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23 de jun de 2009

AQUARELA BRASILEIRA DESBOTADA

Roberto Boaventura da Silva Sá*

A semana que passou ofereceu farto material a quem reflete o cotidiano por meio da escrita. Tantas foram feitas que foi difícil respeitar o que ensinou o Padre Antônio Vieira - mestre da oratória - no Sermão da Sexagésima (1655). Com base na parábola do semeador, discorrendo sobre a eficácia ou o fracasso de um discurso, aquele jesuíta aconselha que, para cada momento, o orador discorra sobre apenas um tema. Hoje, ousarei não seguir tais conselhos. Espero não mergulhar o artigo no espaço labiríntico dos discursos dissolvidos.
O primeiro destaque envolve José Sarney, Presidente do Senado. Por desconhecidos atos secretos (óbvio!), parentes e afins seus foram nomeados para cargos públicos em distintas partes da terra. Nepotismo puro. Riscos à vista! Para atenuá-los, como que retribuindo antigos favores, Lula saiu dos píncaros dos índices das pesquisas e defendeu seu guru político. Por tabela do discurso, "o Cara" - na cara dura e na cara de todos - defendeu o nepotismo. Nenhum rubor; nenhum tremor!
Para a defesa, Lula disse que Sarney "tinha história"; logo, não era "pessoa comum". Dedução: o Senador podia ter feito isso e muito mais! Aliás, como já fez, faz e fará. Ao que tudo indica, o Senhor do Maranhão, do Amapá, de Brasília e de tudo quanto é canto parece que só deixará de fazer "história" contra os seus "brasileiros e brasileiras", no dia que o deus Cronos acordar de seu profundíssimo sono e chamá-lo para o merecido descanso dos "políticos justos". Até lá, Lula (quem diria!!!) deve continuar a defendê-lo. É mister(ioso)!
Por falar em pessoas e coisas incomuns, também de Brasília saiu decisão do STF de desobrigar o diploma para jornalistas. Com infundada desculpa de dar mais liberdade de expressão a todos, o STF, sucumbindo a interesses de empresas de comunicação, desregulamenta a profissão e precariza relações trabalhistas. Brechas para novas profissões desregulamentadas estão abertas. Os cursos de Comunicação já ficaram obsoletos. É perda.
Como tudo isso veio da capital da República, lembrei da canção idealizada - "Aquarela brasileira" - de Silas de Oliveira: "Brasília tem o seu destaque, na arte, na beleza, na arquitetura...". É verdade, Silas, mas, infelizmente, nas artimanhas políticas é quase imbatível. Pobre Brasília dos anônimos severinos e severinas que, deixando os auspícios de Tupã e a sensualidade da virgem Iracema, migraram das terras dos "lindos coqueirais", bem como da dos rincões "do frevo e do maracatu", sem esquecer das plagas de onde se come "acarajé" e se respira (mas só se respira) o libertário "Castro Alves". Canção desbotada!
Assim, neste país tropical, "abençoado por Deus...", mesmo com essas práticas e discursos, nada vem a baixo. Parece que seu próximo tremor será apenas por conta da copa/ 2014; isso se os Ministérios Públicos fizerem vistas grossas para a avalanche de tramoias e desvios de dinheiro público que poderão minar os projetos de construções por conta da copa. E assim vamos levando e, literalmente, suportando Sarneys, Mendesss, Lulas e tantos outros do mesmo naipe. Eles continuam por aí; e de quando em quando, por aqui também.
Além do supremo e, por isso, mui poderoso, jurídico Mendes, originário das montanhas de Diamantino, agora, "caminhando pelas cercanias do Amazonas...", Lula - que não deve ter conhecido os desmatados "...vastos seringais..." da mesma canção popular - dias passados, foi a Alta Floresta oficializar grilagem (pelos ricos) de terras naquela região. Lula já é do tempo dos vastos campos de soja, de propriedades de alguns "nobres" amigos seus. Resguardadas as formas hodiernas, repetiram-se atos públicos de benesses - que remontam os tempos coloniais - dadas a alguns "herois" para desfruto da terra.
Desbotando ainda mais o tom da aquarela, já pelas bandas onde o que pega é o "feitiço da garoa pelas serras", nada engrandecedor foi o ocorrido na USP, semana passada. Sua Reitora, inábil para dialogar, chamou a polícia para impor sua "ordem". Para contrapor a canalhices de práticas e de discursos sobre o gravíssimo episódio, o quase centenário e digno Professor Antônio Candido disse: "...isso é um atentado aos direitos mais sagrados que as pessoas têm de discutir, debater e agir sem nenhuma pressão do poder público."
Pronto. Acabou o espaço do artigo. Como as aberrações continuam, confesso que adoraria - à lá Silas - ver só as vivas cores de nossa aquarela; não está fácil!

* Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
rbventur26@yahoo.com.br

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