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NOVO PISO: Jornalistas e patrões firmam acordo coletivo de 2017

Da assessoria Após seis rodadas de negociação, mediadas pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Mato Grosso, o Sindic...

6 de jun de 2008

Tem que ter estômago

Por Keka Werneck
Antes mesmo da diretoria do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor-MT) e outros jornalistas acabarem de assentar na refrigerada e polida sala de audiência, dentro do Ministério Público do Trabalho (MPT), na última terça-feira, dia 2 de junho, advogados representantes dos meios de comunicação e alguns patrões em carne e osso já desencadearam uma série de golpes psicológicos, em tom agressivo, esfomeados por nos patrolar, na tentativa clara de desestabilizar a categoria, ali, diante deles, a fazer a luta que nenhum trabalhador pode deixar de fazer sob a égide desse famigerado capitalismo: a luta de classes.

Quando assisto novela, muitas vezes nem penso no que está por trás disso. Parece tão ingênuo o delicioso e apaixonado beijo que o cara mais lindo do mundo, um Gianecchini da vida, desfere em uma sortuda atriz, que caio em devaneios. Mas é o olhar agressivo do diretor executivo da Centro América, a Globo em Mato Grosso, Zilmar Melate, que me tira imediatamente do transe. Na mesa de negociação, ele mostra a serviço de quem esta empresa está, o poder econômico. É Melate quem defende, com toda convicção, que jornalistas devem dirigir carros de reportagem. E quem pagaria a multa? O jornalista, claro. “Eu pago as minhas”, insiste Melate. E talvez, quiçá, quem sabe, o jornalista possa pagar com a própria vida, como o fez o repórter Bruno Kauffman Abud, que Deus o tenha. Ele morreu em acidente de trânsito durante o trabalho. Em que empresa? Rede Globo. A mesma que acaba de ser condenada pelo Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo a pagar indenização de R$ 109 mil, mais multa por litigância de má-fé, à família do moço. A relatora da ação, juíza Jane Granzoto Torres da Silva, manteve a indenização por dano moral e a multa determinadas pela primeira instância. “Os pais entraram com a ação de indenização com o argumento de que sofreram com a perda do filho e que a culpa pelo acidente foi da empresa, que não fornecia motorista profissional para transportar o repórter.” Não sou eu que estou falando. Deu na revista Consultor Jurídico, dia 3 de outubro de 2007.

Desvia daqui e dali, dos muitos golpes desferidos, os jornalistas presentes na sessão de horror ameaçavam perder a calma e a saúde. O advogado do Diário de Cuiabá, (Célio esqueci o sobrenome, que pelos arquivos do Sindicato, é o advogado de sempre do grupo, metódico como sempre, tacanho, frio), disse que é idêntica à dos garis a responsabilidade dos jornalistas. É certo até que, na verdade, alguns jornalistas valem menos que muitos dos garis. Mas é fato também que o representante do Grupo DC queria ali, com aquele comentário, desqualificar a intelectualidade exigida para o exercício do jornalismo, o acúmulo, etc e tal. Não sendo possível vivermos em outro mundo, o jeito é então mesmo conviver com este tipo de lixo social.

Na mesma audiência fatídica, o diretor do Grupo Diário de Cuiabá, Gustavo Oliveira, mentiu. Mentiu quando disse que o Diário contrata jornalistas por R$ 1,1 mil. Só se for na carteira. E pagando por fora. Porque é fato, e todo o mercado reconhece, que jornalistas entram no DC com a promessa mínimo de um salário não inferior a R$ 1,5 mil. Aliás, é assim que o Diário de Cuiabá, a empresa Diário, se gaba de ser a que melhor remunera entre os três maiores jornais de circulação na capital e interior de Mato Grosso, quais sejam, junto com o DC, A Gazeta e Folha do Estado. Teve, no entanto, Oliveira que ouvir da diretoria do Sindicato que paga sim R$ 1,5 mil, mas isso quando paga, sendo apontado como aquele que gere o Grupo onde atrasos salariais são históricos. Teve que ouvir também que os trabalhadores do Diário já nem mais suportam cobrar pelos direitos garantidos em leis. Porém, porém, o DC não respeita decisão judicial. Ou seja, é condenado e tudo fica por isso mesmo. Jornalistas processantes saem então numa cruzada para encontrar algum bem que esteja em nome do DC e não de terceiros, se é que isso seja fato.
A Folha do Estado: não mandou representantes. Mas não sei se teria voz ali.
O Grupo Gazeta: ouviu calado, não interferiu muito, de modo que ficou claro que quem está puxando esse carro são TV Centro América e DC.

Entre eles, é fato, há desavenças, são concorrentes no dia-a-dia, todos estão correndo atrás da mesma bala disparada: o lucro. Diferente de nós, jornalistas, que, apesar de desorganizados, enquanto classe, estamos no mesmo barco.

