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NOVO PISO: Jornalistas e patrões firmam acordo coletivo de 2017

Da assessoria Após seis rodadas de negociação, mediadas pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Mato Grosso, o Sindic...

10 de dez de 2007

Entrevista Rovai – Parte I


“É mais difícil democratizar a comunicação do que fazer reforma agrária no Brasil”.

O mito da imparcialidade dá lugar à honestidade com o leitor. Além da necessidade de democratizar a comunicação, Rovai defende a transparência na linha editorial dos veículos.

“Tem um amigo meu que diz que esse pessoal das rádios tem tido muito espaço de conversa com as pessoas do governo Lula, e isso é muito interessante porque antes tinha menos. Só que esse espaço tem sido na sede da Polícia Federal. Tem cinco mil processados”.

Natural de Santos (SP), Renato Rovai conheceu Mato Grosso no final do mês de outubro último. Editor da Revista Fórum, que nasceu juntamente com o Fórum Social Mundial, em 2001, Renato foi convidado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região para dar uma palestra sobre a relação entre a mídia e o judiciário.


Aproveitando a sua visita, o Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor) promoveu um bate-papo com Rovai para que ele pudesse falar sobre o seu livro “Midiático Poder – O caso Venezuela e a guerrilha informativa”, que acaba de ser lançado. Mas, como as histórias são muitas e a troca de experiências é uma das melhores formas de aprendizado e de despertar o interesse pelo diferente, o Sindjor decidiu explorar um pouquinho mais o nosso visitante e fez uma entrevista que, devido à riqueza do debate, terá que ser veiculada em duas partes.


Esta entrevista foi concedida na noite de 21 de outubro, no Hotel Deville em Cuiabá. Foram duas horas de boa conversa que só se encerrou devido ao cansaço do nosso entrevistado - em três dias Rovai falou praticamente o tempo todo sobre jornalismo e ainda arrumou uma folguinha para conhecer Chapada dos Guimarães.


Nesta primeira parte da entrevista, Rovai fala da sua entrada para o mundo do jornalismo, da sua militância política, das dificuldades e desafios da profissão, de rádios comunitárias, de democratização dos espaços de comunicação e questiona a exigência do diploma, entre outros assuntos.
Participaram da entrevista: Márcia Raquel, Ana Karla Costa, Johnny Marcus, Aruanã Costa, Maíra Sardinha e Eryca Monteiro.

Ana Karla – Acho que você poderia começar falando um pouquinho do seu perfil.
Renato Rovai – Fiz graduação na universidade Metodista de São Paulo. Entrei em 1985, ou seja, bem naquele burburinho de redemocratização. Tinha passado pela campanha das Diretas em 1984 e eu entro logo depois da derrota das Diretas Já, com o Sarney assumindo. O movimento estudantil era muito fragmentado, e acho que é até hoje, então tinha muitas tendências, muitas correntes e já tinha aquele pessoal que vinha do movimento secundarista, que não era o meu caso, eu fiz colégio estadual até 8ª Série e depois fiz colegial em escola privada de Santos (SP). Eu tive formação política por conta da história familiar, meus tios eram militantes do partido comunista, meu pai era um simpatizante de esquerda, um comunista de boteco, aquele gênero que até hoje existe muito. Quando eu entro na faculdade começo a conviver com aquela fauna política que era diferenciada. Eu tinha uma formação de esquerda, mas estava com 17 anos, ainda estava muito cru. Hoje quando eu vejo o pessoal da minha idade, ou um pouco mais velho, falando “essa geração é muito idiota, não sabe o que faz”, mas a gente não sabia também, as pessoas esquecem do que elas foram, são muito cruéis na análise das gerações subseqüentes. Bom, entrei no movimento estudantil assim, meio sem saber exatamente o que era e comecei a militar numa corrente que nem sei se existe mais, que se chamava “Caminhando”, que era corrente que tinha saído do PCdoB e tava dentro do PT junto com o Genuíno, que era a referência político-partidária daquela corrente. Mas eu não curtia muito a coisa de ser organizado, ser enquadrado, então eu dizia assim: simpatizo com a Caminhando vou votar naquilo que eu achar que não fere os meus princípios e aquilo que eu achar que é um jogo muito duro eu tô fora. Fui presidente do Centro Acadêmico em 1987, tive uma militância partidária no PT, durante 1988 e 1989, partidária mesmo, fui filiado.


