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25 de ago de 2008

Semana cultural será de desagravo à Cuba e Che Guevara

Therezinha Arruda, idealizadora da semana


Cuba: Vitalidade e Internacionalismo

Uma semana respirando cultura política e social cubana e as lutas do maior revolucionário latino-americano de todos os tempos, comandante Ernesto Che Guevara. Esta é a proposta da semana cultural “Cuba: Vitalidade e Internacionalismo”, de 25 a 29 de agosto, que irá acontecer no Museu de Arte e Cultura Popular da UFMT. Um mergulho profundo e prazeroso nessa ilha de resistência.A articuladora da semana é a professora historiadora Therezinha Arruda, que vive entre Brasil e Cuba. “Há muitas informações truncadas e desconhecidas pela população brasileira”, diz a professora. Por conta disso, ela diz fazer questão de divulgar um outro lado dessa história. (Leia entrevista com a professora Therezinha Arruda no final do texto)
O evento terá entrada totalmente franca e começará sempre à noite, às 19h.
No primeiro dia, 25 de agosto, serão abertas as três exposições, haverá o momento de declamação de textos dos libertários africanos: Poética Heróica e um espaço para leitura.
Do dia 26 ao dia 29, serão exibidos filmes sobre Cuba e Che.
Por meio dos filmes, é possível construir uma idéia mais clara do que significa Cuba para o mundo, um país que erradicou o analfabetismo, onde não há crianças de rua, pedindo em sinaleiros, errantes no submundo dos guetos, e onde o esporte é arma para de fato vencer na vida. Os modelos de saúde e educação cubanos, disponibilizados para países em desenvolvimento, superam expectativas, como: Yo si puedo: método de alfabetização criado por uma equipe de professores cubanos, cujos resultados são mais de 3 milhões de pessoas de 23 países, já alfabetizadas. Existe versões deste método em espanhol, inglês, francês, português, “creole”, aimará, quéchua, tetum e em alguns dialetos africanos; e Operação Milagre: programa de saúde para atender populações em situação de emergência e para resolver problemas de falta de atendimento médico nas regiões pobres do planeta. Já foram atendidas mais de 1 milhão de pessoas em 33 países.
Quando se fala em Cuba, outra discussão importante a se fazer é sobre liberdade. O que o Brasil pensa sobre isso, em geral, é que em Cuba não há liberdade de expressão. “Quero que vocês entendam que Cuba é uma ilha sitiada, vigiada pelos Estados Unidos e o poder econômico internacional; é como se vocês estivessem em uma casa, acuada por bandidos armados. Tudo o que se faz é calculado. Agora não é fato que no Brasil somos livres. Não há aqui liberdade de expressão a não ser para as elites. O que sai nos jornais, em geral, interessa a quem? Quem tem direitos sociais? Quem tem direito à saúde e à escola de qualidade? Então liberdade é um conceito mais amplo. O primeiro instrumento de libertação do individuo é a instrução e a cultura e a Revolução Cubana cuidou disso desde o primeiro momento”.
Sobre os atletas que fogem durante competições esportivas, a professora explica que eles fazem isso porque são impedidos de entrar nos Estados Unidos e quando fogem, pelo fato de darem propaganda negativa a Cuba, são recebidos com alimentação, moradia e emprego na terra de Tio Sam.
PROGRAMAÇÃO:
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25 – SEGUNDA-FEIRA
Abertura da semana
EXPOSIÇÃO TRÊS ESPAÇOS:
1 ) “Cuba, Natureza e Cultura”
Imagens em cartazes e fotos, sobre destinos turísticos, o charme do povo cubano e suas expressões artísticas.
2 ) “Desagravo ao Comandante Che”
Imagens em pôsteres e fotos clássicas do comandante Che, da infância, com os pais, que eram de uma classe média argentina, passando pela adolescência, a primeira namorada, as andanças pela América Latina, Che ao lado dos filhos, da mulher, ao lado dos amigos, como Camilo Cienfuegos e Fidel Castro, até a queda, no exercício da luta e do amor.
"O verdadeiro revolucionário é movido por um grande sentimento de amor." (Che)
O material exposto evoca a biografia do revolucionário, que, em viagem pela América Latina, viu horrores, como a exclusão dos leprosos no Peru, a miséria dos mineiros trabalhadores da Bolívia e do Chile, a pobreza e o abandono do povo latino-americano em geral.
