Johnny Marcus entrevista Mônica Salmaso

Mônica Salmaso é uma cantora surpreendente - não exatamente pelo que aparenta, mas pelo que de é. Quem a conhece apenas dos discos tem a impressão de se tratar uma mulher muito formal, de hábitos requintados e falar culto. Mas Mônica fala e ri alto, abusa das gírias, usa roupas estilo hippie e tem um ótimo senso de humor. Mônica é paulista, tem quase vinte anos de carreira com quatro discos lançados. Apesar disso é praticamente desconhecida pelo grande público. Suas músicas não estão nas FMs comerciais e ela não freqüenta programas de auditório. Ela esteve em Cuiabá pela primeira vez pelo Projeto Pixinguinha e conversou com nossa reportagem por quase uma hora e falou sobre MPB, ídolos fabricados pela mídia, download de músicas pela internet e de sua paixão por Chico Buarque.

Entrevista concedida a Johnny Marcus

JOHNNY MARCUS – Tem uma música do Legião Urbana em que o Renato Russo diz que “tem gente que canta procurando Deus e tem gente que canta pra ficar mais perto de Deus”. E a Mônica, canta por que?

MÔNICA SALMASO – Puutz, eu acho as duas coisas e mais um pouquinho, quer dizer, o sentido pessoal talvez seja a mistura das duas coisas. E na verdade procurar Deus pra ficar mais perto dele, é a mesma coisa, né? A procura já deixa você mais perto. Eu não tenho nenhuma religião oficial, mas sou uma pessoa religiosa. Assim, eu gosto de pensar que tem um sentido o que a gente vive. Então eu acho que é um pouco essas duas coisas. Mas também acho que é o meu jeito de comunicar mesmo, de expressar, de fazer contato com as pessoas. Eu sou muito faladeira, muito barulhenta, mas também muito tímida. E cantando, acho que consigo me comunicar com as pessoas. Eu ofereço às pessoas as músicas que acho que têm alguma coisa pra se dizer através delas. Então nesse oferecimento e na resposta que recebo do público na hora do show é uma comunicação que acontece. E eu gosto dela, acho que um dos momentos de gente que eu mais gosto. Eu gosto de show por causa disso. Eu faço contato com as pessoas.

JM – Você acha que a música precisa necessariamente ter uma função social, do tipo política, ou ela é simplesmente uma manifestação artística?

MS – Ela é um fundamentalmente uma manifestação artística. Agora, ela tem graus de alcance. Você pode simplesmente falar de uma experiência pessoal e o público que vê ou que ouve, no caso da música, se identifica com isso e cria, entre o público e o artista uma ligação de identidade e uma comunicação, e aí uma expressão artística. Talvez isso seja o mínimo, né? Talvez o anterior a isso seja o entretenimento, que a arte é capaz de fazer, e o máximo é que através da arte você pode sim ter um papel político. Você está falando com gente, e com muita gente. Você é um falando com um monte de pessoas. Então você tem poderes, digamos assim, e você pode usá-los se quiser. Por isso tem que ter responsabilidade e coerência. Você tem poderes de exposição e de formação de opinião.

JM – Você tem alguma militância? Você participou de uma campanha do Lula fazendo coral em jingles, não é mesmo?

MS – (risos) Foi, mas sou não militante. Agora menos ainda. Estou cada vez mais descrente. Acho que temos que fazer o melhor que podemos no nosso pequeno alcance, no lugar onde a gente mora, estuda ou trabalha. Ali a gente tem que viver nosso melhor possível e é ali que a gente vai fazer um Brasil melhor, porque a política brasileira é uma coisa vergonhosa. A sensação que tenho é que todo mundo só está pensado em si próprio, fazer carreira, troca de partido, troca de idéia, troca de qualquer coisa pra fazer sua carreira. Claro que tem exceções, mas tudo leva a crer que o número de exceções é bem pequeno. É um número muito reduzido de gente séria para uma prática política nojenta, irresponsável e sem o menor amor pelo Brasil. E como eu gosto muito do Brasil, gosto de ser brasileira, trabalho com um material que é a música brasileira, eu tenho orgulho disso. O povo brasileiro é lindo. Eu viajo, sinto e vejo como é o povo brasileiro, como ele é amoroso, como é amigável, receptivo, como é gente boa. Então eu acho que a política brasileira é nojenta.

JM – Quando você fala do alcance do teu trabalho, não se pode deixar de lembrar dos meios de comunicação. Como é o teu relacionamento com a mídia, especialmente com as emissoras de rádio e tevê, já que como cantora você precisa delas?

