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5 de jan de 2008

ENTREVISTA COM RENATO ROVAI - PARTE II

“Infelizmente é sujo, é imundo o esquema de sustentação dos jornais”

Demorou mas chegou! Na segunda parte da entrevista com o jornalista Renato Rovai, ele fala um pouco da sua experiência com a Revista Fórum, uma das referências na imprensa alternativa no Brasil. Outro assunto abordado foi o tema do seu livro “Midiático Poder – O caso Venezuela e a guerrilha informativa”, lançado em julho de 2007. E como a discussão principal é a democratização da informação, não poderíamos deixar de falar sobre a relação, na maioria das vezes promíscua, entre a chamada grande mídia e os poderes constituídos.


Márcia Raquel – A Revista Fórum nasce num contexto de união dos movimentos sociais buscando uma alternativa para os movimentos de comunicação que estavam postos na época e hoje ela já está no sexto ano. Como está a Revista nesse contexto e como ela vem se sustentando.
Ana Karla – Também queria que você explicasse como é esse projeto e como ele começou.
Rovai – A Fórum tem seis anos Era pra ser uma edição só. No Fórum Social Mundial em 2001, a gente ia fazer um registro do evento e fez o que a gente chamou de número zero e o pessoal gostou muito. Alguns parceiros nos incentivaram a dar continuidade ao projeto. A gente aceitou o desafio e começou a fazer bimestral. Durou três anos. As 18 primeiras edições foram bimestrais e desde a 19ª até agora ela é mensal. A gente está na 55ª edição. Tem 20 mil exemplares, 12 mil em banca, 8 mil entre cotistas, que são aqueles que compram volumes de assinaturas, entidades, tem os assinantes individuais, aquelas pessoas que recebem como cortesia. A venda em banca a cada edição varia de 5,5 mil a 6,5 mil. Então é uma revista pequena, é distribuída em seis cidades do Brasil. Ela é hoje talvez a segunda maior revista no gênero dela. Eu acho que a gente tem mais leitores que a Piauí, suspeito, porque eles não têm esse sistema de quotas, e que a Caros Amigos a gente tem menos, ou deve estar por ali, junto com a Piauí. A Piauí tem maior distribuição em banca, mas não deve ter esse volume de assinantes.

Márcia Raquel – É difícil manter uma revista assim, declaradamente de esquerda?
Rovai – É muito difícil. Ela é segmentada, é um produto posicionado, ela se pauta pelos movimentos sociais, pelo debate da sociedade organizada, pelos intelectuais de esquerda, não tanto pelos políticos porque a gente não trafega muito na esfera partidária porque até na esquerda tem disputas partidárias.

Johnny Marcus – O nosso polemista mor, Enock Cavalcanti, não concorda muito com uma revista segmentada. Ele acha mais interessante num mesmo espaço ter opiniões totalmente antagônicas...
Rovai – Eu acho que pode até ter uma revista assim, mas acho que essa não é a forma. Essa é a questão.

Ana Karla – Por que você optou por um formato de esquerda?
Rovai – Porque ela nasceu num movimento social cuja inspiração é de crítica a globalização neoliberal e onde se organizam pessoas fundamentalmente desse espectro político. De algum jeito ela é a representação simbólica desse movimento. Ela não é a revista do Fórum, mas ela tem um compromisso. Para uma revista mensal, com um número de páginas limitado, você tem que estreitar, cada fechamento é um desespero, tem coisas que caem, tem coisas que a gente manda pro site, matéria que nem faz porque sabe que não vai usar porque não tem espaço...

Johnny Marcus – Quando ela passou a ser impressa com papel reciclado?
Rovai – No quarto ano.

Aruanã Costa – A forma como ela é editada, a forma como ela é elaborada, ela passa por um conselho editorial, como é essa dinâmica dentro da revista?
Rovai – Hoje a redação toca e às vezes a gente conversa com o conselho muito mais pedindo sugestão de pauta e tal. Porque a dinâmica te impõe isso. A Fórum é uma revista que ainda tem dificuldades, mas como a editora é mais ampla do que a Fórum, outros serviços às vezes subsidiam parte dos custos da revista. O aluguel da editora, a Fórum não tem como pagar, o meu salário ela não contribui com nada, eu não sobrevivo da Fórum. Ela paga os funcionários mais diretamente envolvidos, a impressão...