Tem que ter estômago, companheiros, para estar num ambiente tão insano. E deve ter sido o que a procuradora Eliney Bezerra pensou, ao terminar a sessão, já que sobrou até para ela, como mediadora, agressividade e desrespeito. Talvez a procuradora tenha sido dessa forma atacada por ser mulher. Ou talvez por ser negra, ou quase negra. Ou talvez pelo simples fato dos empresários entenderem que é um acinte questioná-los, enfrentá-los, chamá-los para o debate, seja quem for.

É bom que não se esqueçam, principalmente os detentores de TVs e rádios, que essas são concessões públicas e quem manda em concessões públicas é o povo brasileiro, embora somente aos poucos esteja tomando conhecimento disso.

Cenário desolador? Que nada !! Não é à toa que a principal tarefa do sindicato é mobilizar. Por que sabemos que muitos de nós, jornalistas, temos sim vergonha na cara, honestidade, dignidade, trabalhamos duro, muitos nós somos mães, pais de família, somos honestos, e só não militamos, muitas vezes, por falta de tempo e de compreensão sobre a força do capitalismo, como uma mão invisível a arrancar até o último níquel dos nossos bolsos. E pior, a arrancar nossos direitos garantidos por lei. E pior, arrancar nossos sonhos.
NÃO ESMOREÇAM. Se precisarem, o Sindicato está aqui. E o Sindicato somos todos nós.
Próxima rodada da campanha salarial: quarta-feira, dia 11 de junho, 10 horas, no MPT. Vai lá. E confira com os próprios olhos.
Lei mais sobre a última assembléia e outros assuntos abaixo.

14 comentários:

Rose Domingues, jornalista disse...

Procuro emprego: de gari ou condutor. Patrão querer que jornalista conduza os veículos da reportagem, para mim, chega a ser um soco no estômago. Agora, comparar-nos a garis é de algum modo interessante, porque avalio que circulamos num meio bastante imundo que merecia sim de uma limpeza geral. Corrupção, crime organizado, nepotismo, lavagem de dinheiro. Na terra do Arcanjo, do rei da soja, da pistolagem e da farra na compra de votos, bem que os jornalistas poderiam fazer um motim e começar a jogar a sujeira no ventilador. Será que haveria cadeia para tanta gente safada? Vamos liberar os pobres ladrões de galinha então...

Anônimo disse...

bom, fui lendo e pensando sobre o que comentar com educação e indignação. Mas os comentários da Rose me fizeram rir. Sabiamente ela conseguiu colocar contra o tal advogado a própria frase dele. Na verdade, nós - jornalistas- deveriamos fazer mesmo o papel de gari, mas não podemos... afinal, quem quer ter opinião que abra um jornal. Já dizia Chateaubrian.

Dirigir, pagar multa, pagar estacionamento, entrevistar, escrever, editar, paginar, mexer na rotativa, encartar e depois distribuir o jornal... penso que seria muito egoismo do jornalista assumir a profissão de tanta gente. Não é que somos incapazes. Mas por enquanto, prefiro continuar só entrevistando e escrevendo... o resto, deixa que tem gente especializada para isso no mercado... mas de qualquer forma ainda bem que já sei dirigir...

essa história é de chorar...

Anônimo disse...

ops... o texto acima é meu..
Raquel

dino disse...

É incrível a presença, em uma mesa de negociação, a presença de comparações no mínimo vexatórias como a do gari. Elas são apresentadas por aqueles que preferem a difamação ao jornalista, em uma tentativa desesperada de fugir da responsabilidade com o profissional que é o fator gerador de toda a renda da empresa, do que realizar um debate franco e respeitoso. O fato é que o jornalista é atacado a todo instante e desmoralizado sempre, quando o permite, claro. A todos, desejo que a fase da desorganização seja superada, para que finalmente seja motivo de orgulho voltar a afirmar a sua profissão não somente nas rodas entre companheiros e camaradas.

Andre Godoy disse...

Lamentável a postura dos patrões. Na tv mesmo, é necessário escrever a reportagem dentro do carro para entregá-la a tempo de editar e oxigenar o jornal da manhã, ou tarde (dependendo do horário da equipe). Como escrever e dirigir ao mesmo tempo? Isso me lembra um dia que fui exigir um aumento prometido a mim e o patrão chorou tanto que quase fiquei com dó dele e suas inúmeras fazendas, cavalos de raça, caminhonetes, apartamentos. Coitado dele, ia ficar pobre de me dar um mísero aumentinho....

Andrea Godoy disse...

hho texto anterior é da jornalista Andrea Godoy

Anônimo disse...