Aruanã Costa – Já existia algum jornal que vocês atuavam?
Rovai – Na época da faculdade era engraçado, a CUT (Central Única dos Trabalhadores) não tinha quase nenhum sindicato, tinha muito menos que as outras correntes. A força Sindical não existia, era CGT, que atuou na época da Ditadura sendo conivente com algumas coisas, fazendo jogo. A CUT estava começando e disputava muita eleição de oposição, então a gente, os estudantes, ali do ABC e de outras cidades, o que faziam? Ajudavam essa relação que iniciou muito no diálogo com as oposições sindicais. O Centro Acadêmico se oferecia para ajudar e aí os caras pediam pra fazer boletim. Fazíamos e aprendíamos. E fazíamos muito esses materiais, fazíamos para os candidatos que a gente apoiava.


Johnny Marcus – Você entrou na faculdade com 17 anos, tinha algum motivo especial pra fazer jornalismo na época?
Rovai – Eu gostava muito de futebol, então eu comprava os jornais de futebol pra ler desde moleque, eu queria ser jornalista esportivo. Aí teve a campanha das Diretas, envolto naquela coisa, eu comecei a ler os jornais de política e como eu já era um leitor de jornal, comecei a comprar pra ler todo dia de manhã, só que em vez de comprar o de esportes eu comprava o outro. Em casa sempre teve jornal também. Eu lembro que há 10, 15 anos atrás (eu contei essa história pro (Ricardo) Kotcho e ele morreu de rir), eu lia a Folha de São Paulo e o Ricardo Kotcho escrevia quase todas as matérias de guerra, e eu falava, puts eu quero ser igual a esse japonês (risos)!


Ana Karla – Então você acha que jornalismo é vocação?
Rovai – Então, deixa até eu fazer um parênteses. Eu tenho que ser franco, eu não tinha muita leitura, eu lia jornal. Eu lia livro muito esporadicamente, na minha adolescência eu li pouquíssimos livros. Estudar já era um sacrifício, eu ia pra praia, chegava em casa, deixava os livros e saia desesperado pra jogar bola na praia, fazer qualquer coisa, menos ficar dentro de casa.


Johnny Marcus – Como que esse momento político, essa conjuntura se refletia na sala de aula?
Rovai – Na Faculdade era um turbilhão, qualquer coisa que você falasse você era peemedebista, ou você era conservador, ou você era de direita, todo mundo se posicionando, tinha duzentas correntes, ainda era muito forte o PMDB porque o PCB ainda estava dentro do PMDB, o MR8 estava e o PCdoB também estava. O debate era muito grande, as disputas para Centros Acadêmicos pareciam que eram para presidente de República. Eu acho que isso ainda tem um pouco...


Márcia Raquel – Então já na faculdade você percebeu essa sua tendência para o jornalismo político e abandonou o jornalismo esportivo?
Rovai – Já na faculdade tinha abandonado, mas acabei indo trabalhar no jornalismo esportivo, no Diário Popular em 1992. Trabalhei três meses e odiei. O caderno de Esportes do Diário Popular era o melhor de São Paulo. A tiragem do jornal de domingo era maior por causa do esporte. Só que tinha uma boa equipe, o caderno era a menina dos olhos...


Johnny Marcus – E você deixou por quê?
Rovai – Porque achava um saco cara. O diálogo entre os colegas de redação era aquela coisa muito “clube do Bolinha”, só futebol o tempo todo...


Ana Karla – Você torcia para qual time?

Rovai – Eu torcia e torço pro Santos. (risos)

Ana Karla – E você era meio tendencioso nas suas matérias?
Rovai – Não. Acaba que você não consegue nem fazer isso. O Santos ainda era um time ruim pra caramba na época, é em 1992 não era lá muito bom não. Eles até mandavam eu cobrir Santos, mas você não influencia no resultado do jogo, não tem jeito. Quando você tá cobrindo TV é ali na “pinta do lance” certo? Então você fala, foi pênalti e tal. Em jornal você vê o lance depois de três vezes e não vai se “meter a besta” de falar que foi ou não foi depois que todo mundo já viu.