MS – Eu faço uma música que é um pouco elitista, mas não por opção minha. Eu nunca escolhi isso. Eu nunca pensei em fazer uma carreira pra menos gente. Isso não existe. Todo artista quer, não exatamente que ela seja conhecido, mas que o seu trabalho tenha alcance. Por mim, todo mundo conheceria tudo que faço, e eu adoraria que os discos estivessem absolutamente disponíveis em qualquer lugar. Esse é o sonho de todo artista. Mas acontece que fiz uma trilha muito específica, por selos menores, que têm um alcance menor. Então, a minha carreira vem desde os Afro-Sambas, que foi o primeiro disco, vem caminhando gradualmente, a formação de público que faço é quase toda no braço. Tirando um programa assim como o teu (n.e.: Brasileírissmo – programa de MPB em uma rádio comunitária), que existe, você encontra várias exceções, são idealistas que têm um programa, uma pessoa que gosta muito de música, que tem curiosidade, que aceita e quer saber o que está acontecendo de produção fora das multinacionais, também. E isso é divulgado. Juntando nossa capacidade fazer shows nos lugares com essa ajudas muito localizadas, como é o caso do teu programa, a gente cria uma rede e essa carreira vai crescendo devagarzinho. É assim que sempre foi e é assim que eu gosto. Eu acho que isso tem uma capacidade de identificação com o público que considero mais bonita do que uma música que a pessoa é obrigada a escutar, entendeu? E ela acaba entrando na cabeça da pessoa de tanto que é martelada. A minha não é assim. Ela toca pouco. Ela é tocada só em rádio e programas de tv que têm essa postura e vontade de mostrar essa música. Ela não tem nenhuma injeção financeira ou de lobby pra que seja colocada em rádio ou em novela. Ela não tem isso. A minha é espontânea no meu caso. Ou é um radialista que tem vontade de colocar no programa porque se identifica ou então jornalistas da mídia escrita. Todos os lançamentos tiveram boa aceitação porque acho que as pessoas ficam interessadas neste tipo de produção. Mas é uma coisa idealista.

JM – Você disse que não por opção própria, mas que tua música acaba sendo elitista. Eu não me lembro bem se foi o Caetano Veloso ou Maria Rita que disse que queria distância da chamada MPB, por enxergar nela uma tentativa de elitização por parte da camada mais alta da sociedade. Você considera a tua música como MPB, e nesse caso, no teu conceito, o que é Música Popular Brasileira?

MS – Pois é, este é que o problema. Na verdade, teoricamente, MPB é toda música que não é erudita e acontece em território nacional (risos). Isso é MPB. Mas acontece que tem uma geração que vem desde os festivais, o Chico, Caetano, Gil, Milton, Edu Lobo, o próprio Tom Jobim – que atravessou a Bossa Nova, mas que também fez parte disso. É uma geração com a qual esse nome de MPB ficou vinculado. E eu sinto um negócio engraçado nisso (MPB), porque de alguma forma se congelou nessa geração, que é de fato uma geração premiada. A música brasileira que não é romântica, nem brega ou regional, é MPB. E na verdade o barco está andando. Tem pessoas fazendo música que não é brega, nem romântico e nem axé que faz um tipo de música que combina com essa geração e são outros nomes. De alguma forma essa sigla foi congelada. Eu acho que se você pensar assim “eu faço MPB e quero fazer parte desse elenco”, talvez até pareça querer fazer uma coisa elitista. Mas na verdade eu acho isso só um nome. Eu faço um trabalho que se aproxima da produção musical desses nomes, mas sou de outra geração. Não sei que nome ela tem e nem sei se vai ter um. Talvez o que eu faço seja... (hesita) MPB segmentada, que é uma coisa, um mercado que combina com esse jeito de fazer. Quando comecei a trabalhar, no Brasil estava começando uma coisa chamada mercado de segmento, que são selos menores, lojas meio que especializadas. São programas de rádio que se encantam e que trabalham com esse material. Ou seja, é um tipo de material que infelizmente não está disponível em qualquer lugar. Veio junto com isso também a internet, que salva muito a nossa pele, porque viabiliza as pessoas comprarem nossos discos e mesmo divulgarem. O orkut é o nosso melhor amigo.

JM – Você é muito famosa nos blogs que disponibilizam discos para download. Não te incomoda saber que alguém que poderia ter comprado o teu cd baixou tudo pela internet?

