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13 de jul de 2010

12ª entrevista da série: 'Jornalistas de Mato Grosso: o que pensam?'

'Moralismo imbecil tomou conta da sociedade', critica Segura

Foto: Dafne Spolti (Estudante da UFMT)
Ailton José Segura, 60 anos, fuma que nem uma chaminé. Problema dele, é o que diz. "Veja bem, eu defendo o meu direito de fumar. Eu quero fumar, fumo e ninguém tem nada a ver com isto, nem meu médico. Agora quem quiser ceder ao moralismo imbecil que tomou conta da sociedade nos últimos tempos, que demonizou o ato de fumar, fique com o problema para ele".


Isso faz lembrar a letra de Zeca Pagodinho...'Se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber eu bebo...'

Segura deu uma entrevista longa, abaixo. E obviamente que não falou somente sobre o direito de fumar, embora tenha, ainda nesse campo, defendido a descriminalização da maconha e outras drogas.

Falou muito mais de jornalismo e suas concepções sobre esta prática controversa. Uma aula, diga-se de passagem. Gostem, não gostem.

No currículo, já esteve nas duas posições. De jornalista de redação, o simulacro do Clark Kent, que sabe tudo, um super herói; e jornalista professor, que, para os jovens irreverentes, não sabe nada.

Tudo está valendo.

De Sorocaba (SP) para Cuiabá, veio montar a mini-sucursal da Folha de S. Paulo.

Formado em jornalismo na Casper Líbero, com mestrado em Ciências da Comunicação pela USP, não acha que diploma faça o jornalista, embora lecione para o curso na UFMT.

Sobre os títulos que acumula, cita, com ironia, o Título de Eleitor e o de persona non grata à magistratura paulista, além do título de cidadão matogrossense.

Casado. Pai de dois filhos.

Leia a entrevista. Se quiser. Se não quiser, leia um livro ou não leia nada. 'Faz o que tu queres pois é tudo da lei, da lei...'(Rauzito)

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Por Keka Werneck

Dar aula cansa? Cansa mais que redação?
Como jornalista eu trabalhava de segunda a segunda de corpo presente e não tinha o direito e o tempo para ficar cansado, gripado ou indisposto. Como professor já posso ficar doente. O que muda, talvez, seja que você tem um contato imediato com os alunos e tem que ouvir mais. Além do que, quando você entrevistava alguém como jornalista era uma pessoa que provavelmente você nunca mais o iria ver na vida. A sociedade, a meu ver, tem um conceito de que o jornalista sabe tudo (não é a toa que o Clark Kent se disfarça e jornalista). Já tive caso de ter que dar conselho sobre cultivo de rosas, benzeção e até escalar time de basquete na seleção brasileira. Já o professor perante o aluno tem um conceito diferente. Na saudável rebeldia da juventude dos seus alunos ele nunca sabe de nada. O jornalista entrevista uma pessoa, faz a matéria e ela e ele vão se apagando na memória do entrevistado...No magistério é diferente o aluno é para sempre. Não sei se temos o direito de cansar. Tanto como jornalista quanto como professor chega uma época em que voce fica esgotado. Quando eu editava a Folha do Estado, por exemplo, eu vivia visitando o Theo, um amigo médico, que cuidava do meu stress. Já como professor quatro meses depois você vê sua turma ir para frente e começa tudo de novo, é um trabalho de Sisifo (o enganador dos deuses que foi condenado a levar uma pedra até o cume de uma montanha e sempre que lá chegava a pedra descia para o ponto zero e ele tinha que carregá-la novamente).