Ana Karla – Fazendo uma comparação com política, se você tem uma tendência mais de esquerda isso reflete nas suas matérias e se você é santista isso reflete nas suas matérias de esporte...
Rovai – Eu acho que na política talvez até reflita mais porque é evidente que até a pauta que as pessoas escolhem pra cobrir tem a relação com as convicções que ela tem. Por exemplo, como eu sou contra a pena de morte, qualquer matéria que eu for fazer relacionada a isso vai ser tendenciosa sim. Eu não vejo problema.


Ana Karla – Como evitar isso? É preciso evitar isso? A pergunta é essa....
Rovai – Eu acho que tem que jogar limpo com o leitor. O leitor sabe.


Márcia Raquel – É aquela questão da imparcialidade. Como você avalia isso? É uma coisa que talvez não seja possível no jornalismo, o importante é ter transparência....
Rovai - Você tem que trabalhar com o leitor de uma forma honesta. Ele tem que saber primeiro que jornal que ele está comprando, que espectro ideológico e político que aquele jornal se localiza e você não pode inventar informações. Você fazer uma análise mais direcionada não significa inventar fatos. Eu não vou dizer para aquele cara que eu sou contra a pena de morte inventando histórias para dar força para minha matéria, eu não vou inventar um título que a minha matéria não sustenta.


Ana Karla – Qual é sua dica para o estudante de jornalismo que está saindo da faculdade agora e está entrando no mercado de trabalho e precisa ter isso claro. Como separar isso, como você, mesmo com suas convicções, passar uma informação de forma imparcial?
Rovai – Não precisa perder suas convicções. Tem como fazer. O texto tem que ser objetivo. Mesmo quando você tem convicções e você faz matérias, você tem que ser objetivo. Eu acho ruim quando jornalista fica adjetivando texto, eu não adjetivo texto, nunca.


Ana Karla – Blog, site, internet como um todo?
Rovai – Não se pautem por texto de blog. Reportagem em site eu acho que ela tem que ter o toque de reportagem de texto jornalístico. Blog é um espaço individual teu para emitir opinião também. Às vezes você dá a informação e dá opinião também, é uma coluna. O blog eu acho que é isso. Agora você faz uma reportagem, você vai cobrir por exemplo a posse do Evo Morales, eu não vou ficar adjetivando “o maravilhoso do Evo Morales”, você conta a história. Agora, até no contar a história é evidente que os meus olhos, a minha pele, os meus passos caminham por um espaço que eu tenho um pouco mais de convicção. Eu por exemplo, fui na posse do Evo Morales, a posse indígena dele, foi num espaço da Bolívia que é uma zona arqueológica indígena, distante de La Paz, cinco horas de carro, tinha índios representando todos os países da América, quase não tinha branco. Chegando lá tinha um bando de jornalistas brasileiros e do mundo inteiro. Estava um sol de rachar, aí tinha índios servindo chá gelado de graça. Tinha jornalista reclamando que o chá não tava do gosto que ele queria, que tava p. da vida porque o sol tava quente demais, “pra que trazer essa porcaria pra cá”, ou seja, reclamando o tempo todo, o tempo todo. O cara ficou reclamando e os olhos deles não conseguiam ficar abertos para verificar a beleza daquilo. E eu só conseguia ver beleza naquilo, imagine um presidente tomar posse num lugar daqueles...


Johnny Marcus – Vamos só voltar um pouquinho. Como que se deu essa transição, você começa cobrindo esporte e depois...

Aruanã Costa – É como que se deu essa transição aí, de estudante, que atuava na militância política, tinha esse contato com os movimentos sindicais no ABC e como surge o jornalista, como começa atuar, você disse dessa sua experiência no jornalismo esportivo...
Rovai – Antes de ir para o Diário Popular (onde cobriu esportes) eu já tinha passado pela Editora Globo, pelo Diário do ABC, pelo Diário de Minas, fazia free-lance para um monte de lugar.


Márcia Raquel – Sempre em política?
Rovai – Aí eu vou te ser franco. Escrevi matéria até pra revista de sexo. Fazia matérias, fazia reportagens...


