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24 de jan de 2010

Oitava entrevista da série: "Jornalistas de MT: o que pensam?"

“Racismo existe”, afirma Neusa


Foto: Dafne Spolti (Estudante de Jornalismo - UFMT)

O presidente Lula e o militante africano Mandela são os ídolos da jornalista Neusa Baptista Pinto, 34 anos, mulher, negra, separada, mãe do Joaquim, 1. Neusa é muito calada, mas recentemente deu um barraco dentro do ônibus com uma moça que disse que o cabelo rastafári dela fedia. “Ela disse isso atrás de mim, sem sequer abaixar a voz. Fiquei p. da vida e soltei os cachorros. Em tantos anos usando este penteado nunca tinha tido uma demonstração tão agressiva de racismo assim”. Autora do livro “Cabelo Ruim” e à frente do projeto “Pixaim”, junto com a Central Única das Favelas (Cufa), Neusa atua contra racismo, trançando as cabeças por aí. Na TV o que mais a irrita são as novelas. “Como pode uma dona de casa, que não tem nada para comer, estar preocupada com o futuro da mocinha da novela?”, inadaga.


Você é formada em Jornalismo?
Sim. UFMT.

Nasceu onde?
Nasci em Lençóis Paulista (SP) e vim para Cuiabá com 11 anos em 1986 com minha família. Eu vim porque meu pai ia morar num sítio, o que acabou não dando certo.

Uma jornalista mulher e negra. Essas caracterizações são importantes? O fato de ser mulher e ser negra, isso faz de você uma jornalista diferente?
Acho que sim, me faz diferente porque eu parto de um outro ponto de vista, que é o da classe menos favorecida. Acho que isso dá um outro olhar sobre as coisas. Também pelo fato de buscar conhecimento sobre a questão racial e ter certa noção destas discussões, isso faz com que seja diferente a abordagem dos temas, creio eu. E a atuação em outras frentes também que não o jornalismo.

Por que jornalismo se existem tantas profissões?
Nossa! Só tem um motivo de eu fazer jornalismo: por eu achar que escrevo bem. Ponto final. Na verdade, fui meio desinformada, não conhecia o cotidiano do jornalista. Se tivesse tido este conhecimento, com certeza não seria jornalista, pois hoje sei que não basta escrever bem, embora isso seja crucial para ser bom jornalista.

Você é uma pessoa ligada nos fatos do momento levados pela grande mídia? Por exemplo. Com quem deveria ficar o menino Seam ou tragédia em Búzios. Essas notícias te dizem respeito?Sempre que vejo a grande mídia dar destaque a um fato, olho com desconfiança, pois sei dos interesses por trás desta grande máquina. Uma vez li no blog do Paulo Henrique Amorim ele dizer: Este Plano de Direitos Humanos do Lula deve ser ótimo, nem li e já gostei. Ele disse isso porque acompanhou pelas notícias do PIG o ódio da grande imprensa contra este plano. Não me ligo nestas noticias sobre comportamento, tais como esta do menino Seam. Sobre a tragédia de Angra dos Reis, o duro é agüentar o chororô na Ana Maria Braga, a supervalorização do sofrimento da gente rica e classe média que perdeu parentes lá. Sempre que um tema está em destaque na grande imprensa procuro me 'orientar' em sites como o Vermelho, PHA, Vi o Mundo para ter uma visão mais crítica sobre o que aquilo realmente quer dizer. Mas faço tudo na correria mesmo, gostaria de me aprofundar mais nestas leituras, afinal acho que é dever da gente estar bem informado.

Você gosta de votar? Sim ou não. Por que?
Ás vezes é penoso, porque não se tem opções e a gente escolhe o menos pior. Nas últimas eleições tenho sentido um prazer e orgulho muito grande somente na hora de votar no meu querido presidente Luis Inácio Lula da Silva. Meu coração acelera, e sinto que estou contribuindo para melhorar o Brasil, como hoje ele está melhor do que antes. Fora isso, a sensação é de impotência total.