3) “Líderes Revolucionários Africanos”
Registros sobre os mais de 300 mil cubanos que lutaram na África ao lado dos revolucionários africanos e dos mais de 2 mil cubanos que morreram pela independência daqueles países. Essa mostra dá a dimensão internacional da luta de Che e a solidariedade da nação cubana com companheiros do mundo inteiro.
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ESPAÇO PARA LEITURA - No mesmo ambiente das exposições, haverá um espaço para leitura e livre acesso a revistas e cerca de 50 livros sobre Che, além de outros materiais sobre a revolução cubana.
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POÉTICA HERÓICA - A professora Marília Beatriz de Figueiredo Leite dirigirá uma intervenção com Luiz Carlos Ribeiro e Vanda Marchetti que declamarão textos de grandes revolucionários como Lumumba, Che Guevara, Amilcar Cabral, Samora Machel, Nelson Mandela e outros.
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MOSTRA CINEMATOGRÁFICA - Nos dias 26, 27, 28 e 29 de agosto serão exibidos documentários, de um acervo precioso e diverso, disponibilizado pela professora Therezinha Arruda.Os filmes mostram não apenas Cuba e suas belezas naturais, como a força deste povo, programas de erradicação do analfabetismo, de atendimento médico e a solidariedade da nação cubana na solidariedade aos países em desenvolvimento.
SINOPSES DOS DOCUMENTÁRIOS
LA BÚSQUEDA DEL CHE (A BUSCA DO CHE) - Documentário sobre o processo de busca dos restos mortais de Che Guevara e de seus companheiros caídos na Bolívia. Sempre existiu a intenção de localizar os restos mortais do Che e de seus companheiros caídos na Bolívia com o objetivo de dar-lhes sepultura em sua própria terra, outorgando-lhes as honras que todos mereciam. Quando o governo boliviano permitiu que uma equipe multidisciplinar, dirigido por especialistas cubanos, empreendesse a busca de seus despojos, houve a certeza de que eles apareceriam. A busca dos restos do Che e de seus companheiros constituiu um desafio para a ciência. Este documentário mostra todo o processo subseqüente e as provas necessárias, realizadas a partir de imagens inéditas e de entrevistas com as testemunhas da queda e do assassinato dos guerrilheiros. Permite também observar o translado dos despojos a Cuba e a homenagem póstuma que o povo cubano lhes rendeu em cada um dos lugares por onde passaram até seu descanso definitivo no Mausoléu de Santa Clara.
Diretor: Otto Guzmán, 19982 .
CHE: AMOR, POLÍTICA, REBELDIA - Este documentário se baseia num livro da jornalista italiana Lilliana Bucellini. Narra a vida de Ernesto Che Guevara desde seu nascimento até seu assassinato na Bolívia. Constitui o mais amplo audiovisual que já foi realizado, incluindo imagens inéditas registradas antes e depois do triunfo da Revolução Cubana e também fragmentos de seus discursos e entrevistas mais memoráveis.Inclui também a obra do artista plástico Milton Bernal: “Puro Che”.
Diretora: Teresita Gómez, 20063.
CHE GUEVARA, DONDE JAMÁS SE LO IMAGINANA - Intensa e apaixonante vida do revolucionário argentino-cubano que aos 39 anos, em 1967, foi assassinado na Bolívia em sua última tentativa guerrilheira para levar à frente a luta por um mundo mais justo. Uma síntese com imagens inéditas que nos aproximam deste homem excepcional; não importa a perspectiva pela qual se julguem suas idéias e sua ação que transcendeu sua geração e chega até hoje como uma referencia de capacidade de sacrifício, coragem, severidade e ternura.
Diretor: Manuel Pérez, 20064.
TATU, CHE EN EL CONGO - Neste documentário, baseado no livro “El sueño africano del Che” de William Gálvez, se destacam momentos desconhecidos da vida do Che durante sua permanência em terras africanas, cumprindo seu dever solidário com o movimento revolucionário desse país que já tinha empreendido a luta armada contra o regime neocolonial belga. Também , o testemunho de Fidel Castro e a carta que o Che lhe escreveu em sua histórica despedida do povo de Cuba. Apresentam-se imagens do Che homem, amigo e revolucionário, comprometido com as causas de outros povos.
Diretor: Jorge Fuentes, 20075.
