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30 de out de 2009

Sexta entrevista da série: "Jornalistas de MT: o que pensam?"

'HÁ MUITOS FALSOS ARTISTAS POR AÍ'

Foto: Duflair Barradas
* Por Keka Werneck


São poucos os jornalistas que trabalham com cultura em Mato Grosso. Talvez
porque cultura seja uma área menosprezada em sociedades culturalmente
sufocadas por outras, como é justamente o caso da cultura cuiabana, que
resiste a ataques, principalmente nas últimas décadas de migração sulista.
Lorenzo Falcão, editor de Cultura do Diário de Cuiabá, com certeza, está entre esses poucos. E ele gosta disso! Numa
entrevista bem à cara dele, conta que já vendeu amendoim em comício do
Maluf e faturou (rsrsr). Também afirma que já trabalhou como garimpeiro. Que não liga para coisas materiais e, por
conta da reputação firme, jamais recebeu suborno para engavetar matéria. Leia
a entrevista toda!

POSE DE 'O PENSADOR'

Lorenzo, você nasceu aqui? Se não nasceu aqui, veio de onde e por que, com quem e quando?

Nasci em Niterói (RJ) em 1958. Minha mãe é de Nossa Senhora do Livramento (MT) e meu pai de Santana do Livramento (RS). E acho livramento uma bela palavra pra estar envolvida na vida da gente. Meus pais se conheceram aqui, mas fui gerado em Niterói, para onde eles se mudaram por razões profissionais. Vim pra cá pela primeira vez com minha avó, que morava num sítio papa-banana e foi visitar minha mãe em Niterói. Eu tinha menos de um ano. Minha mãe viria logo em seguida, mas não pôde vir. Fiquei vários meses com meus avós maternos morando nesse sítio, que era uma espécie de célula mãe de uma comunidade rural. Meses depois, quando minha mãe pôde vir e eu a reencontrei, dizem que eu fiquei com vergonha dela. Assim se materializou meu laço com esta terra, que já vinha de quando eu "morava" na barriga da minha mãe, em Niterói, e ela chorava copiosas lágrimas pela saudade deste lugar que acho maravilhoso, mas já achei muito mais. Entre o Rio de Janeiro e Cuiabá minha trajetória é cheia de idas e vindas.

Casado? Filhos?

Sou casado com Fátima Sonoda há uns 25 anos, ou mais, com quem tenho dois filhos: Beatriz (21) e Vítor (18).

Você já trabalhou de quê na vida?

Sou formado em Educação Física, mas antes estudei um pouco de Engenharia, em Cuiabá e no Rio. Mudei-me pra Cuiabá onde, por ser atleta, com 18 ou 19 anos, comecei a trabalhar como professor de educação física, desde antes de ingressar no curso. Mas sempre tive um pé nas letras. Meus pais me ofereceram, desde a infância, uma biblioteca maravilhosa onde me iniciei na literatura lendo autores como José de Alencar, Érico Veríssimo, Alexandre Dumas e Miguel de Cervantes, entre muitos outros. Soube misturar a saúde da vida esportiva, com a cultura literária e lógico que com a música: meu pai, que é engenheiro, mas também é estudioso do canto lírico, me permitiu desde bem cedo a convivência com a arte da música, especialmente o canto lírico. Trabalhei muito com esportes, mas também me adentrei pelas artes com o teatro e a poesia e outras atividades culturais. Já fui marchand, garimpeiro, guia de turismo, vendi esfirras num comício de Tancredo Neves (levei prejuízo) e amendoim num comício do Paulo Maluf (faturei).

Com tantas habilidades (rsrs), porque você partiu para o jornalismo e como foi essa transição?