Você é autora de um livro infantil, “Cabelo Ruim”, em que você narra a história de três meninas negras, no processo de reconhecimento de si mesmas como afrodescendentes. E você mostra esse processo falando sobre o cabelo. O jornalista é um escritor frustrado? Lapidar o texto é importante?
Nem todo jornalista é um escritor frustrado. Eu vejo o jornalista como um escritor sim, mas de historias rápidas e passageiras. Adoro lapidar texto, acho que é por ai mesmo, a gente na correria esquece da importância disso. O professor Segura falava assim: olhe seu texto, pegue a melhor parte dele, apague-a, comece de novo. Lapidar é sinal de humildade, e isso o jornalista precisa ter sim.

Se lapidar o texto é importante, o conteúdo desse texto não é mais importante ainda?
Sim, claro, mas ambos são importantes. Lapidar deve ser uma forma de fazer com que o texto transmita melhor o conteúdo que ele traz. Escrever é a arte de cortar o texto (outra pérola do Segura).

Na faculdade ou onde quer que seja. Onde foi que você se preparou para ser uma jornalista?
A faculdade é importante, não adianta dizer que não. Principalmente porque lá você tem tempo de refletir sobre coisas como ética jornalística, o papel do jornalista hoje, a postura da grande mídia, a comunicação alternativa etc. Aquelas “viagens” que a gente faz na faculdade e que são tão importantes para que a gente pense melhor no que está fazendo lá, na importância de seu trabalho e seu lugar na sociedade. Mas eu acho que a preparação para ser jornalista começa bem antes, com a capacidade de ver e interpretar a realidade. Isso é da formação pessoal mesmo. Ou você tem ou não tem.

Você é a favor ou contra a exigência do diploma para o exercício do jornalismo?

A favor totalmente. Acredito que é necessário até mesmo em relação aos conhecimentos adquiridos. Não dá pra desprezar ou menosprezar a importância de mestres do jornalismo, dos conhecimentos acadêmicos produzidos sobre o tema, do ambiente culturalmente rico de uma faculdade e dizer que qualquer um pode fazer isso, basta saber escrever, perguntar, anotar, falar bonito na frente da tv. A falta de reconhecimento do diploma é um desrespeito ao profissional, ao professor, ao estudante e ao público consumidor de informação.

Você sabe o que foi a I Confecom? Isso mudará os rumos do país? Qual a sua visão sobre o assunto?
Para mim a Confecom significou um passo histórico no sentido de começar, aos poucos, a debater um tema que é tratado como tabu, que é o papel dos meios de comunicação hoje. Li uma entrevista do Rodrigo Vianna que ele dizia: temos que compreender que a mídia é um partido político, ela foi criada para isso. Eu não acredito que ela foi criada para isso, embora seja isso hoje. E este movimento agora de estudantes e profissionais da comunicação é essencial para que a gente possa começar a colocar isso na mesa. Informação é um direito que está se tornando mais básico a cada dia, pois informação cada vez mais é poder e tem um peso maior a cada dia.

Morrer é um medo do ser humano? Esse medo faz sentido?

Vôti, não sei. Eu tenho medo de morrer, mas o pior é morrer sem ter vivido (é clichê, mas é verdade). Há vida que não merece ser vivida, por isso tanta gente tenta se matar. O medo de morrer só existe porque temos medo do desconhecido. Mas eu acho que tem algo de bom depois da morte, porque nós não somos só corpo, temos alma, espírito, algo divino e inexplicável. Eu acho que quando a gente morre, entende o sentido da vida, quem somos, de onde viemos, para onde vamos etc. Temos acesso a todos os segredos da vida humana sobre a Terra. E talvez a vida não seja nada do que a gente pensa, a ciência diz, ou a igreja prega. Então é esperar para saber a verdade quando estivermos do lado de lá. Eu tenho fé nisso.