LA SOLIDARIDAD INTERNACIONAL - Síntese documental que resume, com imagens inéditas, a colaboração civil e militar que Cuba tem levado à prática ao longo de quase cinco décadas em dezenas de países da Ásia, África e América Latina.As raízes históricas e a coerência das ações da Revolução Cubana se enriquecem com o testemunho analítico do pesquisador italiano Piero Gleijeses, professor de política exterior da Universidade John Hopkins, EUA. “Ser internacionalista é saldar nossa própria dívida com a humanidade”. Fidel Castro (discurso em 5 de dezembro de 1988)
Direção: Manuel Pérez, 20056.
Un lugar llamado Guantánamo - Guantánamo tem algo mais para mostrar ao mundo que a sórdida referência a um território ilegalmente ocupado pelo governo dos EUA e no qual, em nome da “democracia” se estão cometendo os mais flagrantes abusos. A província do extremo leste de Cuba é a região onde se localiza a Vila mais antiga, a chamada Primada Baracoa, com uma geografia única e uma cultura ancestral onde existem desde notáveis poetas e grupos de dança de renome mundial até o ritmo popular Changüí. Este documentário oferece a possibilidade de explicar – ao contrário do que mostra a mídia mundial – o que existe além das cercas perimetrais da sinistra base ocupada pelos estadunidenses. Aqui se revelará a verdadeira história da tristemente célebre Base Naval de Guantánamo.
Direção: Manuel Pérez, 20077.
MONTAÑA DE LUZ - Documentário no qual se desvenda algo que, depois da Revolução, faz parte da realidade cotidiana de Cuba: a presença de profissionais da saúde e de outras áreas (educadores, construtores, etc) transitando nas selvas africanas, entre areais do deserto, ou no meio da imensa pobreza dos países latino-americanos. Quatro equipes de filmagem do Instituto Cubana de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC) conviveram com a população de Honduras, Haiti, Guatemala, Mali, Namíbia, Burkina Fasso e Botsuana, e seguiram as peripécias das consultas, partos e cirurgias, tratando de apreender essências culturais e históricas vitais para visualizar mundos inapreensíveis para turistas em busca de exotismo.
Digna de atenção é a história de uma instituição religiosa dirigida por uma jovem norte-americana entregue aos cuidados de crianças aidéticas. Convivendo, dia-a-dia com a morte dessas crianças, sua tristeza se converte em esperança, a partir do momento que chegam os médicos cubanos. Não mais mortes: as crianças que conviviam com uma espiritualidade piedosa, mas impotente, se preparam para viver, dentro do doce sabor da esperança.
Direção: Guillermo Centeno, 20058.
PIEDRA SOBRE PIEDRA - Documentário sobre o terremoto de 31 de maio de 1970 no Peru que deixou mais de 70 mil mortos e onde estiveram presentes as brigadas de saúde cubanas: médicos (as), paramédicos (as) enfermeiros (as). Santiago Alvarez, denominado pelo brasileiro Almir Labaki “o olho da Revolução Cubana”, um dos mais brilhantes documentaristas atuais, ao registrar as destruições do sismo, afirma: “... os rostos confundem-se: os que resultaram da tragédia do terremoto e os da exploração humana” nesse país que, na época do terremoto, tinha mais de 93% de analfabetos. O filme interessa também, pela documentação de dois aspectos: primeiro, a abordagem inédita de traços do imaginário cultural peruano; segundo, o registro histórico do governo de Juan Velasco Alvarado, presidente do país (1968-1975) cujo governo iniciou um importante processo de mudanças estruturais que, apesar de ser interrompido em 1975, despertou a consciência social dos peruanos sobre questões fundamentais: reforma agrária, participação operária na propriedade das empresas, desenvolvimento de uma política exterior independente e não-alinhada aos interesses dos EUA.
Direção: Santiago Alvarez, 19709.
SOLIDARIDAD CUBA VIETNÃ - Imagens autênticas da guerra imperialista dos EUA contra o Vietnã, onde os EUA lançaram mais bombas que nos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, além das “experiências” com armas químicas e bacteriológicas. O documentário registra a colaboração de Cuba pela doação de sangue, de açúcar, de roupas, etc e a presença de brigadas de saúde cubanas; também a firme posição do governo cubano nas palavras de Fidel: “... paz para uns e guerra para outros não podemos entender: Cuba exige a paz, mas para todos os povos”.
Direção: Santiago Álvarez 10.