Você entende que o professor de jornalismo pode ensinar o que em sala de aula?
Jornalismo. Pode repassar uma mística do que seja o jornalismo, ajudar o aluno a pensar como jornalista (jornalista pensa diferente). Veja bem, agora falando mais sério, ninguém ensina nada para ninguém. As pessoas é que aprendem. Continuo um contador de histórias. Voce pesquisa, acha modelos, técnicas, repassa... Daí o outro desenvolve aquilo, ajusta, modifica, cria e encontra o próprio caminho. O professor tem a possibilidade de se informar mais específicamente sobre a profissão e ficar dando o alerta, na verdade, servir de referência.. Quando você vê que no jornal El País o maior direito do jornalista é o de pedir a recisão do contrato de trabalho (e isto como conquista), você tem a obrigação de comparar aquela realidade com a de outros locais, onde trabalhadores justificam uma besteira que fizeram dizendo que se não se submetessem perderiam o emprego. Então você interpreta a coisa como valorização profissional. Voce não é obrigado a conviver com ações que vão contra a sua consciência. É preferível perder o emprego.
Por um outro lado, desde que eu era um repórter no Jornal Cruzeiro do Sul (há 40 anos) quando só tinha o segundo grau, convivo com uma idéia generalizada de que jornalismo não se aprende na escola. Hoje até compreendo melhor isto ao ver que as universidades no Brasil todo estão cheias de bárbaros (no bom sentido) trabalhando com jornalismo. Teóricos que nunca pisaram numa redação e que repassam as técnicas do jornalismo colhida em livros que adotam os “conhecimentos” do tempo em que se usava o telégrafo como principal meio de comunicação. Por barbarismo desfocam o estudo do jornalismo encaminhando-os aos projetos de militância social (e há mérito nisto). Só que isto ocorre justamente no momento em que principais jornais brasileiros estão às voltas com a busca de um caminho, nesta neo-renascença (determinada pelas mudanças tecnológicas que fizeram emergir nova epistemologia no início do século XX com Bertalanffy, Wiener e Prigogni – Teoria de Sistemas, Cibernética e Teoria do Caos.). Alguns românticos ainda admiram o o new journalismo como se fosse uma utopia a ser alcançada. Quer coisa mais velha do que isto? Eu “coleciono” reportagens que são atuais e foram escritas há muito tempo em 1855 ("Tributo à Moderna Babilônia", de Willian Stead – a propósito, ele foi o Assessor de Imprensa do Titanic, deus o tenha, e que no meu entendimento inaugurou o jornalismo proativo). Em 1935 ("Musashi", de Eije Yoshikawa, publicado em capítulos diários no jornal Asahi Shimbun, entre 1935 e 1939) e depois as maravilhas do Tom Wolf (Radical Chic), Gay Talese, etc. Isto para não falar de Garcia Marques, Hemingway, repórteres engajados na vida que não descuidaram da militância social no exercício do jornalismo. E que tal Charles Dickens (setorista do Parlamento Inglês) e do John Hersey, com "Hiroshima", uma reportagem que foi ameaçada de não ser publicada porque era muito longa e acabou considerada a reportagem do século. Então há muito ainda que se aprender em jornalismo, e se não for muito ranço, acho que podemos começar (e em sala de aula eu começo) com a palestra do finado Tomaz Elói Martinez (São Tomaz Elói, rs...rs..rs.), em 1998, na qual ele fala sobre o jornalismo deste século.


(...)as universidades no Brasil todo estão cheias de bárbaros (no bom
sentido) trabalhando com jornalismo. Teóricos que nunca pisaram numa redação.
O que o jornalista deve pensar sobre suas fontes? Você já viu o filme O Informante? Não é tão fácil ser fonte assim, é?
Eu briguei muito numa certa época que exigiam que voce tivesse fontes fixas. Acho que não é o caso. Se voce partir para a apuração de um fato, voce vai ter as fontes, ainda mais agora que quase tudo está na rede. Já vi o maravilhoso filme "O Informante" e gostaria de destacar o fim do filme, quando o produtor (vê os caras, acho que do FBI e cobra do chefe deles a história da prisão do Unabomber (?) que vai ser o outro caso). Foi uma troca e não um favor da fonte.Uma troca que comumente fazemos entre o que é relevante e o que não é relevante. Prefiro acreditar que no nosso trabalho nós estabelecemos relacionamentos e administramos estes relacionamentos independentes de serem ou não fonte. É melhor, não vicia.


Por falar em 'O Informante', o filme trata da indústria do tabaco, sei que você defende os fumantes. Ainda defende ou algo mudou?
Veja bem eu defendo o meu direito de fumar. Eu quero fumar, fumo e ninguém tem nada a ver com isto, nem meu médico. Agora quem quiser ceder ao moralismo imbecil que tomou conta da sociedade nos últimos tempos, que demonizou o ato de fumar, fique com o problema para ele. Se não quiser fumar não fume. Mas se quiser, assuma os riscos. Não vou entrar em detalhes sobre isto, porque merece um capítulo à parte. No momento em que a mortalidade infantil é de 20 por mil acho que as autoridades de Saúde deveriam se preocupar mais com isto do que com o fumo. Afinal, quem fuma, se corre algum risco, sabe o risco que corre. Já crianças de zero a cinco anos de idade não.


Tem alguma história engraçada do jornalismo da qual você se lembra? É possível ter humor fazendo jornalismo?
Aliás uma crença que carrego comigo desde a primeira matéria publicada é que só é possível fazer jornalismo com um senso de humor apurado. Nosso avatar, o José Simão, da Folha, diz que este é o país da piada pronta. O Marcos Vila, daqui da terra, costuma dizer que aqui acontece coisas que até no Paraguai dá cadeia e eu me divirto muito fazendo o tal do jornalismo porque a sociedade chega a ser engraçada. Isto não coloca o jornalista num picadeiro de circo. Pelo contrário o torna cético. Mas o que você precisa é um case, tem muitos. Na verdade são imbecilidades. Quando eu editava a Folha, o jornal crescendo em vendagem, se firmando num início de jornada, o Sávio Brandão contratou um consultor da ANJ (Associação Nacional dos Jornais) para dar jeito na empresa. A piada começa aí, o cara havia falido o seu jornal em Campinas e vivia de dar conselho para os outros. Daí começou a vir para cá, veio várias vezes com passagem paga e hospedagem no melhor hotel. Ainda faturava algo como mil dólares por dia. Ao final do processo, marcou-se uma reunião para ele me passar as “determinações”. E lá veio ele: “Você precisa demitir 18 jornalistas”. Ora, você gastar uma grana toda desta com o consultor para ele chegar com esta solução!!! (A Folha empregava 34 pessoas na redação) Olhei, pensei, e lhe devolvi a receita: eu não, você é que precisa demitir 17, porque eu me demito agora. Ele ainda tentou argumentar e lembrando que eu tinha família, que não seria justo para com ela a minha demissão e perguntou o que eu iria fazer na vida demitido (eu ganhava bem). Aí não tive dúvidas, falei para ele que ia ser consultor de empresa jornalística como ele. Ele ficou quieto, a reunião terminou, nunca mais o vi e continuamos no jornal, crescendo em tiragem, em assinantes até a minha saída. Tem um outro caso que fui protagonista e que está em http://www.revivendomusicas.com.br/reportagens.asp?id=68 Por causa dele entrei na Associação Sorocabana de Imprensa na categoria excluído.


