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6 de out de 2009

Quinta entrevista da série: "Jornalistas de MT, o que pensam?"

'Jornalista tem a obrigação de conhecer de perto a realidade em que vive', opina Rodrigo Vargas



Rodrigo Vargas, aos 33 anos, ainda é um jornalista da nova geração, considerando, por exemplo, Mino Carta, de 76 anos, ou outros de nós, já há duas, três décadas ou mais no exercício do jornalismo. Tem 11 anos de estrada, mas é um cara bem sucedido - nos moldes do capitalismo, que ele, incluse, defende - mas sobretudo parece ser visto, por seus colegas, como alguém que chegou ao auge. Vargas trabalha em um dos jornais de maior distribuição do país, a Folha de S. Paulo, como correspondente em Mato Grosso/Mato Grosso do Sul. E tem se destacado! Escrevendo, diz vencer a timidez. Assume que já se emocionou ao ponto de quase chorar fazendo matéria e já pagou muito mico no dia a dia das apurações. Leia a entrevista, para quem sabe, perceber melhor esse sujeito boa praça.

Nome: Rodrigo Vargas.

Idade?
33 anos.

Nasceu onde?
Patrocínio/MG.

Se não nasceu aqui, veio para cá como e com quem e para quê?Vim para Cuiabá aos 4 anos de idade, quando meus pais decidiram tentar a sorte por estas bandas.

Casado?
Sim.

Filhos?
Pedro, 4, e Gabriela, 20 dias.

Você está no auge?
Espero que não. Quando alguém chega ao auge, não há mais o que conquistar, não há mais para onde avançar e, em muitos casos, só resta seguir ladeira abaixo. Diria que estou vivendo um bom momento, trabalhando onde sempre quis, fazendo o que gosto e aprendendo muito.

O jornalismo é um prazer inenarrável ou um ofício simplesmente? Ou um meio termo?
Minha relação com o jornalismo sempre foi muito passional. Desde pequeno, em vez de bombeiro ou médico, queria ser jornalista. Admirava os repórteres da TV, invejava a coragem dos correspondentes de guerra, sonhava com uma vida repleta de muitas viagens e contato com pessoas e pontos de vista diferentes do meu. De certa forma, e guardadas as devidas proporções, tenho vivido esse sonho, o que é muito gratificante. Agora, essa dificuldade de considerar o meu trabalho também como um emprego já me fez aceitar condições de trabalho inadequadas e inseguras. Meu esforço, hoje, é tentar chegar a esse meio termo, no qual a paixão pelo que faço não me impeça de perceber o que é melhor para mim.

Onde você estudou até chegar à faculdade de jornalismo? Tem títulos acadêmicos? Isso é importante?
Do pré à quarta séries (até hoje não aprendi a nova nomenclatura), estudei em escolas públicas de Cuiabá (Maria Dimpina e Souza Bandeira). Fiz parte do ginásio no Patronato Santo Antônio e, a partir da 8ª série, passei a estudar no Colégio São Gonçalo, onde concluí o 2º grau. Formei-me na UFMT em 1998 e, por absoluta falta de planejamento do meu tempo, não obtive nenhum título depois disso. Considero importantes os títulos acadêmicos obtidos como resultado de um genuíno interesse em pesquisa -e não apenas como forma de enriquecer o currículo do pesquisador.

Diploma tem alguma validade para o exercício das profissões? E para o exercício do jornalismo?
Diploma, por si só, não -a multidão de diplomados em Direito que leva sucessivas bombas no exame da OAB não me deixa mentir. Agora, é inegável que uma formação acadêmica bem feita contribui para melhorar a qualidade do profissional que chega ao mercado. A grande questão, no caso do jornalismo, não é a obrigatoriedade ou não do diploma, mas a ausência de regulamentação profissional. Não vejo problema em um graduado em História buscar registro como jornalista -desde que atenda a requisitos definidos pela categoria e se comprometa a seguir o código de ética do ofício. A liberação irrestrita, contudo, deixará milhares de trabalhadores submetidos unicamente à regulação do mercado, um caminho que a atual crise econômica já provou ser desastroso. A desregulamentação também causa a mim preocupações de ordem mais, digamos, prática: como ficarão as filas para o credenciamento de jornalistas em eventos pagos, como seminários e jogos de futebol? Coletivas de imprensa serão concedidas a partir de palanques? Quem vai ler tanta notícia?

Qual a matéria mais besta que você já leu ou viu, e onde viu?
Qualquer abordagem sobre a vida amorosa e/ou sexual e/ou social de celebridades é absolutamente besta sob qualquer ponto de vista -os sites de notícias estão repletos de pérolas da insignificância jornalística que, para meu desalento, ocupam sempre o topo dos rankings de notícias mais lidas.