MS – Nem um pouco. Zero. Porque no tipo de trabalho que faço, as pessoas têm dificuldade de encontrar. Então a internet é o meu maior divulgador, se você pensar no alcance que ele tem. Porque qualquer pessoa, de qualquer lugar, pode baixar. Muitas vezes, acontece, ontem a gente estava em Belém, e aí acabou o show e veio um cara pedir um autógrafo e falou assim “olha,eu tenho que te confessar que baixei dois discos teus da internet. Mas tenho um plano que assim que encontrá-los na loja, vou comprar, porque eu quero ter o projeto gráfico”. Claro que a gente faz um disco e prefere que as pessoas comprem, por vários motivos e não é só financeiro. A qualidade do som é melhor, tem o projeto gráfico, tem as fotos. É a mesma coisa que o xérox de um livro. Se puder comprar o disco, ótimo. Se não quiser não tem problema. O que é preciso é que as pessoas ouçam. Eu mesmo falo “olha, o Afro-Sambas está fora de catálogo. Pelo amor de Deus, copiem”. É insuportável ter um disco que você gravou e que ninguém consegue encontrar.

JM – Em outras entrevistas, você declarou que não tem pressa das coisas. Mas depois de tantos anos de carreira, o que ainda falta? Você está onde gostaria?

MS – Eu gosto de onde estou. Eu gosto do caminho que fiz até aqui e sinto que ele é um trilho e que continua. Talvez se minha carreira tivesse acontecido através de um boom de imagem, eu seria uma pessoa mais insegura. Porque isso cria uma dependência de um tipo de exposição que é um pouco artificial. Quando você pega uma carreira que acontece porque foi bombardeada, você fica dependente do bombardeio. Se esse bombardeio sai, você não sabe o que sobra. Como nunca tive isso e venho trabalhando desde o início, vivo da música que faço, e tenho uma vida legal, tenho a sensação de que isso foi conquista minha mesmo. Não minha, pessoal, mas do trabalho. E não tem nada que possa acontecer que vá tirar isso. Eu vou ter que fazer muito disco ruim, seguido, pra perder o que conquistei até agora. É só eu não pirar, viajar, sair fazendo coisas completamente fora do padrão de qualidade que tenho e do conceito que sigo. O público que conquistei até aqui, foi conquistado de fato. Através do trabalho, e não de uma exposição massiva. Então isso dá uma sensação muito boa de conquista, de chão. Eu piso num chão que está mesmo debaixo dos meus pés. Não é um tapete voador que alguém puxa e eu caio.

JM – Tem aquele caso que você conta em entrevista que ao final de um festival da Globo o repórter chega e pergunta “até ontem você não era nada, e agora é uma estrela”. E você já tinha dez anos de carreira.

MS – (Gargalha) Pois é, ali eu entendi muito as coisas. Eles são completamente fora do mundo. A mídia massiva acha que não existe nada além daquilo. É uma ilha da fantasia. Eu falei “amigo, desculpa, primeiro não é que não sou ninguém e virei uma estrela. Eu não virei nada. Eu só apareci na televisão por quatro minutos”. Pra esse negócio que o cara estava falando, a única diferença é que tinha aparecido na Rede Globo, no horário nobre, por quatro minutos. Isso realmente não é muita coisa. Era muita coisa pela oportunidade que eu tive de mostrar o que faço pro Acre, que eu só fui agora, dez anos depois, entendeu? Então era importante que alguém no Acre pudesse ver o que faço. Eu não fui nem pra tentar ganhar (o festival da Globo) porque achava que não tinha a menor chance. Mas eu queria pegar uma música que acho que tem a ver comigo, tratá-la do meu jeito, convidar os músicos com quem eu costumo trabalhar, me vestir da maneira como eu me visto, enfim, fazer o meu trabalho, mesmo que um pouquinho, mesmo que sendo um ET dentro daquela programação, para as pessoas onde eu não conseguia chegar com o trabalho pessoalmente, pudessem ver. Foi o que fiz, e nesse sentido foi bom. Mas eu aprendi um monte de coisas. Aconteceu um troço muito estranho. A Globo tinha gravado uma chamada para este festival que ia ao ar várias vezes por dia usando a minha apresentação. A canção chamava-se “Estrela da Manhã”, e o título só aparecia da metade pro final na música. Daí fui um dia cantar num lugar que era um projeto bem popular, num show de graça no ABC em São Paulo e as pessoas começaram a pedir “Estrela da Manhã”. Eu pensei “que estranho, essa música não está na novela nem nada, só porque apareceu aquele único dia na televisão, já estão assim?” Tá bom, e nem tinha essa música no show e resolvemos fazer. Eu comecei a cantar e ninguém reconhecia a música. Lógico. Um silêncio absoluto. Quando eu falei lá do meio pro final “estrela da manhã”, ahhhhhh (imita uma multidão em delírio), eu pensei, “mas que coisa artificial”. Eu não estou acostumada com isso. Estou acostumada com o cara que conhece uma música e gosta dela, e que quando eu começo a cantar ele já reconhece, porque é a música com a qual ele começou a namorar, que lembra do filho, estava fazendo uma viagem legal, sei lá, todo mundo tem um motivo.

