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2 de dez de 2009

CRÔNICA: A florá(ri)da


Por Aluízio de Azevedo


Os afogados dias passaram como se fossem minutos. As horas como quimeras de segundos. E o relógio, já não funcionava há quase uma semana. Acabou as pilhas e ela não teve ânimo de ir comprar novas. Também, pra que contar o tempo? Não tinha grandes compromissos, ou assuntos a ser tratado fora de casa. Ainda mais agora, que acabara de ser despedida.


Suzana, ou será Larissa? Não me recordo mais o nome dela... se perdeu, entre os vários sonhos que tive na noite passada. Um deles estava presente, mais sorridente que de costume, mas com aquela cara de coitada usual. Ah, me recordei, o nome dela era Joana. Claro, só podia ser Joana. Às vezes tinha uma cara de louca. Em outras, lembrava apenas uma feição demente, corrompida pelas casualidades da vida.


A única coisa que sabia fazer, e que a mantinha viva, era o emprego de diarista na casa de uma ex-vedete. A patroa era seu divertimento. Costumava passar horas arrumando o seu velho baú, cheio de perucas fedidas e bolorentas, bijuterias baratas e um espelho de metal, todo retorcido, com cabo, para segurar na mão. Ela já tinha visto um assim antes na infância e se encantava por ele.


Gostava de pensar que o espelho era mágico e sempre tinha vontade de perguntar, quando olhava o rosto retorcido, enrugado e pálido refletindo a luz opaca do quarto da patroa, se ela “era a mulher mais bonita do mundo”, como no conto de Branca de Neve. Porém, a modéstia e o medo de que a velha pudesse ouvi-la, fazia retroagir e guardar rapidamente os objetos de volta no baú.


Vez por outra, Joana colocava uma peruca velha, gostava mais da loira – ela era morena e sempre teve vontade de ser loira, mas não queria ser taxada de sem vergonha, ou mulher mundana, por isso nunca o fez. Também colocava uma bolsa de cor rosa-calcinha da patroa (esta não era do velho baú, ainda que tivesse a mesma idade das coisas que lá estavam).


Para completar o seu sonho, que durava coisa de uns cinco minutos, ela colocava um brinco no único buraco da orelha que tinha. Por infelicidade, quando era criança, um primo rasgou uma de suas orelhas e nunca mais quis furá-la de novo. Conformou-se com o fato, como se fosse uma espécie de castigo.


E nesses poucos minutos, durante os cerca de 20 que levava para fazer a faxina geral no quarto de “dona Perla” – era assim que a sua patroa gostava de ser chamada –, pensava que era uma estrela de cinema. Vivia para este momento, que acontecia há cada dois dias na semana, quando ia à casa de “dona Perla”.


Mas a velhota faleceu. E as filhas tiveram que demiti-la. Afinal, não tinha mais função. Pois bem, Joana estava lá, desfalecida sobre o sofá. Há quase dois dias não comia direito. Aliás, também neste tempo não tinha tomado banho ou trocado de roupa. A televisão ficou ligada, estando dormindo ou acordada. O canal permaneceu inalterado. Nem mesmo o reality show de segunda linha, que passava num dos canais locais aos sábados e gostava de assistir, animou-a a ir até o televisor e apertar o botão para mudar de canal.


No fio do desespero, Joana queria ter pedido o baú para as filhas de Dona Perla, mas também não teve coragem. E agora, estava ali sozinha, mais uma vez sem ninguém. Ela não tinha mãe, pois havia morrido no parto. Foi criada até os 15 anos com a avó. O pai nunca conheceu. E só arrumou esse emprego, graças a influência da avó, que era amiga de dona Perla.


Queria rezar. Mas já tinha esquecido a Ave Maria. Balbuciou delirante: - ave Maria, ave Maria, ave Maria, ave Maria, ave Maria... Até que invadiram a porta. Era o marido da vizinha, Dona Zica. Ele entrou algoz. Violentou-a, de várias formas. Ela não esboçou reação e sequer reagiu fisicamente. O máximo que conseguiu foi verter lágrimas. Era um choro sentido, mudo, seco e sem gemido. Choro de incompreensão: - porque uma flor, haveria de nascer num sertão?


O último suspiro de consciência de Joana coincidiu com o último gemido do gozo de seu algoz, que parou por um instante, enxugou o rosto com a camisa, e desferiu o golpe fatal. Deixou-a metade no chão, metade no sofá. Foi até o jardim de sua casa, pegou nove margaridas amarelas, que plantara exatamente para esta ocasião.


Retornou à o quartinho de Joana e arrumou-a perfeitamente na cama. Tirou sua roupa, cobriu-a com um lençol branco, meio rasgado, mas o único que tinha na mala de Joana. Em cima colocou as nove flores, escrevendo por sobre o lençol: "Aqui jaz a florada da flor árida".


Aluízio de Azevedo é jornalista em Cuiabá e professor de Comunicação

2 comentários:

Michèle Sato disse...

MARAVILHOSO TALENTO, ALU
fiquei quase sem piscar, devorando cada palavra, degustando o prazer literário, talento de poucos.

AMEI!
continue, agora vc já tem compromisso com leitores...

com admiração
mimi

Sonia Palma disse...

Com 'z' ou com 's', não importa, já tem nome de escritor e de escritor já tem o talento.
Parabéns meu amigo!!!!