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23 de nov de 2009

Sílvio Carvalho e o jornalismo que dá voz aos de baixo

Najla e Sílvio no Reveillon de 2006, em Chapada dos Guimarães
Por Najla Passos*

Eu e o jornalista Sílvio Carvalho nos mudamos para Cuiabá mais ou menos na mesma época, em fins de 1996, quando o pensamento único sufocava o mundo e muitos poucos ainda acalentavam a hipótese de que as coisas desse mundo podiam ser diferentes. Eu já havia usufruído do privilégio de ser sua colega de faculdade, em Minas Gerais, pouco tempo antes. Mas foi lá, no coração do Brasil, em meio às muitas guerras travadas no dia-a-dia contra a ocupação monocultural do solo, pela colonização dos índios e pelo extermínio dos sem-terra e ribeirinhos que aprendi de fato a admirar aquele mineiro matuto de profundos olhos verdes, versado em poesia e filosofia, que me deu minhas primeiras verdadeiras lições de que o jornalismo só faria sentido se servisse aos de baixo.

Sílvio Carvalho era tão menino quanto eu. A inexperiência de vida contrastava com a vontade de fazer o certo, de fazer diferente. Como todo bom “foca”, Sílvio caiu direto na editoria de Polícia do jornal em que eu, também tão “foca” quanto, exibia minha pouca literatura nas páginas de Cultura. O esquema de trabalho na área dele já estava cristalizado há muito: os jornalistas liam os boletins de ocorrência, pegavam uma ou outra informação tão exclusiva quanto insignificante, sempre com fontes oficiais, preferencialmente da Polícia, e enchiam os jornais de sangue, passionalidade e preconceito. Pobres, negros, índios, sem-terra se confundiam com a violência sempre crescente e assustadora. E isso bastava a todos.

Ele, entretanto, jamais se conformou. Jamais se rendeu a facilidade do BO, do ar condicionado, do amparo das versões oficiais da história. Sílvio desafiou o poder, o crime organizado e foi até os de baixo. Correu favelas, assentamentos, beiras de rios, comunidades quilombolas. Colocou a voz dos excluídos pela primeira vez nas páginas policiais do Estado. Fez escola, fez bonito. Também fez muitos inimigos. Primeiro, os próprios colegas, que desaprovavam aquela alteração na ordem “natural das coisas”. Depois, por motivos óbvios, os poderosos.

De uma feita, Sílvio foi condenado a cumprir pena alternativa por desmantelar o tráfico de armas na cidade, mostrando que os revólveres que assustam as residências ricas não são provenientes das aldeias indígenas, dos quilombos ou dos assentamentos, como muitos gostariam de fazer crer. A alegação da promotoria era a de que Sílvio cometeu o crime de porte ilegal de armas: ele havia conduzido por cerca de 500 metros o revólver que comprou sem nenhuma dificuldade em um bairro tradicional da cidade, sob as barbas das autoridades de plantão, até o Fórum Criminal.

Sílvio denunciou a guerra contra o terrorismo, a aculturação dos quilombolas, a ofensiva do agronegócio sobre índios e florestas. Tornou-se um inimigo do status quo em potencial. Acabou desistindo de brigar naquela arena. Correu mundo. Viveu como imigrante ilegal em Londres. Visitou a Palestina para demonstrar seu desagravo contra a ofensiva sionista, planejou entrar no Panamá para desmantelar Guantánamo. Vez ou outra dava notícias, um e-mail, um telefone. Pedia contatos de revistas ligadas ao campo da esquerda. Trocava idéias sobre livros, teorias e pautas futuras.

Há uns dois anos voltou ao Brasil para tentar um mestrado e aprofundar os estudos. Prometeu visitas e telefonemas, mas nunca mais fez contato. É por isso que hoje, Dia da Consciência Negra, dia símbolo de luta e resistência, rendo minhas homenagens ao bom e velho amigo, jornalista Sílvio Carvalho. Que os bons ventos levem estas palavras até suas mãos para que ele possa me dar notícias sobre onde e como anda travando as suas sempre nobres batalhas!
*Najla Passos é jornalista em Brasília

Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo texto Najla...
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