Aruanã Costa – Pelo prazer?
Rovai – Pelo prazer não, pela grana mesmo (risos). Naquela época era uma dureza. Mas eu não assinava com meu nome, eu assinava com um pseudônimo. Porque eu não ia jogar meu nome numa revista dessas... e fazia reportagens mesmo, aliás eu aprendi muito fazendo essas reportagens.


Aruanã Costa – Por isso que eu falei prazer. Prazer da descoberta (risos). Porque a Márcia perguntou, especificamente política? E você falou, cara, tudo quanto é área. Só que pelo prazer de descobrir qual é o seu lance e aí você vai escrever em cultura, em tudo...
Rovai – Eu acho que essa história de jornalista que sai da faculdade especializado é cultura. Especialidade nenhuma. Você tem que ralar, você tem que ir pra cidade, fazer polícia. Depois você se especializa, dez anos de profissão. Ou se tiver sorte de entrar numa área e conseguir se especializar tudo bem. Porque falar que você sai da faculdade com especialidade é um absurdo, o cara não sabe escrever 10 linhas direito. Porque você sai babando, você está aprendendo, sai cru.


Ana Karla – Você trabalhou mais com impresso, não teve experiência no rádio ou na TV?
Rovai – Rádio eu tive seis meses fazendo um programa, mas era quase na época da faculdade. E TV eu fiquei seis meses também numa produtora que tinha um programa na TV Gazeta de São Paulo, fazendo um programa estranho, onde eu era o repórter de rua e falava mais com empresários, não tinha nada de política ali.


Ana Karla – A gente tem uma discussão muito comum que é se o jornalista precisa passar por todos os veículos para ele ter uma noção do que é realmente ser jornalista. Você acha que isso é necessário?
Rovai – Honestamente não acho. As pessoas tem às vezes possibilidade de entrar no rádio, se firma no rádio e por que ela vai ter que ir pro jornal pra ser jornalista?


Ana Karla – Pra saber como é o dia-a-dia, de pauta, de texto...
Rovai – Mas o jornalismo não é só impresso gente. A gente não pode ter essa visão porque senão a gente está sendo sectário. Tem muito jornalista de rádio muito bom.


Ana Karla – Você virou o ídolo do Johnny agora. (risos)
Johnny - Eu não tô falando nada... (risos)
Aruanã Costa – Acho que até pelo formato, tem pessoas que tem uma inclinação para TV, em rádio...
Rovai – Eu, por exemplo, fiz TV e achei um saco. Eu não gostava, entrevista de um minuto, queria aprofundar o assunto. Mas aí tem jornalistas que fazem a prestação de serviço na TV com muita tranqüilidade. Quando alguém está informando como é que está o trânsito, está fazendo jornalismo. O rádio, agora tem a internet, mas a primeira notícia era no rádio.


Ana Karla – Você não acha que o rádio perdeu muito isso hoje? Porque aqui em Mato Grosso, por exemplo, a gente tem poucas rádios que investem em jornalismo. Como você faz essa avaliação?
Rovai – Isso é no Brasil inteiro. Mas não é por isso que o meio é ruim. A possibilidade de fazer jornalismo bom no rádio existe. Agora, o rádio tem várias distorções. Uma por exemplo é que se investe pouco em publicidade em rádio. Não sei o que acontece. Os nossos publicitários, acho que foram criados só assistindo televisão. Todo o dinheiro que tem nas agências vai pra TV. Então eles distorcem os meios de comunicação no Brasil pela visão distorcida que eles têm do que os meios trazem de resultado.


Márcia Raquel – Já que a gente ta entrando nesse assunto, qual é o seu posicionamento sobre as rádios comunitárias? Você acha que elas são necessárias, que é preciso sim abrir esse espaço e se isso favorece na democratização da mídia?
Rovai – Claro, claro. Eu sou radicalmente a favor das rádios comunitárias. E acho que a potência delas é muito baixa, teria que ser aumentada. Olha, o justo seria no mínimo metade do espectro ser para rádio comunitária. Como não dá, teria que ter mais. Eu acho que ela ajuda a democratizar. Se tivesse uma grande quantidade de rádios comunitárias e de TVs Universitárias, ia ter mais mercado sim pra jornalistas, ia ter muita gente que ia começar fazendo isso e depois ia estudar, outros não iam estudar... Eu tenho boas dúvidas se o diploma é absolutamente importante para todo mundo... eu tenho dúvidas.