Misioneros de la salud - Documentário sobre a Escola Latino-Americana de Ciências Médicas, (onde estudam mais de 10 mil alunos de muitos países, inclusive 90 dos EUA) fundada por Fidel Castro depois do grande ciclone que devastou a América Central para onde Cuba enviou milhares de médicos dos quais muitos chegaram a regiões onde nunca houve nenhum profissional da saúde. Registra depoimentos de alunos dessa instituição e de seus parentes, informando também sobre as atividades do dia-a-dia da escola e dos ideais humanitários a partir dos quais foi fundada.
Direção: Dervis Espinosa, Gabriel Daniel e outros.
CUBA, UM DESTINO - Este documentário nos revela as belezas naturais de Cuba. Reafirma a declaração de Cristóvão Colombo de que essa era a terra mais maravilhosa que jamais olhos humanos haviam visto. A beleza incomparável das praias e de outras paisagens e a expressiva receptividade dos cubanos nos dão uma idéia da natureza e da cultura desse país caribenho.
Direção: Carlos García.
ANDANTE CANTÁBILE (Entre a arte e a Revolução) - Este documentário é uma mostra onde a música, a dança, as artes plásticas, as práticas religiosas e os rituais da “santería” cubana se fundem com os orixás e os santos. Destacam-se os depoimentos de grandes artistas cubanos participantes da polêmica e dos debates a respeito da liberdade de criação, registrando-se, ao mesmo tempo, o grande florescimento das artes e da cultura no país pós-revolucionário, a partir da grande campanha de alfabetização (1961), da criação do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC- 1959), da Casa das Américas (1959), da Escola de Instrutores de Arte (1961), da Escola Superior de Arte (1962), do Instituto Superior de Arte (ISA-1976) e do movimento de artistas amadores nas Casas de Cultura, em todos os municípios do país.
Direção: Rebeca Chávez, 200613.
Cuba, una odisea africana - O documentário apresenta as personalidades mais importantes da luta dos povos da África pela independência, como Patrice Lumumba, Agostinho Neto, Sekou Touré, Amilcar Cabral, Nelson Mandela e outros. Destaca-se o papel do Comandante Ernesto Che Guevara e de Fidel Castro na epopéia da descolonização dos povos desse continente, especialmente a luta no Congo e seu principal líder Lumumba. Ilustra-se convincentemente a intervenção aberta e desmedida da Bélgica e dos EUA, para frustrar os objetivos da luta independentista, que culminou com o assassinato covarde desse preclaro dirigente congolês, com apoio dos capacetes azuis da ONU.
Tais atrocidades provocaram o levantamento armado dirigido por Kabila, a inexperiência, os erros estratégicos e a ação do exército de Mobutu que, apoiado pelos belgas fez com esse movimento libertador fracassasse, apesar dos esforços que o Che e um grupo de instrutores cubanos fizeram para reforçá-lo.
Em 1965, foi organizada a primeira Conferência Tricontinental em Havana, na qual brilhou Amilcar Cabral, líder máximo do Partido Africano pela Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Cuba enviou instrutores e provisões, mas a independência só foi alcançada 10 anos depois. Amilcar foi traiçoeiramente assassinado em 1973.
Na segunda parte, se documenta a luta de Angola, (a mais cobiçada colônia africana), por sua independência com o antagonismo dos EUA, da África do Sul e de outras potências aliadas que usaram como instrumentos a UNITA de Savimbi e o FNLA de Holden Roberto. Angola contou desde a década de 1960 com a ajuda solidária de Cuba, principalmente com instrutores militares. Em 1975, a pedido de Agostinho Neto, o líder do MPLA, Cuba enviou tropas, médicos e outros colaboradores. A união das tropas cubanas (mais de 300 mil homens) com o exército angolano conseguiu destruir os movimentos contra-revolucionários internos no país, expulsar os sul-africanos, conseguindo também a independência da Namíbia e a derrota do apartheid, como expressa Mandela no início do documentário.