JM – O teu trabalho é muito elogiado pela assim chamada crítica especializada. Existe alguma coisa que você considere importante, mas que ainda não foi percebida?

MS – Tem uma coisa que eu acho importante e que foi sim detectada algumas vezes, mas outras vezes não. Digo isso porque uma vez dei uma entrevista e toquei no ponto e o jornalista quando escreveu, entendeu tudo errado. Eu fiquei tão chateada, porque era o oposto. Mas era assim: o trabalho que faço, a maneira como entendo que cantar é legal, tem a ver com a relação entre o cantor e os músicos. Então aquela idéia que vem herdada dos crooners de orquestra, que o cantor é acompanhado pelos músicos, não é a minha. O que a gente faz é um diálogo igual. O cantor só tem a palavra que o diferencia, que o coloca em outro plano, talvez, porque ele tem a palavra. Mas ele está fazendo música com músicos, e isso é o legal. Então quando troca uma pessoa, sai um músico e entra outro, muda o som e muda a maneira de cantar. Muda o diálogo. Interfere na maneira de cantar. Então eu estava dizendo nessa entrevista exatamente sobre essa relação do cantor com os músicos, e da produção musical de segmentos, que era isso que te falei agora, quer dizer, que eu me sinto às vezes muito mais uma instrumentista, no sentido de música instrumental, do que uma cantora. Porque eu comecei a minha carreira num duo com o Paulo Belinati, que é um super músico, que tem uma carreira de solista muito bonita e independente. E eu aprendi muito com ele. A como conduzir a carreira. A criar esse trilho embaixo do pé e seguir andando fora de uma injeção de multinacional. Aí falei isso pro jornalista e quando ele publicou, ele disse que eu tinha alergia, que eu tinha aversão ao sucesso. Isso me deu um bode. Eu tenho aversão talvez a isso que a gente acabou de falar de “Estrela da Manhã”, que é o sucesso sem consistência. É um sucesso oco, superficial. É um sucesso inventado, que não tem estrutura por trás dele e que infelizmente a indústria fonográfica brasileira, e não é nem brasileira, é mundial, ela tem comprometimentos comerciais tão grandes, ela tem uma necessidade de vendas tão absurda, que ela não consegue investir no desenvolvimento de uma carreira. Ela só quer injetar alguma coisa num produto e vender um monte. Pra ela só vale a pena assim. E se essa venda, essa injeção for artificial, superficial, tanto faz pra ela, ela pega e injeta em outra coisa logo depois. Mas isso é inversamente proporcional ao que me interessa. Eu posso andar devagar, contato que eu crie um tijolinho em cima de outro tijolinho e que ao final eu tenha uma casa.

JM – Mônica, uma pergunta três em um, tá?

MS – Tá.

JM – Você ainda é apaixonada pelo Chico Buarque? Como foi gravar “Noites de Gala, Samba na Rua”? E o que ele achou do disco?