Qual livro todo jornalista deveria ler? Qual livro qualquer pessoa deveria ler? E filme? Por que?
Para jornalistas, qualquer livro do “dinossauro” Ênio Silveira (recomendo “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista”, editado pela Companhia das Letras na coleção Jornalismo Literário). É triste perceber como nós jornalistas estamos a perder a capacidade de escrever textos que tenham, além de registros factuais e números, um pouco de vida, de sabor e de alma. Os textos do Ênio são repletos dessa chama verdadeira. Para todos, recomendo “A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, do Ariano Suassuna: simplesmente a melhor e mais impressionante obra literária que já tive a oportunidade de ler (e reler, compulsivamente) nos últimos 33 anos.

Capitalismo ou socialismo? Ou nenhum dos dois sistemas?
Num mundo em que o principal esteio do capitalismo mundial é um país comunista e os ditos socialistas empreendem reformas neoliberais, acho que a única resposta possível seria nenhum dos dois. Mas, para não ficar em cima do muro, declaro aqui a minha admiração pelo capitalismo tal como se vê em países como Noruega e Canadá, onde a livre iniciativa e a democracia convivem com um Estado forte e presente na vida das pessoas.

De que forma a miséria aparece nos jornais? Mostrá-la é uma forma de resolvê-la?
O jornalista não tem a obrigação de resolver nada, nem deve prometer isso a ninguém. Jornalista tem a obrigação de conhecer de perto a realidade em que vive e, por meio um trabalho de apuração sensível, apartidário e rigoroso, ser capaz de levá-la ao conhecimento de seus leitores, provocar o debate e cobrar ações do Estado. Sobre a miséria, trata-se de uma realidade em muitos lugares do Brasil e não é possível colocar todas as abordagens da imprensa em um mesmo balaio para a avaliação. Muitas matérias sobre a miséria limitam-se ao registro factual de sua existência, o que costuma render fotos chocantes, mas não provoca o debate. Mas há muitos exemplos de jornalistas que conseguem enxergar e traduzir o cenário político e econômico que gera e faz perpetuar a fome país afora. Cito um exemplo da chamada “grande imprensa”: a série “A Fome no Brasil”, do excelente Marcelo Canellas, repórter da TV Globo.

Qual seu melhor momento na produção jornalística? Apurando ou escrevendo?
Escrever é uma tarefa dolorosa para mim. É quando me deparo com a realidade do espaço (o tempo da TV, as linhas do jornal, as laudas da revista), tenho de fazer escolhas e optar por essa ou aquela abordagem. E há o relógio, o deadline, o tempo a me vigiar por sobre o ombro. Por isso mesmo, meu melhor momento é na apuração, quando ainda não há limites de abordagem e cada pergunta ou observação pode levar a matéria para um rumo completamente novo.

Você tem fama de ter lindo texto, quem te ensinou a escrever?
O Carlos Heitor Cony disse certa vez que começou a escrever por não saber falar. Acho que a timidez também foi uma grande escola para mim. Quando criança, escrevia jornais e revistas (com tiragem de 1 exemplar) para dizer aquilo que, em público, guardava comigo ou expunha de forma atrapalhada. Depois, já na faculdade, a participação no jornal laboratório coordenado pelo professor Aílton Segura e a oportunidade de produzir textos sobre eventos específicos (eleições, seminários) me ajudaram a ter mais confiança no que fazia. Naquele momento, porém, ainda achava que teria mais futuro no fotojornalismo do que na produção de textos. Depois, a vida tratou de ir me encaminhando, sem que eu pudesse fazer nada para impedir.

Já chorou apurando matéria?
Não, mas já tive que me segurar muitas vezes. A mais recente que me lembro foi quando entrevistei aquele senhor que trabalhava como borracheiro em um posto de gasolina e viu o filho de 9 anos morrer em seus braços, vítima de uma bala perdida. Durante a entrevista, eu não conseguia deixar de lembrar do meu próprio filho e de como devia ser terrível estar na pele daquele sujeito. Saí de lá bem abalado e quase que não consigo escrever a matéria.

Homem chora?
Claro. Uns mais abertamente que os outros (botafoguenses e colorados, por exemplo), mas todos temos na vida momentos em que, por alegria ou tristeza, não resta outro jeito de colocar para fora o que sentimos e cair no choro.