Ana Karla – Quantos profissionais são envolvidos?
Rovai – Tem um editor do site, um editor da revista, uma estagiária, uma editora de artes, e aí tem vários freelancers, e os colunistas.

Ana Karla –
Você saiu do jornalismo convencional e se propôs a fazer um veículo segmentado, o que você tem de experiência pra passar? É uma realização mais pessoal? Como você analisa o futuro do mercado segmentado?
Rovai – A Editora existe sete anos antes da Fórum existir. A gente fazia uma prestação de serviço, era uma assessoria de imprensa, mas não trabalhávamos com assessoria. Essa editora fazia produção editorial, fazia livros, revistas, newsletters, fazia produção editorial, só. Eu editava a revista do Sindicato dos Bancários pela editora. Esse é um movimento já antigo, tem muitas pequenas empresas hoje na área da comunicação que prestam assessoria. Eu acho que o que poderia ser interessante é elas começarem a também produzir veículos de comunicação segmentados, pelo menos por Internet, aproveitar que tem uma mão-de-obra ali e em vez de ficar só prestando serviço pensar em alguma coisa e ir democratizando a informação. As grandes estruturas vão permanecer, mas eu acho que vai abrir um espaço para que um jornalista tenha um site especializado na sua área. A Internet é um meio novo, ela tem muitas possibilidades.

Aruanã Costa – Você edita a Fórum, escreveu um livro que conta a história de um golpe que foi mascarado pela mídia globalizada, retomando aquele ponto da militância, até que ponto você acha que hoje você atua de forma militante no jornalismo. Porque não deve ser fácil, você mesmo disse que seu salário não sai da Fórum, então talvez seja uma forma de você dar sua contribuição, porque é um tipo de informação que interessa a muita gente mas que não é valorizada e não tem o devido espaço, ela não é um contraponto com a informação convencional.
Rovai – Eu acho que eu sou um militante da democratização dos meios de comunicação. Não tenho dúvida disso. Eu tenho certeza que quando eu venho pra cá, conversar com vocês, eu to fazendo isso, é militância. Fim de semana tal, conversando, discutindo e trocando experiências para trazer coisas que me enriqueçam do ponto de vista profissional, ao ver as experiências que vocês estão fazendo, ao enxergar as mudanças no movimento sindical, isso me alegra. Outro dia eu fui para Minas e encontrei uma garotada, muito mais jovens que vocês (risos), o presidente tinha 22 anos, no sindicato dos radialistas. Vocês estão numa geração abaixo da minha (risos). Por isso eu acho que está tendo uma renovação saudável nas pessoas que estão militando nessa área. Eu já estou virando um dinossauro, o que não é ruim, é bom, porque eu tenho 40 anos só e já tem gente entrando aí, falando. Então o que eu tenho tentado é contar um pouco da minha experiência. Mas tem o movimento como o Intervozes, que é um movimento que atua nessa área de comunicação, tem uma garotada de 25, 28, 27, 30 no máximo, eles estão ali pleiteando TV digital, discutindo concessões... Tem o pessoal do Núcleo Piratininga (NPC – Núcleo Piratininga de Comunicação) que já é uma geração anterior a minha, e é legal que esses espaços interajam. Eu sou militante da democratização da comunicação sim. Primeiro porque eu acho que é uma área onde precisa de democracia e não respira democracia como outras. Fala tanto em democracia, cobra tanto do governo seriedade, moralidade e é onde a gente sabe que se fosse fazer uma investigação dos donos de jornais, rádios e de TVs desse País, não ia ter cadeia pra colocar esses caras. Porque infelizmente é sujo, é imundo o esquema de sustentação dos jornais. Essa história do Marcos Valério, por que ocorre daquele jeito? Onde era o esquema? Era na comunicação. Como que faz isso? O cara dá nota, pega nota, tem que ter um veículo envolvido. E depois a discussão ficou sempre torta. Você só lava dinheiro com veículo, a agência tem que faturar pra alguém. Ela não pega o dinheiro do governo e acabou. Olha, os grandes veículos põe metas para essas agências trabalhar pra dar a bonificação por volume (BV), isso é normal no mercado, e BV é corrupção. E eles já institucionalizaram isso.