O artigo da Keka mostra o lado mercantil dos representantes dos patrões, eles querem reduzir custos, com uma simples canetada, tirar um profissional - motorista- simples assim como se fosse reduzir um parafuso da engrenagem. Na avaliação deles ‘o tempo de choferes para repórter acabou’... esquece o Melati que repórter tem rotina, carro não é para passeio, é o momento que lemos a pauta, depois escrevemos o off, gravamos no próprio carro para que a matéria entre no jornal a tempo, isso sem falar no corre corre para a pauta seguinte, que não pode parar... esquece o senhor Melatti que é a própria Globo a maior assediadora da áreas, que massacra seus funcionários com exigências de exclusivas, pautas no horário, furo de reportagem e tudo mais...
Entretanto, deixando isso um pouco de lado quero relatar que a pior ofensiva, na minha opinião, nessa rodada de negociação foi a tentativa de dividir a categoria entre jornalistas da capital e interior, justamente num momento em que o sindicato começa a unir suas forças a juntar o que está tão separado pelas distancias regionais - vem essa tentativa de desmobilização e desunião. Novamente a TVCA está no comando, alegando o que? Que para trazer jornalista para capital que está no interior - se destacando - é preciso ter piso menor, senão o cara não vem para a Capital - só que o ‘incentivo’ que a GLOBO quer dar é no mínimo que se pode paga pelo profissional, no piso... pode????

Alcione dos Anjos

Martha disse...

Eu sou do tempo em que repórter era repórter, fotógrafo era fotógrafo, cinegrafista era cinegrafista (e ainda tinha direito a um auxiliar) e motorista era motorista.
Eram tempos difíceis por causa da inflação galopante e da censura imposta pelo governo militar, mas, mesmo assim, acho que éramos mais respeitados e tínhamos melhores condições de trabalho.
Infelizmente fomos aceitando muitas restrições por medo de ficar sem emprego ou até por achar que "sempre foi assim".
Admiro a coragem dos colegas que estão enfrentando essa discussão com os patrões e/ou seus representantes e lutando por um pouco de respeito à nossa profissão.
Tem que ter estômago mesmo!

movimento mandato popular disse...

Tem de ter estômago, coração, peito e muita raça pra continuar na luta. E nós temos! (Gibran)

Dalmo Oliveira da Silva disse...

estômago, figado, coração e tudo o mais! parabéns pela qualidade da luta.
Se puder coloque nosso blog nos favoritos daqui.
Dalmo

Anônimo disse...

Esses caras foram tão audaciosos que não sei nem o que pensar. Estou pasma.
Como dirigir e pensar em lead? Quantos motoristas ficariam desempregados? É muita sacanagem.

Débora Siqueira

Anônimo disse...

Amigos e colegas jornalistas,

Lendo a reportagem de nossa colega e Presidente Keka, fiquei imaginando até quanto teremos que aguentar tais situações. Acredito, que demos um grande passo rumo aos nossos objetios, pois quem não tinha nada, conseguimos muitas conquistas, só o fato de pudermos sentar em uma mesa de negociação com os bambambans da midia de MT e um grande avanço! Bem e verdade, que uns se acham o bicho da goiaba, com olhares de superioridade neo nazista, se esquecendo que esse modelo já esta ultrapassado a muito tempo, e que os tempos são outros. Nossa classe precisa entender, que existem associados e associados, e sempre a grande minoria, é que se arrebenta e lava as pauladas para um bem comum. Só que tem um detalhe: Aprendi qua ao longo do tempo, na area que militamos temos que seber ser "bandido e meio, com bandido", pois chumbo trocado não doi!
José Humberto Falcão.
Pre. Abrajet-MT

Anônimo disse...

Gostaria que o sindicato fizesse um convite (intimação) para que o Jornal Correio de Várzea Grande pudesse comparecer nestes debates sobre o piso salarial, já que o mesmo vive atrasando (em ate 3meses) o pagamento do salário, e não paga o piso nem para repórter e nem editor.... e ai d quem reclamar...
Agradeço

Luana disse...

Seria cômico se não fosse trágico a maneira como esses advogados se comportam. Enchem a boca pra falar de coisas que eles não têm o mínimo de moral pra falar. Ainda bem que me livrei de seguir essa profissão que envergonha a sociedade. Advogados, que deveriam ser os primeiros a respeitar as pessoas, respeitar as leis e a moral, muito pelo contrário, aprendem a mentir e defendem causas que provavelmente nem eles acreditam...depois vem falar dos garis...os garis com certeza são muitos mais úteis tentando limpar e organizar a cidade, enquanto esse povo promove a injustiça e o desrespeito. Eu acho que o medo e a desmoralização que eles tentam impor aos jornalistas, agora incluindo os donos dos veículos (tão mesquinhos e ridículos como os advogados),deveria servir de impulso pra uma greve da categoria. Paralização geral. Quem sabe assim eles "entederiam" como é importante mexer no bolso...