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8 de jun de 2008

Procuro emprego: de gari ou motorista de carro da reportagem

Por Rose Domingues

Procuro emprego: de gari ou condutor. Patrão querer que jornalista conduza os veículos da reportagem, para mim, chega a ser um soco no estômago. Agora, comparar-nos a garis é de algum modo interessante, porque avalio que circulamos num meio bastante imundo que merecia sim de uma limpeza geral. Corrupção, crime organizado, nepotismo, lavagem de dinheiro. Na terra do Arcanjo, do rei da soja, da pistolagem e da farra na compra de votos, bem que os jornalistas poderiam fazer um motim e começar a jogar a sujeira no ventilador. Será que haveria cadeia para todo mundo? Vamos liberar os pobres ladrões de galinha então...

Há 10 anos, o piso salarial de R$ 1,050 do jornalista era equivalente a cerca de 8 salários mínimos. Nossa, até assustei quando fiz a conta, pois são R$ 3,320 mil. Hoje, para manter com um padrão mínimo de dignidade é necessário ter dois empregos, ainda assim o orçamento vive apertado. Tenho dois filhos, que requerem diversos investimentos, como escola, plano de saúde, boa alimentação, consultas preventivas ao dentista, roupas, sapatos e atividades de lazer e cultura.

Jornalista também precisa morar, mas se por um lado ganho mais que o mínimo, para poder ser beneficiada com políticas públicas de habitação (há tantos miseráveis por aí), ganho pouco para poder acessar certos financiamentos nas agências bancárias. Mas as frustrações com a profissão não se concentram apenas na questão salarial, mas nas inúmeras páginas de encheção de linguiça, manchetes forjadas, números maquiados e pouco aprofundados. Resolvi que não vou brigar, nem reclamar, tampouco tentar transgredir as preciosas "regras" que aumentem a produção e facilitam esse aumento de produção, gente estou vivendo isso até na assessoria de imprensa.

Como leitora, procuro não ler. Assistir, então, só alguns poucos programas, a maioria na tevê a cabo. Admito que às vezes prefiro me sentir alienada dessa realidade triste e mal divulgada por mim mesma. Sou apaixonada pela profissão que escolhi, talvez isso me dê estômago e paciência para não desistir. Num país de pessoas pouco instruídas e nenhum pouco críticas, deveríamos estar mais conscientes do nosso papel, porque o jornalista por natureza é alguém questionador, provocador e participativo. Acreditemos ou não em "dom", estamos munidos de uma arma poderosa: a comunicação.

2 comentários:

Keka disse...

Os garis prestam um serviço importante para a sociedade, recolher o lixo. Jornalistas deveriam prestar também, recolher o lixo social. E todo cidadão tem obrigação de lutar pela reciclagem desse modelo econômico, que permite tanta desigualdade. Valeu Rose, bj keka

Marcia Raquel disse...

Rose, é essa coragem que falta aos jornalistas e ao povo em geral. Mas é compreensível que as pessoas não se sintam seguras para falar o que pensam e como se sentem com tanta exploração, pois com tanta pressão, com tantas ameaças - mesmo que não sejam declaradas -, o trabalhador vai se fechando e não tem forças para se manifestar, pois como vc falou, temos que comer, temos que morar, nossos filhos têm que estudar... e por aí vai...
Parabéns pelo desabafo e não deixe essa indiganção morrer.

Marcia Raquel