimulante. Ela está neurologicamente ajustada para o brilho e o estímulo de computadores, celulares, tablets e do que mais surgir. Concomitantemente, o modelo de negócios precisa evoluir, seja para o pagamento de assinaturas na internet seja para a verba de publicidade on-line. As duas coisas vão acontecer. É questão de tempo", projeta.

Sant'Anna reforça que o papel do jornal deve ser muito bem definido, de modo a valorizar suas qualidades sejam valorizadas como únicas. "O jornal deve aprimorar os atributos que os diferenciam dos outros meios: narrativa, análise, interpretação e contextualização. Nenhum outro meio conta uma história tão bem quanto o jornal. Nenhum outro meio é capaz de explicar causas e consequências tão bem. O jornal deve investir nisso, para garantir seu espaço no mercado. E sobreviver à transição do impresso para o on-line."

Ele afirma, ainda, que os editores devem diminuir a ênfase na notícia. O leitor já sabe o que aconteceu ontem. Ele viu na internet, recebeu no celular, ouviu no rádio e assistiu na TV. "O que os editores devem oferecer ao leitor são as causas e as consequências do fato, para ele, sua cidade, o país e o mundo. Também devem contar a história completa, com princípio, meio e fim, com qualidade literária, que proporcione o prazer da leitura. Para isso, é preciso mudar a rotina na redação e preparar um novo tipo de jornalista, capaz de ir além do simples fato e da transcrição de declarações. Não se trata de o jornalista dar a sua opinião. Mas de ele ser capaz de ouvir boas análises de especialistas e fontes e sintetizá-las num texto que dê sentido aos fatos. Não é nada novo. É jornalismo de qualidade".

"Não posso prever se o futuro dos jornais está na internet. Quando surgiu o rádio, muitos acreditaram que os jornais impressos morreriam. O rádio teve seu grande momento, mas os jornais impressos reagiram. Com o advento da televisão, houve o mesmo pessimismo, e os jornais recuperaram sua força. Sou daqueles que guardam o otimismo: nada supera o papel como veículo de notícias e de opinião", diz Mauro Santayana, colunista do JB.

Para Augusto Nunes, os jornais no mundo inteiro estudam uma conexão com a internet. "Devemos acreditar na convergência de mídias. A publicidade ainda não migrou para a web". Noblat é categórico quanto a migração para a internet que, para ele, é inevitável. "Um conteúdo de qualidade resiste em qualquer plataforma. O que precisa ser preservado é o jornalismo de qualidade, que independe de onde a notícia é veiculada".

A publicitária Marilena Geada Constantino, diretora de Mídia do Grupo 3+, do Rio de Janeiro, acredita que o maior desafio é achar um modelo de negócio na internet. "Na minha visão, ainda está longe de ser encontrado. A internet é um organismo vivo e mutante. A participação das pessoas é cada vez maior, e as redes sociais são uma ruptura no modelo que o meio se desenvolveu até agora". Para ela, a maior dificuldade que a web encontra é a mutação acelerada. "Todos os meios sofrem mudanças e vão se adaptando. Mas nunca vivenciamos uma tão radical do comportamento humano. A entrada das possibilidades tecnológicas interferindo no cotidiano das pessoas mudou o "status quo". É muito difícil responder sobre o modelo de negócio em um mercado ainda em transformação, principalmente com o crescimento da área de mobile, que está trazendo uma nova onda de mudanças comportamentais em relação ao acesso na web".

Futuro nebuloso
"Meus companheiros de redação estão dispostos a trabalhar com o mesmo empenho, a cumprir seus deveres profissionais, e aguardam os fatos. Espero que não haja demissões. Muitos deles dependem exclusivamente de seu trabalho para sobreviver. É neles que penso e é em nome deles que eu espero melhor futuro para o Jornal do Brasil", aposta Mauro Santayana.

Alguns bravos integrantes do jornal contaram reservadamente que é comum ver um colega deixar a casa, já que não há qualquer perspectiva de melhora. Todas as informações que recebem sobre a transição chegam pela internet ou páginas dos concorrentes, gerando uma insatisfação ainda maior nos corredores do jornal. A grave crise financeira que o periódico atravessa aumenta ainda mais os rumores e as suspeitas de que a edição on-line representará os últimos suspiros do JB.

Para Alberto Dines, a direção do jornal deveria ter informado com antecedência uma decisão tão importante como esta. "Ao invés de publicar um documento, veiculou um anúncio informando como será o JB on-line. Não deu uma satisfação aos funcionários. É um tipo de empresário que envergonha".

"Estamos brigando para que o fechamento não se dê. Estamos preocupados com a morte de 60 empregos de jornalistas no mercado carioca, com o cumprimento dos pagamentos de ações trabalhistas que estão correndo na justiça e o pagamento das indenizações, caso haja demissões", diz Susana Blass, do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro.

O apoio de colegas e leitores cresce, mas pode não ser suficiente para manter acesas as luzes, o cheiro de tinta e o burburinho nas editorias. A direção do jornal não tinha procurado, até a conclusão dessa reportagem, os cerca de 180 funcionários para esclarecer os motivos dessa decisão, como o processo seria conduzido e nem o percentual da equipe que seria mantida na edição on-line. Ao que parece, o compromisso diário para fazer a informação chegar ao leitor foi respeitado, pelo menos até agora. Resta saber apenas se os arautos das notícias serão tratados com dignidade e respeito e, quem sabe, até receber a informação em tempo real.


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Vida longa aos impressos!

Na contramão do moribundo JB, os jornais brasileiros gozam de excelente saúde. O Instituto Verificador de Circulação (IVC) anunciou os números: alta semestral de 2% na circulação dos diários, ou seja, uma média de 4.255.893 exemplares/dia. A previsão do IVC é que o crescimento das vendas atinja 5% até o final do ano. Otimismo igualmente compartilhado pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), que também prevê o aumento da circulação nos próximos meses, até o final do ano.

Fonte: Portal da Comunicação

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