Direção: Jihan El Tahri (francesa-egípcia)
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ENTREVISTA - Therezinha Arruda
Historiadora preocupa-se em revelar verdade sobre Cuba e Che
A historiadora Terezinha Arruda, professora aposentada da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), não é uma mulher comum. Aos 79 anos, lúcida, ativa, tem acumulado conhecimento suficiente para que qualquer conversa com ela seja uma aula, sobre Cuba, sobre Che Guevara. Os caminhos pelos quais trilhou, tomando posições incomuns para cada época em que viveu - como a saída da congregação católica salesiana, da qual fez parte por 20 anos, a levou até Cuba. Um país que a professora defende, no intuito incansável de desmistificar idéias sobre o que seja esse foco de resistência. E sobre Che Guevara, ícone da revolução cubana, e o revolucionário mais lembrado por militantes do mundo todo, ela acumula vasto material, capaz de visualizá-lo nos suas exatas características: muito mais que um ícone, mas sim um líder revolucionário e transformador.
Entre os dias 25 e 29, será possível mergulhar nessa ilha e em Guevara, durante seminário na UFMT, com apoio da Adufmat, que alia mostra de fotos, livros e documentos sobre Che, mostra de cinema sobre o revolucionário e Cuba e debates sobre o assunto. A intenção é ainda fechar o evento com uma mostra de música cubana, que, para quem conhece o Buena Vista Social Club, pode imaginar que maravilha é. O pivô dessa idéia é a professora Therezinha Arruda, que já tem adesões de pessoas e movimentos sociais, interessados em expor um outro lado dessa história.
De onde vem este pensamento libertário em uma mulher de 79 anos?
Minha mãe morreu com 98 anos, muito lúcida, nunca me perguntou, nem meu pai, por que eu estava saindo da congregação salesiana. Nunca! Acho que é até por isso que eu tenho essa cabeça, na minha casa havia esse respeito tácito entre nós.
Que interessante...Minha mãe nasceu em 1896, meu pai em 1894. Católicos, de missa diária... Saí da congregação, fui morar com eles, comprei um carrinho, um fusquinha. Eu tinha 43 anos. Foram 20 anos de congregação. Às vezes é bom rever a vida da gente...E continuei trabalhando aqui, na UFMT. Queriam criar o curso de História. A princípio, fui contra, me disseram: que é isso Terezinha? E eu respondi: aqui, em Mato Grosso, não temos um laboratório para pesquisa histórica da nossa região; nossa História vive a reboque dos centros de poder, a documentação está toda dispersa, no Instituto Histórico, jornais do Século XIX serviam de cama para um pobre coitado; por pouco não queimaram todo o arquivo da delegacia do Ministério da Fazenda, com toda a documentação sobre a navegação fluvial Cuiabá-Paraguai-Prata e inúmeras outras. Para trabalhar com os alunos, era preciso um laboratório. Só depois de montar o Núcleo de Documentação (NDHIR) com a assessoria de muitos outros jovens pesquisadores contratados pelo grande e clarividente reitor Dr. Gabriel Novis Neves, criou-se o curso de História.
Saindo da congregação foi que a senhora se encaminhou para uma vida mais política?
Antes disso. Minha mãe nunca aceitou autoritarismo. Meu pai, muito calado, também tinha seu posicionamento. Um dia eu disse para ele, quando ele já estava velhinho: mas pai, tudo está explodindo, não é? E ele respondeu: tudo, menos a cabeça dos políticos.
E quando as questões políticas começaram a mexer contigo? Eu entrei para o convento, porque me apaixonei pela mensagem de Cristo. Por muitos anos, na Igreja Católica não se falava em evangelho, lia-se em latim, ninguém entendia e ficava por isso mesmo. O padre fazia o sermão e aí, um padre italiano, que foi bispo de Guiratinga, dom Camilo Faresin que era muito jovem e tinha uma bela retórica, passava a mensagem de Cristo, um Cristo ser humano e do Cristo de caridade e amor. Então, foi por isso que entrei. Tem quem fale assim: ah, você entrou porque se apaixonou por alguém... Não tem nada disso. Aliás, eu acho que a paixão é horrível, apaixonar é uma coisa muito perigosa. A gente tem que sentir é amor. Inclusive aprendi cedo uma coisa: amar primeiro a mim mesma. Se você não se ama, você não pode amar corretamente alguém. A pessoa que não tem auto-estima não caminha. E isso é uma das primeiras coisas para o educador ensinar: passar ao aluno a auto-estima. A pessoa aprender a se querer bem, independente de reconhecer também as suas falhas e também desenvolver suas potencialidades. Agora a educação que massacra não tem saída. Aí, quando a igreja se abriu com a teologia da libertação, eu embarquei nisso e como as pessoas eram conservadoras, e eu, dentro da congregação, dizia tudo, aí houve atritos internos. Mas comigo saíram muitas de nós, pipocou todo mundo, uma revoada. Elas fizeram o caminho delas, eu fiz o meu. Mas eu acho que as freiras em geral são muito sacrificadas em todos os sentidos, desde a entrega total, até os trabalhos sociais, tudo muito difícil. Essa vivência me deu muita experiência. E saí e continuei a trabalhar na universidade, onde já lecionava desde 1971.