Márcia Raquel – Por quê?
Rovai – Primeiro porque eu acho que comunicação é um direito humano. Numa sociedade como essa, onde é preciso se comunicar, onde as pessoas têm essa necessidade humana de comunicação, você pega qualquer pessoa, aquele cara que faz o cordel, que canta, a necessidade de comunicação já era uma coisa antiga. Agora, hoje acho que é fantástica, aí você trabalha essa coisa de diploma de forma a castrar algumas possibilidades que poderiam ser mais amplas, de espaço de comunicação. Eu acho que é algo negociável, porque acho que hoje as empresas vão contratar jornalistas, não vão contratar estudante de filosofia...


Márcia Raquel – Mas você acha dispensável a exigência de diploma?
Rovai – Não, eu acho que pode se exigir, mas não acho que é crucial.


Ana Karla – Então você acha que jornalismo é uma vocação?
Rovai – Eu acho que é uma profissão. Por exemplo: eu dou aula. Eu não sou formado em pedagogia. Eu já dei aula de história, já dei aula de português, agora eu dou aula no curso de jornalismo. Mas em tese teria que ter licenciatura. Por que um cara que vai fazer um caderno de ciências e fez um curso de física, que escreve bem e tal não pode ser o editor desse caderno?


Márcia Raquel – Você acha que é só escrever bem? Por que tem várias pessoas que escrevem bem, mas tem a questão da apuração, da responsabilidade do jornalismo....
Rovai – Mas aí você pode até discutir isso, se for o caso, como um curso, como uma pós (graduação) de um ano. A gente sabe que no curso de jornalismo as pessoas ficam três ou quatro anos para aprender a escrever. Por exemplo, quase não tem aula de ética, aula de filosófica da comunicação, tem assim, teorias da comunicação muito vagamente. E mesmo essas coisas dos princípios éticos a apuração e etc., você trabalhando numa redação você interage com as pessoas e adquire, ganha. Aliás, esse que é o problema, os estudantes estão indo para as redações Márcia, estão adquirindo hábitos que não são bons. Por exemplo, você pega uma Veja, a Veja inventa notícias, ela inventa declarações, ela bota aspas onde não tem...


Márcia Raquel - Mas aí não teríamos que discutir a qualidade da educação nas faculdades do jornalismo?
Ana Karla – Complementando o que a Márcia falou, o diploma não dá essa qualidade pra você evitar esse tipo de coisa que você citou?
Rovai – Olha, a gente discute a questão do diploma por causa da qualidade do jornalismo ou por causa da questão corporativa?


Márcia Raquel – Pelas duas coisas.
Rovai – Você acha mesmo? Você bate tanto o pé pela qualidade do jornalismo? Mas eu não acho ruim bater pela questão corporativa, vejam só, as categorias têm que lutar pelas suas questões. Temos que trabalhar para que nossas condições de trabalho sejam melhores, para que haja uma reserva de mercado sim para os profissionais da área. Agora veja só Márcia, como o fotógrafo ganha a sua carteira de fotojornalista?


Márcia Raquel – Não necessariamente pela faculdade.
Rovai – Então, depois de um tempo de serviço ele comprova e consegue a certeira de fotojornalista. Eu defendo por exemplo, talvez seja o caso de dizer, não se pode abrir mão disso enquanto não se tiver outras coisas, mas eu topo trocar por exemplo o diploma de jornalismo pelo exame de uma ordem de jornalismo. Para que os caras tenham, independente se o cara tenha graduação em jornalismo, possibilidade de fazer um curso de um ano de pós, e que tenha uma ordem de jornalismo que seja o espaço do debate ético da profissão e onde o jornalista possa perder inclusive a sua carteira de jornalista dependendo da atuação...


Ana Karla – Então você é favorável ao Conselho de Jornalismo?
Rovai – Então, você vê que é um novo mecanismo de Conselho, onde os juízes disso seriam representantes da sociedade. Aí precisaria montar uma arquitetura que eu sinceramente não pensei nisso.