Em meados dos anos 80 eu era hábil na escrita. Colaborava com publicações em impressos e me fixei como revisor da Revista Contato, a convite do saudoso Antônio de Pádua. Comecei também a trabalhar como assessor de imprensa na Assembléia Legislativa. Não havia a faculdade de jornalismo aqui. Consegui me "legalizar" como jornalista, profissão que acho que jamais abandonarei. Escrever me dá muito prazer. Participei de uma peça teatral como co-autor e ator (O Capote) em 1988. Um sucesso lascado. E acho que essa performance teatral foi a minha principal experiência de vida até hoje. De lá pra cá fui vidrando cada vez mais nas artes e na comunicação.

Não sendo diplomado, embora seja de uma geração que muitos jornalistas também não são, você acha que isso te faltou em algum momento no exercício do jornalismo?

Sim e não (rs...). A experiência prática e a bagagem cultural, especialmente a literatura e logo em seguida o cinema, me tornaram uma pessoa de extrema facilidade para a comunicação e sempre pautado em comportamentos éticos e humanitários. Os conhecimentos teóricos, sistematizados, que o curso de comunicação oferece são importantes para entender melhor o mundo. Escrever bem e compromissado com valores positivos também vale muito. Ajuda a mudar o mundo. Mas acho que a comunicação tende muito para a transversalidade.

Você defende a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo?
Esse tema me desperta muitas dúvidas. Opiniões de idas e vindas. No momento estou tentado a acreditar que o diploma não é assim tão importante. Mas condeno a forma como isso foi imposto pela "sociedade".

O bom jornalista é...
Uma pessoa que sabe ouvir e se exprime com clareza. Que conhece das sutilezas da comunicação ao ponto de desenvolver a criticidade nos outros. E, logicamente, alguém preocupado com valores positivos e coletivos.

Jornalista tem a mesma síndrome que os advogados: acham-se deuses? Ou essa é a profissão dos humildes: só sei que nada sei?
Deveríamos seguir a linha socrática, mas a maioria parece ter nobreza no estômago. Em relação aos advogados, às vezes, eles são até mais preparados para, por exemplo, enfrentar as contradições e os antagonismos.

Já te ofereceram suborno para não publicar matéria?
Claramente, não. Não é que eu tenha uma imagem de sujeito sério, compromissado. Sou até um pouco anarquista. Mas minha reputação é firme.

Você já se sentiu um inútil indo cobrir uma pauta nada a ver?
Algumas pautas nem sempre são tão boas, mas para ser 100% inútil é preciso ser muito preguiçoso ou incompetente. E sempre fui um profissional articulador das próprias pautas.

Quem manda mais nos meios de comunicação: o governo, os políticos ou o capital publicitário?
Essas três coisas que você citou é que mandam. Variando o percentual de situação para situação e de lugar para lugar. Acho que em alguns veículos ditos estatais a sociedade é tratada com mais respeito e o capital, a força do dinheiro e da política pesam menos.

Você defende a escola da imparcialidade ou o contrário disso?
Mesmo sabendo que ela é um tanto inatingível, acho que a imparcialidade deve ser perseguida. E também considero que a notícia pode e às vezes até deve vir acompanhada pela opinião de quem a produziu. Mas é preciso saber respeitar a inteligência do público alvo.

Você atua mais diretamente no jornalismo cultural? O que é cultura? Por que um jornal deve ter essa editoria? Tudo não é cultural?
Jornalismo cultural é a minha praia. Cultura é um conjunto de manifestações e de padrões comportamentais que caracterizam sociedades, nichos, etnias. E quanto mais essas manifestações tenderem para o produto artístico mais complexo e sofisticadamente cultural será o conceito. A indústria cultural, onde entra o entretenimento, é uma das que mais cresce no mundo. Vivemos o tempo que foi profetizado pela Escola de Frankfurt: a espantosa reprodutibilidade que a tecnologia propicia. O acesso cultural torna-se mais e mais democrático. As sociedades precisam saber tirar proveito disso. É o futuro. Isso não pode ser ignorado por nenhum veículo de comunicação.