E o que levou a senhora a Cuba?
Como já mencionei antes, fundamos um núcleo de documentação histórico, que daria subsídios a pesquisas. Montamos o museu de arte e cultura popular. Foi feito um levantamento e microfilmados documentos de 8 arquivos de Portugal e da Espanha sobre Mato Grosso. Uma equipe de professores apresentou um projeto e a universidade fez uma reforma para montar os departamentos e nós, o de História. E em 1978, foi criado o curso de História da UFMT. Organizamos os manifestos de navios de exportação e importação de mercadoria de Mato Grosso para a Europa.
Qual é a importância desses documentos?
A importância de reconstituir a história da navegação fluvial e do comércio, desde o final da guerra do Paraguai, em 1870, e que acabam, claro, contando a história de Mato Grosso também. Não se faz história sem documentos. A gente os levava para a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, para microfilmar, eu saía daqui às vezes com 60 quilos só de documentos.
Professora vamos chegar em Cuba?
Então (risos). Eu fui fazer mestrado no Rio de Janeiro. Na Federal Fluminense. Terminei em 1984. Minha tese era "A marca espacial de uma economia periférica em expansão - a via fluvial Cuiabá-Paraguai-Prata". Depois disso, meu marido teve um aneurisma e morreu. Aí entrei em parafuso. Mas em 84 mesmo, Dante (ela é tia de Dante de Oliveira) estava começando a campanha dele para prefeito. Nós tínhamos muita afinidade. Porque Dante participou do Movimento (clandestino) Revolucionário 8 de Outubro (MR8), quando era estudante, durante a ditadura, e quase ninguém na família sabia. Quando nos encontrávamos, a gente escrevia por código e quando eu ia ao Rio também. Ele me pediu para eu fazer a campanha dele, reunir os artistas. E acabei sendo eleita pelos artistas para a Casa da Cultura, após ele ter sido eleito. Trabalhei na Casa da Cultura até 1988. Fui à Cuba em 90 e 91, e conheci a Casa das Américas; isso me interessou. A Casa tem um acervo que é um resumo da cultura latino-americana. Foi fundada no primeiro ano da revolução em 1959 por uma mulher que foi guerrilheira na Sierra Maestra, Haydée Santamaría. Todos os anos, na Casa se realiza um grande concurso literário de todos os gêneros. Fui pesquisar nessa instituição, no Centro de Estudos Martianos e noutras instituições de Cuba.
Mas na época a senhora já conhecia o itinerário de Che Guevara, a luta dele?
Sim, sim, desde a revolução. Che já estava na minha cabeça, por isso eu era chamada de comunista.
Por que a senhora escolheu Cuba para ir fazer sua pesquisa, por afinidade?
Para começar em Cuba, mas eu peguei um visto para o México também. Mas comecei em Cuba porque Cuba tem toda essa marca da latino-americanidade. Faz pouco tempo que o Brasil começou a se abrir para essa Latino América, não é verdade? Mas o país ainda está um pouco de costas para a América Latina, isso se constata.
Por que isso professora?
Talvez um pouco por causa da língua diferente. Mas também porque há uma questão por trás disso: dividir para reinar, não é? Os Estados Unidos não querem a nossa união.
Então estamos de costas para nossos vizinhos por influência norte-americana, que não nos quer unidos, para reforçar sua dominação?
No meu entender, penso que sim.
Quando a senhora fala que Cuba tem as principais características da latinidade, o que seria isso?