Márcia Raquel – Por que você acha que hoje a mídia em geral está tão presa a ao sensacionalismo. Por que existe leitor pra isso? Por que vende?
Rovai – A imprensa hoje, eu tava até lendo um artigo que fala o seguinte: os jornais, se eles não tiverem uma crise pesada a cada um ou dois meses, eles têm que inventar uma porque o jornal não vai vender se não tiver algo quente acontecendo. Então por exemplo: o caso “mensalão”, o caso dossiê do Vedoin, você vê a quantidade que tem que ter? A cada 20 dias os caras estão inventando um novo escândalo para ficar 10 dias remoendo aquilo. Vocês acham que o caso Renan precisava dessa cobertura? De você não agüentar mais abrir o jornal? Pô bicho, tem a reforma política, que não está na pauta... Fazer a denúncia, trabalhar jornalisticamente a matéria é uma coisa. Jornalismo de campanha, seja para o bem seja para o mal eu acho muito ruim.


Márcia Raquel – Mas por que você acha que chegou a este ponto? Tem condições de reverter isso?
Rovai – Eu acho que os veículos comerciais impressos, principalmente os diários, eles estão sofrendo muito com a entrada da Internet.


Johnny Marcus – Tem horas que a gente vê que as tiragens estão diminuindo e as vendagens também. Aí passa uns dias a gente vê que as tiragens estão aumentando e a venda de jornais também. Então em que pé está isso realmente?
Rovai – Hoje o jornal que vende mais no Brasil não é nenhum desses jornalões. É o Super Notícia, um jornal de Minas Gerais, auditado pelo IPC, que audita todos os veículos. No mês de setembro ele chegou a 302 mil exemplares vendidos e a Folha 291 mil por dia. Ele custa R$ 0,25 centavos.


Ana Karla – Por quê? É aquela linha tipo o Extra do Rio?
Rovai – É um fenômeno editorial. É, mas não é só por isso. É mais popular, é um jornal com essas características. Então mesmo a Folha, o Estadão, ele vêm perdendo leitores. Mesmo que a tiragem não tenha diminuído muito, ela deixou de aumentar. E quando não cresce isso é um problema também. Da década de 90 pra cá aumentou o número de pessoas que têm educação formal e não aumenta o número de leitores de jornais, não é estranho? Nesse espectro eles perderam muito espaço para a internet.


Ana Karla – Voltando um pouco, no caso do Renan você repetiu o que a gente ta ouvindo muito na TV que é o caso dos meios serem utilizados para esse tipo de campanha, mas tem que deixar muito claro que não é culpa do jornalista, da mídia, mas sim do interesse empresarial, econômico e político, que existe por trás disso. Então qual é a sua avaliação, qual é a influência hoje desses interesses por trás da informação?
Rovai – É total. Os jornais hoje já não são mais dos empresários de comunicação. Pode olhar localmente. Eu não conheço aqui. Mas eles são ou de grupos econômicos ou políticos. Nos locais onde o poder econômico não é tão forte, os interesses econômicos se confundem com os interesses políticos, ainda são grupos políticos que controlam. Já nos principais centros econômicos do país e do mundo, os grupos econômicos fortes estão adquirindo os veículos.