Qual livro marcou sua infância, adolescência e vida adulta? São três portanto.
Já li demais. Desde 8, 9 anos, venho traçando livros. Vou transgredir as regras da sua pergunta. Citarei três autores por período de minha vida. Infância: José Mauro de Vasconcelos, Mark Twain e Alexandre Dumas. Adolescência: Dostoiévski, Eça de Queiroz e Graciliano Ramos. Adulto: James Joyce, Ricardo Dicke e Clarice Lispector. Se fosse falar de toda a poesia que me persegue...

Você trucida o funk? Ou faz reflexões em torno dele? E o pagode? E outras manifestações da cultura popular urbana? Só a música feita pela elite serve?
Não entendo muito de funk. Mas penso que não há como desgostar de um cara como o James Brown. Acho o funk carioca, freqüentador da mídia, não muito interessante, embora reforce o meu desconhecimento sobre esse gênero. Acho divertido o trabalho da Tati Quebra-barraco... algumas coisas. Claudinho e Buchecha até que passa de vez em quando. Mas, no geral, não gosto mesmo do funk carioca. E nem desse pagode que vive nas paradas de sucesso. Uma ou outra música é um pouco mais divertida, engraçada. Acho que vai um pouco de preconceito de minha parte. Outras manifestações da cultura popular e urbana, como coisas ligadas ao hip hop... break dance, grafite e rap são muito interessantes... originais e comportamentais. Adoro o siriri e o cururu. A base da cultura brasileira tem como principais vetores as contribuições do índio, do negro e do europeu pobre, que veio pra cá tipo para cumprir pena. Fechar as portas para as manifestações musicais que não provêm da elite é uma espécie de suicídio cultural.

Acha que o jornalismo precisa mudar de cara? De jeito? De "dono"?
Acho que ele está mudando. E que isso é preciso. A internet, que gera a inclusão digital, é o principal agente nessa história.

Já sofreu algum tipo de preconceito na vida?
Nada muito traumático. Desde bem pequeno sempre fui bem aceito onde quer que estivesse.

Seu salário dá para tudo que você precisa?
Mais ou menos. Não sou muito ambicioso e cada vez me desprendo mais das coisas materiais.

Quem te faz passar raiva?
Tenho um pouco de dificuldade para me relacionar com gente muito burra e teimosa. E odeio políticos corruptos.

Toda dita obra de arte rende matéria? Mas há muitos falsos artistas por aí e, se há, quem os cria?
Claro que rende. Gosto de definir arte como comunicação. Algo que está querendo dizer alguma coisa, mesmo que indizível. A arte é a forma mais complexa de comunicação que existe. Gosto da definição do Paul Valery: a arte é a ciência do belo. Há muitos falsos artistas por aí porque há muita gente que não entende nada de arte, apesar de ter condições materiais e suposto nível intelectual para sacar das coisas.

O jornalista é um artista?
Segundo Ignácio de Loyola Brandão, o jornalismo bem feito é literatura. Hoje, quando realidade e ficção parecem ter assumido uma relação mais séria e a arte simplesmente deixou de imitar a vida e essa relação se tornou uma via de mão dupla, arriscaria dizer que um bom jornalista está a um passo de ser artista. Numa longa conversa que tive com o Eduardo Ferreira outro dia, acabamos concordando radicalmente com uma frase em torno do que é ser artista... "artista é o caralho".

2 comentários:

Anônimo disse...

Bravo, Keka! Bravo, Lorenzo! Eu vi e reconheci o Lorenzo em cada frase dita por ele. Que bom que haja pessoas com tal transparência. Deu pra ver seu bom coração. E parabéns também Keka, pela condução e pelas perguntas sempre inteligentes e íntegras. Estou feliz por ser amigo de ambos.
Kleber Lima.

Anônimo disse...

Tive o prazer de começar no jornalismo como estagiária e diretamente ligada ao Lorenzo. Ele é tudo isso e muito mais. Coração e alma. Posso passar meses sem falar com ele, mas quando acontece e sempre com muito carinho. Lorenzo respira jornalismo e cultura. Parabéns... Tenha sempre meu reconhecimento e minha amizade. Alice Matos