É toda a história cubana. Se você observar a posição de Cuba, que era chamada na época colonial de a chave do golfo, a pérola do Caribe, o ante-mural das Índias, por quê? Porque antes do Canal do Panamá, todas as riquezas, todos os navios, do Peru e da Bolívia aportavam em Cuba para sair para a Europa, por causa da pirataria, os corsários ingleses, franceses, holandeses e inclusive os bucaneros do Caribe. E aí então o rei espanhol determinou o regime de frotas: todos os navios, levando ouro, prata e outros recursos, tinham que parar em Cuba. Isso no Século XIV. E Cuba fervilhava. E era o porto de transição. Havana chegou a ser tomada pelos ingleses, por ser ponto estratégico. A Flórida, nessa época, pertencia aos espanhóis. No final do século XVIII, já começa o expansionismo norte-americano. No século XIX, eles tomam dos espanhóis o Texas, em uma guerra suja, a Califórnia, a Flórida. Desde o primeiro presidente norte-americano já dizia que Cuba era uma fruta madura. Que significa isso? Que era uma região que tinha de tudo para cair nas mãos deles. Porque os espanhóis já estavam em decadência. E internamente, os cubanos já estavam fazendo guerra pela independência que explode em 1868 que se interrompe em 1878, sendo retomada em 1895 pelo Partido Revolucionário organizado por Martí. Mas, mas nesse ínterim, havia grupos patrióticos que continuaram a luta pela independência cubana.
Isso no mesmo século da independência do Brasil, não é?
Isso. Uma independência muito frágil a nossa, arrumada pelos ingleses, porque tudo é dominação.
Seria uma característica cubana essa resistência, a luta contra a dominação?
É, é sim. Desde os índios, que fizeram uma resistência aos espanhóis, porque nos 30 primeiros anos de dominação, eles praticamente dizimaram os índios. Numa noite, os espanhóis mataram 3 mil indígenas em Cuba, entre crianças, mulheres e homens, decepando-lhes as cabeças. Não sou eu que estou dizendo, é Bartolomeu de las Casas que descreve. Quando ele viu as barbaridades, foi para a Espanha, se tornou frei e declarou uma guerra de palavras contra a barbaridades espanholas. Mas sempre houve resistência. O índio Hatuey, por exemplo, e seu grupo subiram uma montanha e fizeram resistência por 30 anos. Por fim foi preso e condenado à morte na fogueira. Daí um frade foi dizer para ele - isso não é historinha, é história documentada - e oferecer para ele o batismo, dizendo que ele teria que ser batizado para ir para o céu. E ele perguntou: Mas o que é o céu? Ah um lugar bom e tal. Daí ele perguntou: Mas venha cá, os espanhóis vão para o céu? O cara respondeu: Sim, porque eles são cristãos, você tem que ser cristão para ir para o céu. Ah, ele disse, então eu não quero ir para o céu. Onde estão os espanhóis, estou fora dessa, pode me pôr na fogueira, sem batismo nenhum. Atitude corajosa, com o fogo nos pés...Desde o princípio do século XIX já havia os patriotas que resistiam à dominação espanhola. José Martí, que nasceu em 1853, com 16 anos foi preso, porque fundou um jornal estudantil que se chamou La Pátria Libre. Então antes dele, já havia resistência.
E quando a revolução cubana teve êxito?
Com o triunfo da revolução, em 1959, Che trabalhou como ministro. A primeira conversa que Che teve com Fidel (foi o Raúl Castro irmão de Fidel e presidente em exercício de Cuba, devido à doença de Fidel) que o levou para que conversassem, no México. Che tinha saído da Guatemala, pela derrubada do presidente de lá Jacobo Árbenz pelos americanos e ele foi para o México. Lá, Che era fotógrafo. Era lambe-lambe. Vendia fotos nas ruas, para sobreviver. Che era muito inteligente, tudo que fazia, fazia bem feito. Então começaram a organizar a invasão à Cuba, daí foram presos...e tem outras passagens interessantíssimas. Uma delas sobre o iate Granma, Che foi nele com Fidel. No iate cabiam 20 pessoas, foram 83. E foi aquele negócio chegar até lá, porque em Cuba já havia movimentos revolucionários. O Che foi um dos pivôs na vitória da revolução, porque eles dividiram a ação em colunas. Uma das ações decisivas para a revolução foi comandada por Che. A explosão de um trem que foi de Havana a Santiago de Cuba com 3 mil soldados e munição. Os trilhos arrebentados em Santa Clara estão lá, conservados até hoje. E prenderam os soldados.
Qual é a real importância desse personagem, Che, para os países latinos? E qual a avaliação da senhora com relação à matéria que saiu na Veja, que desconstrói a figura dele como herói, dando a ele uma dimensão de homem violento, sujo, que não toma banho e tal?