Aruanã – Aqui na capital, Cuiabá, por exemplo, há três deputados que têm programas, um deles é presidente da Assembléia Legislativa, e todos são candidatos declarados às eleições de 2008. Fazendo um paralelo, falando em democratização da comunicação a impressão que dá – e desde 1996 enquanto estudante de comunicação, ouço falar em democratização dos meios de comunicação, essa é uma bandeira há mais de 20 anos da Enecos (Executiva de Comunicação), e sinceramente, eu não vejo do ponto de vista prático, esses espaços de democratização da mídia - quando a gente fala em rádios comunitárias, por exemplo, não vejo muito avanço nessa área, aliás só vejo retrocesso. Pode ser que eu esteja equivocado. Vi uma entrevista na Caros Amigos sobre o avanço que as rádios comunitárias tiveram nas favelas em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, mas quando sai desse eixo a gente vê que pouca coisa mudou.
Rovai – Eu não conheço muito dessa área porque não tenho militado muito nesta questão das rádios comunitárias, e até acho que deveria entrar mais, to desejoso de fazer isso, mas infelizmente o tempo não permite. O que eu ouço é que tem havido um avanço das rádios comunitárias nas áreas mais pobres e que tem se constituído grupos mesmo de vizinhos, de pessoas próximas pra fazer sua rádio, pra construir sua programação, criando alternativas reais pra algumas localidades. Às vezes a gente é muito cruel na avaliação dos avanços, em todas as áreas, porque a gente não consegue perceber as mudanças quando elas acontecem. Há 10 anos atrás quantos canais de televisão a gente tinha, de verdade, que você podia acessar? Cinco ou seis. Nem a TV a cabo há 10 ou 15 anos atrás havia. Mas fora isso não havia as TVs Legislativas, que eu considero um grande avanço, não tinha a TV Comunitária, que bem ou mal você pode assistir programas diferentes, as TVs Universitárias também não existiam. Então tem um saldo, que ainda é pequeno, mas já tem uma faixa do espectro que não havia para as rádios comunitárias quando nem isso existia. E a luta nessa área talvez seja uma das mais difíceis de travar. É mais difícil democratizar a comunicação do que fazer reforma agrária no Brasil. Não tenho dúvida disso. É uma luta mais inglória. Porque a Reforma Agrária, a terra hoje não é tão importante quanto o que a comunicação pode fazer.


Aruanã – A resistência nesses espaços é por parte dos poderes constituídos?
Rovai – Dos empresários mesmo. Lembra do Conselho de Jornalismo? O que os veículos de comunicação fizeram pra destruir a questão do Conselho? Quando teve o negócio da Ancine foi igual, os caras foram pra cima. As rádios comunitárias, os caras fazem uma campanha diária falando que elas derrubam avião, nunca caiu, nunca vai cair por causa de uma rádio. E o governo está fechando a área. Tem um amigo meu que diz que esse pessoal das rádios tem tido muito espaço de conversa com as pessoas do governo Lula, e isso é muito interessante porque antes tinha menos. Só que esse espaço tem sido na sede da Polícia Federal. Tem cinco mil processados.


Johnny Marcus – Eu estou em uma rádio comunitária tem uns dois anos, mas é uma coisa muito perigosa. Eu tenho notado o seguinte: as associações reproduzem um modelo administrativo de programa da rádio comercial. Existe também gente da rádio comunitária querendo se promover, então é uma coisa que tem que estar vigilante. Mas rádio tem tido um avanço, principalmente na área de jornalismo, o pessoal pára pra ouvir o jornalismo da rádio.
Rovai – São umas 3 mil rádios comunitárias hoje. Os caras calculam que 300 são de caráter independente, 10%. É muito pouco, mas é muito.



Um comentário:

thanh nguyen disse...


Tống sư thúc vốn lạnh lùng cũng phải trợn mắt ra mà nhìn.

Vương Trác lại càng kinh sợ hơn nữa. Hắn hoàn toàn ngơ ngác, trong đầu quanh đi quẩn lại mấy từ:

- Vương Lâm? Phế vật?

Hắn cố gắng lắc đầu. Trong lòng thầm nhủ mình đang nằm mơ, đó chỉ là ảo giác mà thôi.
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Nữ tử họ Từ lấy tay che miệng, thì thào nói:

- Tại sao có thể như vậy? Vương Lâm trở nên lợi hại như thế từ lúc nào?

Rõ ràng tu vi của hắn mới chỉ có Ngưng Khí kỳ tầng ba cơ mà?

Tôn Đại Trụ sờ sờ đầu, thì thào nói:

- Ảo giác. Nhất định là ảo giác. Mẹ nó! Rõ ràng là ảo giác do lão thiên gây ra... Đây có phải là đồ đệ ta hay không?

Nữ tử họ Chu càng mở to mắt nhìn chằm chằm vào Vương Lâm đang đứng trên thạch thai.

Trương Cuồng đã tỉnh lại từ nãy, chỉ có điều hắn sợ xấu hổ nên vẫn giả

vờ hôn mê. Nhưng đến lúc này, hắn thực sự không còn giả vờ được nữa, ngơ

ngác nhìn Vương Lâm trên thạch thai. Đột nhiên, đồng tử của hắn chợt