MS – (outra gargalhada antes de responder) Então, é assim. Eu sou completamente fã do Chico Buarque. E quem não é, né? Na verdade, desde criança tenho dois compositores que são pra mim os pilares. Eu falo assim que eles não são só mestres de educação musical. Eles são mestres de educação emocional. Porque eu era criança e ouvia o Chico e o Dorival Caymmi. Eles são os dois compositores brasileiros que eu mais conheço desde antes, de quando eu era pequena, e por quem tenho muita identidade. Depois que virei cantora, eu sabia que em algum momento na carreira eu faria um projeto com músicas só de um quanto do outro, porque eu acho natural, porque chega uma hora na carreira, que os cantores fazem esse tipo de volta pelo cancioneiro, que nem as cantoras americanas gravando Cole Porter. É legal. É um exercício legal. Só que eu acho cedo fazer isso pra minha carreira agora. Acontece que primeiro eu fui convidada, acho que em 2004, pra fazer um show só com músicas do Chico pra uma exposição sobre ele no Rio. Aí eu montei esse show. E aí, esse show – que ficou uma delícia, continuei fazendo paralelamente ao Iaiá, que era o disco que eu estava trabalhando ainda. Iaiá já tinha uns dois anos e eu continuei fazendo esse show. Daí, eu recebi o convite absurdo convite pra cantar com ele no “Carioca”. Eu não conhecia o Chico, nunca podia imaginar que isso pudesse acontecer, aí pintou um telefonema pra eu cantar no disco dele, que ele queria que eu cantasse no disco dele, e eu falei “em nome Deus... eu posso ir agora. Imediatamente.” (risos) Aí eu fui, conheci o Chico lá no estúdio. Ele foi muito gentil, ele é muito educado, muito legal. Me deixou super a vontade. Eu estava nervosíssima. Aí isso aconteceu e na hora de pensar no disco novo que ia gravar, primeiro que eu já tinha mexido nesse material, depois tinha acontecido esse convite, achei que era um jeito legal de retribuir esse convite. Então perguntei se ele não se importava, se não me achava oportunista. Ele achou super legal. Ele falou “nossa, claro. Vou adorar. Já estou curioso”. Daí não incomodei mais ele e fui gravar o disco. Convidei o Pau Brasil, a gente fez a seleção de repertório e gravamos. Quando a gente estava mixando, ele pediu pra ouvir uma cópia. Aí a gente mandou uma cópia pra ele. Depois ele me ligou no celular e foi super bonitinho. Porque ele ligou e caiu direto na caixa-postal. Daí fui ouvir o recado e estava lá o Chico Buarque falando: “olha, que bom que você não atendeu, porque eu vou ficar sem graça de falar com você, mas quero dizer que estou muito emocionado, que eu adorei o disco. Que bom que você não atendeu porque com a máquina é mais fácil de falar, que estou muito emocionado”. Daí falei putz, agora que tenho que ligar pra ele, né? Aí eu liguei, rezando pra ele não atender também. Daí ele não atendeu e eu falei “oi Chico, é a Mônica, que bom que você não atendeu!”(risos) Daí eu comecei a deixar o recado e ele atendeu, porque era secretária eletrônica, aí ele atendeu e eu falei putz, agora vou ter que falar com ele. Dois tímidos. Mas foi super legal. Ele falou que estava super emocionado, que adorou a seleção de repertório, que adorou os arranjos e tal, e aí ele me convidou junto com o Pau Brasil pra fazer um show juntos no Circo Voador – que foi bonito. Foi o último show do cd dele, “Carioca”, e o primeiro do meu. A gente fez meio a meio, e a partir dali, no outro dia, eu voei pra São Paulo pra começar a temporada de lançamento. Então foi bonito, foi assim meio simbólico. Um aval do compositor. A gente ficou feliz.

JM – Pra finalizar, você sabe alguma coisa sobre a música que é produzida aqui em Mato Grosso?

MS – Não. Lamentavelmente não. E é uma vergonha isso. Mas vou dizer uma coisa pra você que aprendi muito com esse projeto Pixinguinha. Em 2005 foi a primeira vez que viajei com o projeto e a gente tomou um caldo feio. Porque nós que moramos em São Paulo e no Rio, a gente tem a idéia de que somos o centro, e o Brasil trabalha com a idéia de que o centro cultural do que acontece no país mora ou em São Paulo ou no Rio. E na verdade, os ilhados somos nós. A gente é ignorante do que acontece no resto do país. E fora de São Paulo e Rio, as pessoas sabem o que acontece tanto lá como no resto do país. A gente tomou assim cada caldo vergonhoso. Eu voltei pra São Paulo morrendo de vergonha, porque eu cheguei por exemplo, em Belém. Lá, eu até conhecia o Waldemar Henrique, que é um compositor muito importante, paraense e tal, das antigas. Mas eu cheguei e tomei um susto. Fui fazer uma entrevista na rádio e nossas músicas eram muito tocadas e eu nunca tido ida lá. Quando fomos fazer o show, éramos eu, Lui Coimbra e o Lula Barbosa. Os três pela primeira vez em Belém, e os três com trabalho pra mostrar. A nossa postura era assim “somos do sudeste, viemos mostrar nossa musica e tal” e o público cantou junto o show inteirinho. E a gente foi ficando mal, porque era uma sensação de ignorância mesmo. Infelizmente a produção daqui (Mato Grosso) não chega em São Paulo. Então se não tem ninguém pra me mandar, pra me enviar, eu não tenho como ouvir. Lamentavelmente eu não conheço e estou esperando sair do show com algum cd daqui (risos).

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