Para mim, essa revista e outros órgãos da imprensa mundial são com todas as letras, gazetas da Casa Branca e por tal, realiza seu papel de tentar estraçalhar a moral dos revolucionários. Eu tenho um amigo que foi combatente, junto com o Che, no Congo, África; esse meu amigo tem 66 anos combateu com o Che no Congo, na Guiné-Bissau, na República de Guiné, ele e outros contam que Che era inteligentíssimo e dotado de uma grande sensibilidade humana. Ele diz que era um cidadão irmão de todos e todas que pensam nas injustiças que existem no mundo, e lutam pela justiça. Considerava-se parente na luta e da mesma espécie humana dos que lutam pela verdade, pela justiça, pela paz. Isso é que interessa. Mas é claro, minha filha, ele transcende...em todos os movimentos sociais do mundo é sempre o Che. A mídia, a direita, eu não sei se a direita, ou o que é que é. Mas sei que é essa gente que quer desmontar as grandes figuras, denegrir as grandes figuras. O que falam, por exemplo, sobre Mao Tsé Tung? O quê dizem sobre Ho-Chi-Mim? O que falam sobre tantos heróis que lutaram para libertação dos povos como Lumumba, Amílcar Cabral e outros? Outro dia assistindo aquela cena daquele engenheiro explicando um projeto de uma hidrelétrica em área indígena...Sabe qual a finalidade disso? Provocar os índios (verdadeiros donos da terra e denegri-los (referindo-se ao protesto indígena contra usinas em reserva). Dizer: estão vendo? Os índios são canibais. Outro dia, uma amiga minha, que dá aula de sociologia jurídica em SP, me convidou para falar sobre Cuba. Então, um aluno afirmou: a primeira coisa: em Cuba não existe liberdade de expressão, não existe direito de ir e vir. E eu disse: primeiro vamos discutir o que é liberdade. E depois vamos discutir também o que foi, por exemplo a história de Tróia sitiada pelos gregos; Cuba é uma ilha sitiada, que muitas das proibições são feitas, para preservar o sistema, porque, se abrirem muito, os contra-revolucionários financiados pela CIA entram lá e arrebentam com eles. Poucos sabem que mais de 600 vezes tentaram matar Fidel. Quer dizer, para denegrir a imagem de Che Guevara, eles falam o que eles querem.
Uma das críticas massificadas contra Cuba é que lá não existe liberdade. E isso se consolida quando atletas cubanos fogem, aproveitando que estão em outros países, como aconteceu aqui no Brasil. Como se estivessem negando um modelo autoritário.
Você sabe que existe uma coisa que se chama lei de ajuste cubano nos Estados Unidos? Sabe o que é que é essa lei? Existe entre Cuba e os Estados Unidos - mas ninguém divulga - que os Estados Unidos têm que dar 20 mil vistos por ano aos cubanos, porque, desde o século XVIII, existe esse ir e vir entre Cuba e os Estados Unidos, tanto que as fábricas de charutos da Flórida nasceram com quem? Enroladores cubanos. Por conta de milhões de descendentes cubanos que vivem nos Estados Unidos eles têm que dar esses vistos. Agora você sabe o que eles fazem? Para o cara ir normalmente sem fugir é uma fila dos diabos e aí são meses e meses e meses para conseguir esse tal do visto. Agora o cara foge, chega lá: tem casa, trabalho, comida, tudo. Por causa da lei do ajuste cubano, que Fidel constantemente denuncia, mas a imprensa internacional não diz nada. Para entrar lá então, quem foge é mais fácil, porque vai passar uma imagem internacional de que está fugindo, falar mal de Cuba, aí é bem tratado e entra na lei de ajuste. Cuba é uma casa sitiada. Sabe quanto tem esse ano no orçamento norte-americano, às claras, contra a revolução cubana? 85 milhões de dólares distribuídos à máfia anticubana de Miami. Agora eles não querem que caia o governo cubano, nem o socialismo cubano, sabe por que? É o negócio deles. O que eles fazem é sabotagem, só de mortes por sabotagens a cubanos já são quase 5 mil. E os terroristas como Posada Carriles que derrubou um avião da Cubana de Aviación matando mais de 70 pessoas, entre as quais 55 jovens atletas cubanos, está livre nas ruas de Miami, depois de fugir de uma prisão da Venezuela e de ser anistiado pela ex-presidenta do Panamá, Mireia Moscoso por US$4 milhões.

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