Ana Karla – Explica isso melhor...
Rovai – Por exemplo, você tem a editora X, ela chega lá pra agência e diz assim: se você conseguir R$ 10 milhões de publicidade na conta da Petrobrás eu te dou R$ 1 milhão, além da comissão. Aquela agência, se mata pra conseguir aqueles R$ 10 milhões da Petrobrás, aí ela não coloca anúncio da Fórum porque ela precisa atingir a meta. Como se fosse um bancário, a meta pra aquela editora, para aquela rede de televisão, sabe aquela rede... você pega as contas do governo, mais ou menos metade vai pra TV Globo. É muito dinheiro que circula aí, estou falando só das contas governamentais.

Aruanã Costa – Guardada as devidas proporções, isso acontece em todas as esferas de poder.
Rovai – Eu fiquei sabendo aqui que a Assembléia Legislativa faz anúncio, é um dos maiores anunciantes do Estado. Isso é um vexame, aliás, deve ser uma das poucas Assembléias do Brasil que faz isso. Eu desconheço outra. Por que é um dos grandes anunciantes? Porque com certeza deve ter um esquema malandro aí de troca e eles precisam operar os interesses, é evidente.

Aruanã Costa – O que estranha é que isso é uma constatação tão lógica é absurda, mas que não é veiculada nos jornais...
Rovai – Mas é claro que não, eles recebem os anúncios. Ou seja, você cria um esquema malandro pra calar a mídia. E mais do que tudo isso, muitos desses veículos, se você fosse fazer uma investigação fiscal séria já não ia dar. A gente já fez várias matérias contra a Veja, teve a capa da Globo, falando das concessões, a gente mostra uma série de irregularidades... Você sabe que em São Paulo 55% das rádios hoje, a gente deu isso na Fórum, tão ilegais. Das rádios comerciais, elas não tem a renovação legal, ta tudo vencido.

Ana Karla – Vamos mudar de assunto porque senão essa entrevista não vai terminar nunca. Eu queria que você fizesse uma avaliação do seminário e da sua vinda a Mato Grosso.
Rovai – Essa vinda a Mato Grosso foi muito interessante. É curioso porque em alguns estados do Brasil você acaba indo só quando aparecem as oportunidades, você não tem nenhum amigo ou referência, e assim aconteceu com mato Grosso. É interessante quando você que tem pessoas querendo fazer o mesmo debate que você está fazendo. Então isso hoje é instigante, as pessoas estão querendo discutir alternativas pra comunicação, pra sua ação humana, pra poder ter um novo espaço de construção, enfim, estão incomodadas com esse domínio que às vezes a gente conhece de alguma manifestação e conhece outras a cada lugar que visita, por exemplo essa da Assembléia Legislativa. É uma forma de domínio claro pelo esquema midiático, pelo cala-boca. Então a vinda aqui foi bem produtiva. O debate eu achei bem legal. Eu gosto de discutir os limites éticos da profissão, isso me interesse. E sempre discuto na base da reflexão, não das convicções, das grandes defesas.

Márcia Raquel - Eu queria que você falasse um pouquinho dessa tua experiência na Venezuela e qual é a lição que você tira e que você repassaria para quem vai ler ou está lendo o seu livro.
Rovai – Eu acho que o caso da Venezuela é emblemático no que a gente está vivendo hoje na disputa midiática. Como a mídia se construiu como um espaço de poder e como ela é utilizada de uma maneira muito pouco democrática, ela vem sendo instrumento de poder não para ampliar as liberdades, ela tem sido instrumento de poder em geral para capturar liberdade, pra se associar aos grandes projetos econômicos, pra abrir espaço para a indústria cultural e não para abrir espaço para as manifestações culturais populares e às vezes até para derrubar governos democraticamente eleitos que foi o que ela fez lá. O que eu tento fazer no livro, que é diferente do mestrado, é mostrar como essa construção se dá, mostrar como o jornalismo vai chegando a um ponto de mentira sob mentira, de invenções, porque constrói um inimigo pontual, que no caso lá é o Chaves, e vai pra guerra contra isso. E às vezes se utiliza de instrumentos que nós somos absolutamente proibidos de utilizar, como inventar declarações e histórias. Aqui no Brasil, nessa última eleição, por exemplo, nós vimos coisas absurdas, o cara dar coletiva em off, eu nunca vi isso na minha vida! “Olha, vamos fazer o seguinte, a gente faz um acordo e vocês vão ter acesso às fotos do dinheiro, mas isso aqui é em off tá”. E todo mundo respeita! Quer dizer, isso é conluio, isso é organização mafiosa, não é off. O cara está acompanhando o processo e tira foto de uma coisa que está na guarda dele e sai divulgando para interesse qualquer que seja e aquilo foi tratado pela imprensa como uma coisa normal, não foi discutido. Então no livro eu vou discutindo como essas coisas às vezes param de fazer parte do nosso cardápio de debates. E na Venezuela vale tudo na mídia. E o pior é que o vale tudo acaba não sendo bom para os meios. Lá por exemplo, a conseqüência é que eles perderam tudo, perderam audiência, perderam tiragem, perderam credibilidade.