E alguma história triste?
Prá economizar história você pode repetir a de humor aí de cima porque na sua polissemia ela revela os dois lados da coisa.


Você defende a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo?
Posso dizer que o diploma não faz o jornalista. A formação acadêmica ajuda. Defendi esta postura num artigo (http://www.conjur.com.br/2001-nov-01/professor_defende_ensino_papel_obrigatorio). No primeiro momento e acabei me tornando persona nom grata à majistratura paulista do então juiz Lalau (Nicolau qualquer coisa). A questão não é o diploma que não passa de um papel, mas sim da formação que o curso de jornalismo dá (por pior que seja). Um foca “prático” vai levar dez anos para aprender o ofício (isto quando aprende) já o foca formado sai da escola com uma formação epistemológica e deontológica adequada para que ele, quando aprender andar na redação (e isto leva uns três meses no mínimo) já possa construir os seus passos. Acredito, inclusive, que nos ressentimos atualmente de uma formação continuada, uma vez que vejo o jornalismo como um processo em constante mudanças e que devem ser assimiladas pelos profissionais.

(...)vejo o jornalismo como um processo em constante mudanças e que devem ser
assimiladas pelos profissionais.

Na sua opinião, porque a imprensa não fala sobre certos assuntos educativos com mais frequência?
Por burrice, uma vez que o público estudantil é a grande maioria de usuários de jornal. A Folha de S. Paulo da década de 70 sustentou-se e cresceu abordando com propriedade, como segunda linha de cobertura (a primeira era a política de abertura) o meio estudantil. Tem gente que começou a ler a Folha naquela época e hoje é assinante de carteirinha. Também porque tem um pensamento monádico e não vê que os temas que abordam vão longe da universalidade esperada pelo leitor. Anteontem (dia 25) dei uma aula num curso de extensão e ninguém estava lá para coletar alguma história que pudesse sensibilizar a sociedade, nem no meu curso e nem nos outros dias. Eu falei sobre a inserção de tecnologia como forma de implementar a complexidade do modo de pensar da escola. Teve gente que falou de outras coisas, pesquisa, ciência no segundo grau, na pior das hipóteses um jornalista lá poderia colher excelentes pautas, mas acho que eles se contentaram com o release.


Você é a favor da descriminalização da maconha e outras drogas?
Sou. Se a Europa não vê crime, porque será que outros cantos irão ver. A propósito, um amigo que é fumante de maconha, numa conversa desta, estava falando e aí, veio outro e disse que iriam vender a maconha em farmácia, com bula e tudo. Ele, rapidamente, soltou a idéia, tem que vir com várias bulas, assim a gente tem onde enrolar o fumo. Acho que a postura (contrária) é moralista e econômica. A lei seca dos EUA não impediu o alcoolismo, pelo contrário fez a fortuna dos Kenedy e vai por aí a fora.


Na presença do gênio da lâmpada, tendo você o direito a três pedidos, quais seriam?
Como eu sou meio compulsivo, a primeira coisa que eu pediria seria o direito de ter infinitos pedidos. Aí iria gastando eles na medida que surgisse oportunidade e tivesse necessidade. Assim evitaria alguns dos problemas que aparecem nas piadas. Além do mais, com esse poder de infinitos pedidos, eu poderia distribuir pedidos à vontade e talvez nem precisasse dos outros dois (se eu fosse político seria capaz até de argumentar que dos três pedidos iniciais eu economizei dois para não cansar o gênio, rsrsrsrs)

3 comentários:

Dafne Henriques Spolti disse...

Gente, que ótima. Ótima! E poxa, o Segura é muito bacana...
Valeu!
Dafne

Denise disse...

O Segura é uma figura. Por conta da tal rebeldia juvenil (ou por besteira mesmo) não explorei o que poderia dele e dos outros professores.

Saudades da UFMT.

Ana disse...

Putz, esta entrevista só reforçou meus conceitos sobre o Segura: melhor professor-contador de histórias que tive e, em letras garrafais, O EDITOR CHEFE!!!!! Beijos acre@nos...

Ana Cristina Moreira dos Santos