Doce ou salgado?

Doce, amo doce, como até passar mal.

Já deu escândalos exercendo a cidadania?

Já sim. Recentemente, dei um barraco dentro do ônibus com uma moça que disse que o cabelo rastafári fedia. Ela disse isso atrás de mim, sem sequer abaixar a voz. Fiquei p. da vida e soltei os cachorros. Em tantos anos usando este penteado nunca tinha tido uma demonstração tão agressiva de racismo assim. Os cuiabanos geralmente são mais discretos.

Você acha que o Brasil é um país corrupto? Se sim, por quê? Se não, por quê?
Sim, a corrupção está na cultura do brasileiro. Quem nunca furou uma fila? Quem nunca quis levar vantagem? Muita gente leva isso às últimas conseqüências, elegendo-se para cargos nos quais não realiza nada, em benefício próprio e acha isso super normal.

Você é a favor de relações homoafetivas?
Uma vez assisti a um filme no qual quando você morria passava por um julgamento que era o seguinte: assistia a toda a sua vida novamente, como um filme, e ia vendo em que momentos você se acovardou, não se amou, não se defendeu, se menosprezou. Isso que Deus não perdoava. Eu acho que Deus (ou o Cosmos, esta força superior) quer que a gente seja feliz e faça os outros felizes. Fazendo isso, está bom demais. Seja com homem ou mulher, isso é o que menos conta.

Infância, adolescência, vida adulta ou velhice?
Vida adulta, com certeza. É o momento de tomar as rédeas das coisas, decidir, agir, estar mais atenta, prestar atenção aos seus desejos. Muita coisa já está resolvida.

Você tem coragem de fazer exercícios físicos (rsrsr)?
Não, só de pensar me dá canseira. Mas tenho que começar, afinal a flacidez está batendo à porta.

Você tem ídolos? Citaria algum ou alguém que te orienta na vida?
Bom, não sou muito de ídolos, mas eu citaria o presidente Lula. Com todos os defeitos, não dá para negar sua história. Outra pessoa que me inspira muito é o Nelson Mandela, pela perseverança espantosa.

Escola laica ou religiosa?
Laica. E que Deus nos livre da religião e nos faça mais simples e felizes.

O que mais te aborrece na TV?

Nas comerciais, as novelas. Não é por serem triviais, mas pela pobreza do roteiro, da interpretação. Pela forma como zombam da inteligência das pessoas. E pelo conteúdo, que a cada dia é mais focado na vida abastada da classe média e alta. É muito triste ver isso, e como isso se entranha nas pessoas. A ponto de uma dona de casa que não tem nada para comer estar preocupada com o futuro da mocinha da novela, que tem que decidir se viaja para Paris ou fica com o namorado milionário no Brasil. Isso é que é não querer ver a realidade. Outra coisa que não poderia deixar de aborrecer é o jornalismo pasteurizado, oco, cínico. Mas eu vejo com esperança a alternativa da TV Pública, ainda que a qualidade técnica não seja tão boa. A programação da TV Brasil e Cultura está cada vez melhor.

O que será de 2010?
2010 será o ano da virada na vida pessoal. Tudo de bom virá. Mas o bom nunca vem sem o mal, é preciso ter paciência de enfrentar tudo do mesmo jeito. A rosa e o espinho. 2010 será para o Brasil o ano de eleger Dilma Rousseff, de dar um não à direita que estrebucha para voltar ao poder. 2010 será o ano de prova de fogo do Projeto Pixaim. Eu acredito que será um ano inesquecível.

3 comentários:

Rose Domingues disse...

Neusinha, maravilhosa entrevista...Te adorooooo! bjão e fica com Deus.

Icone Comunicação Integrada disse...

Neusa !
Parabens Sindjor e Neusa !
Inspiradora sua entrevista...

Paola

Alcione disse...

Neusa .... querida, quanto mais sei a seu respeito mais te admiro.
Joaquim é uma criança de sorte!!!