Aruanã Costa – Qual seria a conseqüência mais drástica para a sociedade? Esse ambiente é sentido pela população como uma farsa mesmo ou como uma desinformação generalizada?
Rovai - Na Venezuela as pessoas perceberam claramente o que aconteceu. Aqui no Brasil ainda é muito confuso. Mas por que apesar de toda a campanha contra o Lula e contra o PT, por exemplo, uma grande parcela da população decidiu não ir com a mídia? Porque ela já percebeu que tem muita fantasia. Eu acho que a mídia deveria tomar mais cuidado ao entrar nesse tipo de jogo, como entrou na Venezuela. Aqui no Brasil ela quase esbarrou nisso, a Veja entrou, a Globo passou do lado mas soube sair. Mas Veja entrou, e eles tiveram que dar uma baita recuada e organizar o projeto agora.

Aruanã Costa – Nos dias que você ficou na Venezuela o que te chamou mais atenção?
Rovai – Eu acho que foi um novo modelo de golpe. Eu defino dois golpes na Venezuela. Um é midiático-militar, que é o golpe clássico da tentativa de tirar o (Hugo) Chaves, e tem um que eu denomino de midiático-econômico, que é quando eles param todo o comércio, a produção, fecham os postos de gasolina e a mídia faz publicidade dia e noite contra o Chaves. Esse golpe é moderníssimo. Também não deu certo, foram 74 dias, fechou tudo, o País parou, colocaram caminhão interrompendo estradas, parou a produção de petróleo, produção zero. Foi uma guerra para retomar a produção, o Chaves teve que chamar gente de outros países para retomar. Eu localizei logo que tinha uma disputa midiática e comecei a pesquisar mais nesse campo. Tanto é que no livro eu não falo muito da história da Venezuela, eu vou discutir os veículos de comunicação, porque eu acho que ao reportar o que aconteceu ali, na hora que acontecer em outro lugar as pessoas vão perceber que isso já aconteceu na Venezuela.

Ana Karla – Pra encerrar queria que você fizesse uma breve avaliação do governo Lula e a relação que ele tem com o Congresso Nacional.
Rovai – O governo Lula é um governo de composição. É um governo que tem diferentes espectros políticos. Ele ganhou a eleição assumindo claramente que seria um governo desse jeito. Quando ele faz aliança com José de Alencar, no PL à época, para quem sabe ler política não precisa dizer mais nada, porque o governo era um governo de composição. E num governo de composição tem coisas que significam avanços e outras que não significam avanços, algumas até retrocesso. No geral os governos anteriores foram muito conservadores, mesmo o governo de Fernando Henrique, que em tese parecia ser um governo moderno, foi muito conservador porque foi o governo das privatizações e o modelo das privatizações que aconteceu aqui foi entreguista. Eu acho que nesse sentido é um espaço de disputa e que alguns movimentos populares entenderam isso e estão disputando esses espaços. Eu não acho que seja o governo da tragédia. E acho que a relação que ele tem com o Congresso não é das melhores. A nossa história de representação parlamentar é muito fisiológica. E o Lula dificilmente entra numa disputa trucando e dando seis, ele sempre vai tentar conciliar. E ele usou isso no Congresso. Eu não gosto dessa relação, eu acho ruim. É uma relação meio promíscua, de carguismo. Acho que poderia ter um processo mais civilizatório, mas precisa da reforma política pra isso também.

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