Já pagou algum mico no jornalismo? Já foi ofendido por fonte?
Vários. Lembro que uma vez um cacique xavante conseguiu me convencer que sua etnia enviaria a Cuiabá dezenas de ônibus lotados de guerreiros para uma audiência na qual um índio seria julgado por homicídio. Ele me disse que, se fosse preciso, iriam invadir o Fórum e resgatá-lo. No dia seguinte, a manchete do Diário Žfoi: “Índios ameaçam invadir Cuiabá”. Quando cheguei ao Fórum, contudo, estranhei a falta de mobilização. Encontrei por lá o cacique e perguntei pelos guerreiros: “Vieram três”, disse ele. Eu retruquei, ainda confuso: “Três ônibus?”. Foi quando, com o mesmo ar grave do dia anterior, o cacique me olhou nos olhos e disse: “Não, três índios. Mas são bem bravos, viu?”. Sobre ofensas, não me lembro de nenhuma em particular, mas muitas fontes já bateram o telefone na minha cara, o que considero uma tremenda falta de educação.

Cite um assunto que você acha importante e não está na pauta da chamada grande mídia. E se não está, por que não está, sendo importante?
Não acredito em movimentos deliberados que justifiquem essa ou aquela deficiência de abordagem. Creio que falta à imprensa investimento e tempo. Só assim vai ser possível um tratamento mais aprofundado de grandes assuntos, como desigualdade de renda, desenvolvimento regional, educação básica, geração de empregos, fluxos migratórios e racismo, para citar só alguns. No caso dos jornais impressos, que sempre foram a minha praia, tenho a cada dia mais certeza de que o atual modelo (baseado em notícias de leitura rápida) já foi ultrapassado pelas novas tecnologias. Não há nada mais velho do que notícias de ontem. Se quiserem sobreviver, os jornais terão de investir em mão de obra qualificada e permitir que os jornalistas tenham tempo para trabalhar em pautas melhores e mais contextualizadas.

Você iria à guerra por algo?
Que perguntinha, hein? Seria fácil responder que sim, aqui do conforto da minha poltrona e sem nenhum inimigo à vista, só para dar uma de revolucionário. Eu só sei que estar predisposto à guerra significa estar predisposto a matar outro ser humano (ou vários, se for preciso). Eu não estou e espero nunca estar. De qualquer modo, fosse qual fosse o motivo, seria um soldado de meia tigela.

Você se surpreendeu com o golpe em Honduras? A embaixada brasileira fez certo ao acolher Manuel Zelaya?
Parafraseando o Casseta & Planeta: se as instituições do Brasil são como são, imagine em Honduras? Então não houve surpresa alguma com tudo o que ocorreu, a saber: uma tentativa de golpe “democrático” por parte de Zelaya (um latifundiário neo-esquerdista que pretendia se perpetuar no poder) e sua destituição por um contragolpe de opositores “legalistas” de araque. Ninguém é santo naquela briga e a diplomacia brasileira, ciente disso, tinha é que ter se mantido como uma força de busca pela estabilização e o diálogo. Se de fato não sabia dos planos de Zelaya, o país tomou a atitude correta ao recebê-lo em sua representação, mas falhou feio ao permitir que ele e seus seguidores transformassem a embaixada em um comitê de campanha. Se sabia, correu um risco desnecessário.

Quais são as melhores histórias?
Tudo depende do repórter. Uma matéria sobre casas levadas pela enxurrada pode se limitar ao registro factual e durar, no máximo, até o final do dia seguinte. Uma matéria sobre a história das vítimas, e de como vieram morar em áreas de risco, pode render muito mais e revelar problemas como a falta de uma política habitacional, fiscalização deficiente e o efeito de movimentos migratórios repentinos.

Uma pessoa pode ser mais importante que a outra?
Dependendo do contexto e das habilidades de cada um, sim. Explico: se você tem uma hemorragia interna, um cirurgião será para você muito mais importante do que um cabeleireiro. Se for o dia do seu casamento, poucas pessoas serão mais importantes do que o seu cabeleireiro. Agora, perante a Lei, a sociedade e as instituições públicas, nenhum deles deveria ser tratado de forma diferente, nem gozar de privilégios de nenhum tipo. Não é o que acontece, mas é o que devemos buscar.

2 comentários:

Anônimo disse...

Boa praça pode até ser... mas que a mosquinha da Folha de São Paulo, maior exemplo de imprensa golpista desse país ao lado da Globo, o picou.. é fato...

Rose Domingues disse...

Parabéns Rodrigo. Admiro muito você pelo trabalho e conduta profissional. Um grande agraço, o mundo precisa de pessoas como você. Aliás, estou adorando as entrevistas com os colegas jornalistas, venho acompanhando todas.